Nove capítulo 3

Na manhã seguinte eu abri os meus olhos e os flashes da noite anterior surgiram. A princípio acreditei que tudo aquilo tivesse sido apenas um pesadelo. Mas logo me dei conta que tudo tinha sido real.

Esfreguei meus olhos e olhei ao redor me deparando com o reconfortante e nostálgico porão da casa dos Harper. Aquele lugar era o nosso refúgio, nosso mundinho, o lugar que passamos toda a nossa infância vivendo momentos felizes entre amigos e o lugar que parecia poder nos proteger de qualquer monstro.

Passei alguns segundos olhando ao redor, vendo as paredes de madeira, os livros, os bonecos e jogos de tabuleiro nas estantes fixadas na parede, os cartazes de coisas de nerd que todos nós gostávamos, a mesa de centro onde costumávamos criar planos mirabolantes ou só jogar jogos e ler gibis, as poltronas marrons espalhadas pelo cômodo, o sofá grande onde eu estava sentada, a escada e a porta que Rick atravessou na noite anterior, irritado com todos nós. Senti meu coração apertar de angústia. Eu sempre fui muito próxima de Rick, nós costumávamos conversar bastante sobre nossos sentimentos amorosos por Kyle e Phillipi, doía saber que ele havia dado um fim a nossa amizade na noite anterior.

Passei longos segundos assim, agradecendo por estar ali, em segurança, mas ao mesmo tempo, pensando em Rick.

- Bom dia. - Kyle disse puxando minha atenção.

Olhei para ele que estava sentado em uma das cadeiras próximas da mesa e depois notei Anne e Ian dormindo nas poltronas próximas.

- Bom dia. - respondi.

Me levantei e caminhei até a mesa, me sentei em uma das cadeiras de frente para Kyle e comecei a falar:

- Nem acredito que tudo aquilo foi real.

- Pois é, nem eu.

- Tipo, que porra era aquela? - eu disse suspirando.

- Que baita azar nós demos ontem - ele abaixou o olhar - tempestade, fantasmas e brigas.

- O Rick... será que ele vai perdoar a gente?

- Ele vai ficar bem.

- Eu espero que sim.

O silêncio pairou entre nós por um breve momento, o único som ouvido era da fraca chuva batendo contra o telhado da casa.

- Eu vou ter que voltar lá hoje. - Kyle quebrou o silêncio.

- O que? Por que?

- Deixamos todas as nossas coisas lá. Eu vou buscar e vou sozinho, não quero colocar mais ninguém em perigo.

- Não! Você não pode ir. É perigoso!

- Precisamos daqueles equipamentos para nossos próximos acampamentos, mesmo que a gente não vá acampar de novo tão cedo depois de ontem. - ele riu sem humor.

- São só equipamentos Kyle. - eu disse um pouco alto demais, Anne e Ian ameaçaram acordar.

Kyle e eu nos entreolhamos.

- São só equipamentos. - eu disse mais baixo dessa vez.

- E eu vou buscá-los. Não se preocupe, eu estou indo agora enquanto ainda é dia.

- Eu vou com você!

- O que? Não!

- Eu já sei pra onde você tá indo Kyle e não vou deixar você ir sozinho. Se você recusar eu vou te seguir.

Kyle sorriu leve e balançou a cabeça. Ele sabia que eu estava falando sério.

- Ok. Vamos antes que eles acordem. - ele disse apontando para Ian e Anne.

Deixamos um pequenos papel na mesa de centro, para quando Anne e Ian acordassem. Falando apenas que nós dois tivemos que sair.

Pegamos duas capas de chuva e comemos as panquecas feitas pelo xerife Harper antes de embarcar na nossa nova aventura.

Ficamos em silêncio durante a maior parte do trajeto apenas ouvindo nossos passos, o som da chuva e o irritante barulho que as capas produziam conforme nos movimentávamos.

Quando o cenário urbano finalmente deu lugar a uma infinidade de coisas verdes Kyle finalmente quebrou o silêncio.

- Esse lugar me dá arrepios agora.

- Pelo menos não parece sombrio como ontem a noite. - eu disse observando as árvores e plantas cobertas por gotas de chuva e pequenos insetos.

- Tem razão.

Continuamos andando sobre a terra molhada e lamacenta, dessa vez estávamos conversando afim de espantar o medo e nos distrair até chegar no local do acampamento.

Eu me sentia observada a todo momento dentro daquela floresta, como se algo estivesse a nossa espreita entre as árvores, eu até olhei ao redor tentando encontrar qualquer coisa que pudesse estar causando essa sensação mas não havia nada lá então eu decidi continuar me distraindo com as histórias de Kyle.

Finalmente chegamos no acampamento que estava intacto, do jeito que havíamos deixado, e começamos a juntar nossas coisas.

De repente eu ouvi... o mesmo som de galho se quebrando da noite anterior.

Rapidamente levantei minha cabeça e olhei para a mata a nossa frente.

- Tá tudo bem? - Kyle perguntou olhando para mim.

- Vamos rápido, eu ouvi alguma coisa.

Eu vi o medo atravessar o olhar de Kyle.

- Fica calma, não deve ser nada.

- É o mesmo som da noite anterior Kyle, tem algo ali, eu tenho certeza. - eu disse guardando as coisas na mochila com mais rapidez.

Kyle também começou a guardar as coisas com mais rapidez e logo havíamos acabado nossa tarefa.

- Pronto, agora vamos dar o fora desse lugar. - ele disse colocando a mochila nas costas.

Assenti.

Começamos a fazer o trajeto de volta pelo caminho que havíamos vindo, o mesmo caminho que atravessamos correndo na noite anterior.

O meu coração estava acelerado, pronto para reagir caso algo surgisse, mas dessa vez caminhávamos com mais cautela pela descida escorregadia, sem a adrenalina da noite anterior.

Kyle não parecia tenso como eu, mas tenho certeza que ele estava.

Ele estava andando na minha frente, tomando todo cuidado para não escorregar e eu fazia o mesmo.

Quando estávamos no que parecia ser a metade do caminho, Kyle se virou para mim

- Viu? Deu tudo cer... - sua voz foi interrompida por um estalo abafado.

Kyle desapareceu da minha frente em fração de segundos enquanto a terra que ele pisava anteriormente cedia sob seus pés.

Meus olhos se arregalaram.

- KYLE! - eu gritei indo até onde ele havia caído.

Kyle estava dentro de um buraco, ele estava deitado e coberto por uma fina camada de terra.

O lugar não era tão profundo, mas também era impossível que Kyle saísse de lá sozinho.

- Kyle? Kyle?

Eu comecei a chamar o nome do meu amigo desesperadamente, mas a resposta não chegava, Kyle permanecia imóvel e inconsciente.

- Droga! - eu disse olhando ao redor, as árvores pareciam girar ao redor de mim.

- Kyle? Você tá bem? Fala comigo por favor!

Dessa vez ele tossiu e uma onda de alívio rapidamente tomou conta de mim.

Ele começou a se levantar.

- Ai graças a Deus!

- Que droga - ele disse ainda tossindo - como vou sair daqui? É muito fundo.

- Calma! Fica calmo! Olha se tem algo que você possa usar para se apoiar e subir.

- Não tem nada aqui. Eu nem sabia que isso era possível. - Kyle disse colocando a mão na cabeça, mostrando que estava com dor.

- Tem alguma corda aqui? - perguntei com a voz trêmula.

- Não. - Kyle disse com nervosismo evidente.

- Eu vou ter que ir até a cidade para buscar ajuda. - eu disse.

- Tem que ter um jeito.- Kyle não escondia mais o horror em sua voz.

De repente aquele som ecoou novamente cortando o ar. Aquele grito gutural e monstruoso.

Senti meu coração martelar dentro do peito, algo me mandava correr mas eu não podia deixar Kyle para trás.

Vi o rosto de Kyle empalidecer.

Me levantei e comecei a caminhar em direção as árvores, ouvindo a voz trêmula de Kyle.

- Z-zoe.

Em poucos minutos eu voltei para perto do buraco com um grande cipó, Kyle suspirou de alívio ao me ver de volta, ele provavelmente pensou que ia ser abandonado.

Mas o alívio não durou muito pois logo os gritos voltaram e a chuva também.

Lancei o cipó para dentro do buraco e Kyle agarrou o mesmo.

Ele começou a tentar subir mas o cipó estava muito escorregadio por conta da chuva e as mãos dele começaram a ficar tão machucadas que o sangue escorria junto com a água.

- Vai! Você consegue! - eu gritei para ele.

Kyle começou a gritar, seu corpo estava evidentemente fraco e os ferimentos nas mãos não estavam ajudando em nada.

- Eu não consigo! - ele falou com lágrimas nos olhos.

Meu coração se partiu em mil pedaços ao vê-lo naquele estado, um misto de medo e ángustia.

Ouvi passos nas árvores ao redor de nós e senti como se fosse desmaiar de tanto terror.

- Agora! Você precisa conseguir Kyle!

Puxei o cipó com mais força e senti Kyle o agarrar mais forte, ele soltava grunhidos de dor e respirava pesadamente, com muita dificuldade.

Um raio iluminou o céu e Kyle finalmente alcançou a superfície da terra.

Rapidamente larguei o cipó e me arrastei até ele, o ajudando a terminar de subir.

Kyle arfou e depois se jogou sob a terra molhada. Ele fechou os olhos e continuou respirando pesadamente por alguns segundos.

Suspirei de alívio e ele fez o mesmo.

Os barulhos na mata voltaram nos fazendo recuperar o estado de alerta.

- Droga, de novo não. - Kyle disse se levantando rápido, eu fiz o mesmo.

Pegamos nossas coisas e começamos a andar o mais rápido possível, tomando cuidado com onde pisávamos.

O resto do trajeto foi bastante tenso. Sentíamos como se a qualquer momento algo fosse surgir por entre as árvores, além disso Kyle estava com muita dor e medo de cair novamente.

Quando finalmente chegamos na cidade, respiramos aliviados.

- Você tá bem? - perguntei.

- Na medida do possível. - ele respondeu, forçando um sorriso e passando os dedos nos ferimentos de suas mãos.

Depois desses eventos nós juramos uns para os outros que não voltaríamos mais naquela floresta e que se fossemos acampar, iriámos buscar por lugares mais seguros e sem lendas.

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