Nove capítulo 9

A minha ideia foi aprovada e naquela mesma tarde nós fomos atrás de um médium famoso da cidade.

O clima na cidade estava pesado depois do acidente de Ellie e Maya, já que Alpharetta é uma cidade pequena e acidentes são incomuns.

Rick estava mais assustado que qualquer outra pessoa. O horror atravessava seu olhar enquanto ele esperava que algo acontecesse a qualquer momento.

Buscamos acalmá-lo, dizendo que tudo seria resolvido na nossa visita ao médium naquela tarde.

Estávamos aproveitando enquanto a maldição dava uma trégua. Além disso, Kyle alertou Rick a não ir para a floresta, já que ele estava lá em suas visões.

Não demorou muito para que nós seis chegássemos à casa do médium.

Kyle tocou a campainha e nós ficamos aguardando ansiosamente.

Depois de alguns minutos, um homem de meia-idade abriu a porta e olhou confuso para nós.

Explicamos nossa situação e ele nos chamou para entrar.

Nós nos acomodamos no sofá da sala e eu reparei na decoração do cômodo. A casa era muito organizada e contava com quadros de paisagens nas paredes beges. Um cheiro de café recém-passado preenchia todo o ambiente.

O homem se apresentou como Arthur e disse que pegaria café para nós antes de começar a sessão.

Alguns minutos depois, Arthur voltou com as canecas de café. Ele entregou uma para cada um de nós e se sentou em uma poltrona à nossa frente.

- Acho que sei do que vocês estão falando. - o homem iniciou.

- Sabe? - Kyle perguntou com urgência.

- Sim - ele tomou um gole de café - um tempo atrás, um grupo de jovens me procurou relatando a mesma coisa, e eu fiz diversas pesquisas sobre o caso. - ele concluiu, deixando a caneca sobre a pequena mesa à sua frente.

- E onde estão esses jovens agora? - Anne questionou, aflita.

O homem ficou em silêncio por alguns segundos e balançou a cabeça em negação.

- Estão todos mortos.

Senti um arrepio na espinha.

Rick se ajeitou no sofá e Phillipi segurou a mão dele.

- Vocês se meteram em uma baita encrenca, jovens. Vocês estão lidando com um espírito vingativo.

- E o que mais você sabe sobre isso? - perguntei, segurando a caneca em minhas mãos com mais força.

- Sei muitas coisas e acho que isso pode ajudar - ele disse se levantando - um minuto. - pediu.

Alguns instantes depois, Arthur voltou segurando um caderno.

Olhamos confusos e ele se sentou novamente.

- Eu escrevo tudo de importante sobre os casos que pego nesse caderno. - ele falou, abrindo-o.

- E tem algo sobre a maldição que estamos enfrentando? - Ian perguntou.

- Tem tudo. Eu descobri tudo sobre essa maldição na época em que aqueles jovens me procuraram. Infelizmente, não tive tempo de mostrar minhas descobertas a eles.

Olhamos com pesar, mas ao mesmo tempo com alívio, pois nós teríamos a chance de saber tudo a tempo.

Arthur começou a falar, e nós olhamos atentamente para ele.

- Tudo começou na década de 80. Existia um garoto muito bondoso em Alpharetta, tão bondoso que parecia um anjo. O nome dele era Billy - Arthur fez uma pausa -, mas ele era tão inocente que um dia foi enganado por um grupo de nove meninos mais velhos.

- O que eles fizeram? - Kyle perguntou, curioso.

Arthur suspirou.

- Eles o mataram.

Olhamos para Arthur em choque.

- Eles levaram Billy até a floresta, o afogaram e arrancaram... - Arthur fez uma pausa, abalado - arrancaram os olhos dele.

- Então... - Kyle começou.

- Ele se tornou um espírito vingativo preso naquela floresta. - Arthur interrompeu, sabendo o que Kyle iria dizer.

- Depois, ele foi atrás dos nove garotos que o mataram, mas não teve descanso, então ficou preso nesse ciclo de nove assassinatos, sempre fazendo novas vítimas, sendo elas inocentes ou não.

- As condições da maldição são...

- Nós sabemos as condições - Kyle interrompeu - queremos saber como acabar com isso.

Arthur se ajeitou no sofá.

- Não é nada garantido, mas normalmente, para libertar espíritos desse tipo e, consequentemente, acabar com a maldição, é preciso mostrar a ele quem ele era. Às vezes, o espírito só está cego pela sua ira e se perdeu em sua própria vingança. Ao final, também é importante queimar o corpo do ser e qualquer objeto relacionado a ele no contexto da maldição.

- Como assim não é garantido? Precisamos de algo eficaz! - Kyle disse, levemente alterado.

- Bom, vocês não têm nada a perder, então não custa tentar. - Arthur disse dando de ombros.

Kyle suspirou.

- E como você descobriu tudo isso com tanta facilidade? - perguntei, curiosa.

Arthur desviou o olhar por alguns segundos e respirou fundo.

- O Billy era... era meu irmão. - ele revelou, com a voz falha.

Olhamos, incrédulos.

- O quê? - eu disse quase sem perceber.

- Quando aqueles jovens me contaram o que estavam vivendo, eu soube imediatamente do que se tratava. Todos aqueles assassinatos... não poderiam ser coincidência. - ele disse enquanto olhava para o chão e encostava as costas no sofá.

Ficamos paralisados de surpresa.

- Quando Billy morreu, nós demoramos para descobrir. Ele desapareceu, e nós tivemos esperança de que ele voltaria, mas um dia um daqueles jovens bateu na minha porta e confessou tudo o que haviam feito com ele. Eu senti vontade de matá-lo, mas não foi preciso. Billy fez isso antes de qualquer outra pessoa, antes mesmo que aqueles desgraçados pudessem pagar pelo que fizeram na justiça. O corpo dele nunca foi encontrado, então nós fizemos uma cerimônia de caixão vazio, mas não foi suficiente para trazer paz a ele.

- Não sei como ele nunca me incluiu nisso. - os olhos de Arthur estavam marejados.

- Você... você nunca tentou acabar com isso? Libertar ele? - Ian perguntou.

- Ian! - Kyle repreendeu.

- Não, tudo bem... - Arthur disse, acenando com as mãos para Kyle - eu nunca tentei porque ele nunca apareceu para mim, e mesmo que aparecesse, eu acho que... que eu não seria forte o bastante para acabar com isso. - ele assumiu, secando os olhos úmidos.

- Nós sentimos muito, senhor Arthur. - falei sem graça.

Arthur apenas assentiu com a cabeça.

- E... quanto a isso? - Rick disse, quebrando o silêncio.

Ele ergueu o braço na direção de Arthur, segurando o colar de prata que brilhava com a luz do sol que entrava pela janela.

O rosto de Arthur ficou pálido, e as lágrimas voltaram a surgir, inundando seus olhos verdes.

- É o colar que o Billy usava. - ele disse, encarando o objeto que balançava entre os dedos de Rick.

- Isso apareceu de repente na minha casa. - Rick falou.

Arthur desviou o olhar do objeto e olhou diretamente para nós.

- Vocês têm que se apressar. Ele usa isso para marcar sua próxima vítima! - ele falou com os olhos arregalados.

Rick engoliu seco.

De repente, o rosto de Arthur se contorceu em uma expressão de dor, e ele se jogou para trás com os dedos sob o nariz.

- Senhor Arthur, você está bem? - perguntei com a voz trêmula.

Arthur tirou os dedos que cobriam seu nariz e olhou surpreso. Seus dedos estavam cobertos pelo líquido carmesim que emanava de seu nariz.

Rick apertou o colar com força e o colocou de volta em seu bolso.

- Vocês têm que ir. - Arthur disse com urgência.

Ele não parecia bravo, só... assustado.

- Eu não posso ser envolvido nisso... eu... eu não vou suportar! - ele falou, limpando o nariz compulsivamente.

- Tudo bem senhor, nós já estamos indo. - Kyle disse, nervoso.

Deixamos as canecas sobre a mesa, levantamos e caminhamos rapidamente até a porta da frente, enquanto Arthur parecia nem ligar para nós, ainda limpando o nariz compulsivamente.

Ficamos preocupados com ele, mas o melhor naquela situação era deixá-lo sozinho. Não poderíamos perturbar aquele pobre homem ainda mais.

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