Baunilha capítulo 4
Lembro-me de eventos estranhos que aconteceram na época que Nick foi levado, naquele tempo eu não tinha forças para prestar tanta atenção naqueles fatos.
A primeira coisa que eu deixei passar despercebida por um longo tempo foi o sumiço de Patrick, para mim, o tigre de pelúcia estava perdido dentro da casa na árvore, o lugar que eu nunca mais voltei e que eventualmente ficou completamente deteriorado.
Era uma casinha bem forte e resistente mas sem os cuidados necessários ela ficou arruinada. Minha mãe entrou lá um dia e tirou tudo que estava lá. Ela colocou tudo em caixas de papelão e eu imaginei que Patrick estivesse lá.
Por falar na minha mãe, todos os dias ela checava a caixa de correios e toda vez que encontrava alguma correspondência eu podia perceber seu rosto ficando pálido. Eu preferi não me intrometer nisso já que parecia algo pessoal.
Eu passei a ter muitos pesadelos mas na época eu tratei como algo natural já que eu estava passando por um estresse pós-traumático.
Alguns dos pesadelos que me fazem gelar até hoje foram aqueles onde eu consegui ouvir perfeitamente passos e alguém assobiando aquela música, dentro do meu quarto.
Mas o pior definitivamente foi aquele onde eu vi uma silhueta se esgueirando para dentro da vazia e arruinada casa na árvore.
Esses pesadelos em específico pareciam... reais demais.
Depois do pesadelo da casa na árvore minha mãe resolveu repentinamente se mudar daquela casa, ela estava com bastante pressa.
Eu gostei da ideia pois sentia que poderia fugir daquelas memórias ruins em um novo bairro, mas obviamente não foi bem assim, as memórias me acompanharam, a culpa e a saudade de Nick também.
Woodstock é uma cidade pequena então mesmo em um novo bairro e em uma nova escola todos sabiam os acontecimentos daquela noite.
Lá os olhares de julgamento - e alguns até de pena - perpetuavam, mas ninguém me intimidava.
O tempo se passou seguindo esse mesmo fluxo e eventualmente eu concluí o ensino fundamental, com a chegada do ensino médio algumas coisas mudaram.
Nesse período a escola recebeu diversos alunos novos, esses novos alunos descobriam sobre a história que marcou Woodstock e ao perceberem que eu estava envolvido, vinham atrás de mim. Alguns com uma curiosidade quase inocente, outros com uma maldade caricata.
Independente da intenção eu tratava todos de maneira ríspida, isso me trouxe uma péssima fama - algo que eu sempre tive - e me deu muitos inimigos também.
Um dia eu estava sentado em um canto qualquer da escola, procurando algum tipo de brecha para fumar escondido durante o curto período do intervalo. De repente, ouvi passos se aproximando e fiquei em estado de alerta. Três garotos emergiram das sombras e ao notarem minha presença abriram largos sorrisos, como se estivessem diante de um espetáculo.
- Olha só quem está aqui. - o primeiro garoto parou na minha frente com os braços cruzados e um olhar convencido, seus colegas ficaram um passo atrás dele.
Guardei os cigarros no bolso e olhei para eles com meu olhar cansado e indiferente.
- O famoso Toby Foxy!
Permaneci em silêncio, fazendo o possível para controlar meus nervos.
- Não vai falar nada? Não vai nos contar sobre o homem do sorvete? - ele disse se inclinando um pouco para a frente com um sorriso cruel.
Fechei meus olhos e abaixei a cabeça tentando controlar minha respiração.
- E... Nick? - o garoto completou quase sádico.
Abri meus olhos e ergui minha cabeça, deixando a raiva transparecer em meu olhar.
O garoto colocou seu corpo de volta no lugar, ainda olhando para mim com satisfação.
Cerrei os punhos e quando eu estava prestes a tomar uma decisão...
- Já chega Bruno. - uma voz feminina ecoou atrás dos garotos.
Os três se viraram surpresos e indignados.
- Quem é você? E porque eu deveria te obedecer?
A garota riu.
- Porque eu sou filha de um policial e posso muito bem contar para ele que você está perturbando a paz de pessoas na escola.
- E daí? - o garoto respondeu rindo com incredulidade.
- Daí que ele pode bater na porta da sua casinha - ela disse chegando mais perto do garoto - e ter uma conversinha nada legal com o seu pai. - ela concluiu olhando nos olhos do garoto.
Ele engoliu seco.
- Ouvi dizer que seu pai não pega leva nas punições que te dá. - ela disse parando entre eu e o grupo de garotos.
- Você vai deixar ela falar assim com você cara? - outro garoto do grupo questionou.
- Vamo embora daqui. - o garoto respondeu com a voz trêmula.
Os três saíram e a garota ficou. Ela se virou para mim e me olhou de cima abaixo como se me analisasse.
- Você tá um caco. - ela disse.
Passei a mão nos meus cabelos ruivos, desconfortável.
- Se você tá aqui para me perguntar algo sobre os crimes que aconteceram em 1990 saiba que eu não vou te dizer nada.
- Eu não quero saber nada disso, até porque eu já sei tudo. Eu só vim te ajudar tá legal?
- Eu não preciso de ajuda. - respondi ríspido.
- Tudo bem.
Ela deu as costas e começou a caminhar, mas, de repente parou e se virou para mim.
- Não foi sua culpa.
Engoli seco.
- O quê? - respondi em choque.
- Para de se culpar por algo que você não teve controle.
E com isso ela saiu, me deixando perplexo.
Depois que todos saíram e eu finalmente fiquei sozinho, tirei os cigarros do bolso e acendi um.
Ela estava certa. Eu estava um caco.
Magro, abatido, desleixado, com olheiras profundas abaixo dos olhos e viciado em cigarros.
Afundando cada vez mais em um abismo.
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