Moldura amarela capítulo 6

Senti como se tivesse sido arrancado de um sono profundo. Eu havia despertado, mas minhas pálpebras pareciam tão coladas que eu pensei ser impossível abrir os olhos.

Separei meus lábios secos e tentei respirar, como se precisasse de todo o ar do mundo.

O som das coisas ainda era turvo, como se tudo estivesse debaixo d'água, mas eu ainda pude distinguir os equipamentos de rodinhas sendo arrastados pelos corredores, vozes distantes e o bip de algum aparelho.

Lentamente abri meus olhos, sentindo um forte incômodo ao desgrudá-los. Tudo estava embaçado, mas eu quase fui cegado pela luz branca.

Uma silhueta sentada em minha cama tomou forma diante daquela luz alva e, ao notar meus pequenos movimentos, chegou mais perto.

Tudo foi ficando mais claro aos poucos, inclusive aquela pessoa diante de mim.

- O-Olívia... - murmurei, mas tive certeza de que ela não ouviu, pois minha voz parecia só um ruído estranho.

Ela se aproximou mais e eu pude ver seus olhos castanhos arregalados.

- Mike! - ela falou - finalmente você acordou!

Coloquei minha mão sobre a cabeça, sentindo uma leve dor tomar conta de mim.

- Q-quanto tempo... quanto tempo eu estou aqui? - falei, tentando me colocar sentado. Olívia me ajudou.

- Já faz alguns dias. - ela disse, se afastando.

O silêncio pairou no ar por alguns instantes. Olívia fitava o chão com seus olhos cansados e sua expressão abatida.

- O-o que aconteceu? - questionei.

Olívia olhou para mim. Ela demorou um pouco para começar a falar, parecia procurar pelas palavras certas.

- Depois que... que o Albert morreu - ela fez uma pausa, abalada ao citar aquilo - o FBI finalmente levou o caso a sério. Eles investigaram toda a situação e prenderam os outros envolvidos.

Separei meus lábios para dizer algo, mas Olívia continuou.

- Mesmo sendo óbvio que foi legítima defesa, ainda teremos que prestar depoimento e comparecer ao julgamento.

Olívia respirou fundo.

- Eu... eu tô cansada dessa história! Eu só queria ficar em paz depois de tanto sofrimento! - ela disse se levantando da cama.

- Eu sinto muito... por você ter passado por todas essas coisas. - falei, atraindo a atenção dela.

- Também sinto muito, Mike. Eu fiquei sabendo de tudo que aconteceu. Meus pêsames pela morte do seu pai.

Assenti com a cabeça e o silêncio tomou conta do quarto outra vez. Olívia olhava para o chão com os olhos marejados.

- O Albert - comecei a falar - ele fez eu pensar que você estava morta.

Olívia riu sem humor.

- Aquele desgraçado... espero que ele esteja queimando no inferno agora.

Respirei fundo, sentindo o forte cheiro de desinfetante na sala, e me ajeitei na cama.

- Sabe... eu senti falta da nossa amizade. - falei meio sem graça.

Olívia olhou surpresa para mim.

- Eu pensei que você não se importava. Você foi embora para Saint Charles tão de repente. - ela falou com os olhos úmidos.

- Meu pai fez eu ir morar com a minha mãe, para me proteger do Collins... eu não tive tempo de avisar, sinto muito.

- Tudo bem... isso não importa mais, de qualquer maneira. - ela falou, secando os olhos.

Olívia cruzou os braços e olhou para o chão.

- E a sua mãe? - ela questionou, levantando a cabeça novamente - onde ela está? Ela não veio te ver?

Desviei o olhar para a janela.

- Espero que não tenha vindo. Meu pai ainda tentou fazer alguma coisa para me proteger daquele monstro. Já ela era quase uma cúmplice. - falei com voz embargada.

- Por quê? - Olívia questionou com o cenho franzido.

- Ela não quis revelar que era ele. Se ela tivesse revelado, eu teria entendido a dimensão das coisas e isso teria evitado muita coisa - suspirei - então não quero vê-la tão cedo.

- Meu Deus... - Olívia balbuciou.

Não sabíamos o que dizer ou como agir na presença um do outro. Olívia e eu tínhamos nos tornado quase desconhecidos.

Ela deu a volta em minha cama e foi para perto da janela.

Fiquei com meu olhar fixo na parede branca à minha frente, nadando no silêncio.

Até que uma memória atravessou minha mente e atingiu meu coração como uma lâmina.

- A-Antony... - murmurei - cadê o Antony? - perguntei com urgência, me virando para Olívia.

Ela não se virou para mim, mas pude ver que abaixou a cabeça.

- O Antony... - ela começou a falar com a voz fraca - o Antony sobreviveu. - Olívia concluiu, se virando para mim.

Olhei surpreso, e uma onda de alívio tomou conta do meu corpo.

- E-ele está vivo?!

- Está... os médicos consideraram um milagre - ela fez uma pausa enquanto se aproximava um pouco da minha cama - ontem... ontem eu encontrei os pais dele em um corredor.

Olhei atentamente para Olívia.

- Eu perguntei como ele estava, mas eles não quiseram falar comigo... eles estavam... destruídos.

Senti meu coração se partindo em mil pedaços.

Olívia secou as lágrimas que começavam a surgir e umedeceu os lábios.

- Hoje o quarto dele foi aberto para visitação, mas... eu não tive coragem de ir lá. Eu não sei se estou pronta para o que vou encontrar - ela desabou em lágrimas - é culpa minha ele estar lá!

- Ei... - falei colocando a mão no ombro dela - não foi sua culpa.

Isso não pareceu consolar Olívia. As lágrimas continuavam a cair de seus olhos.

- Ele fez tanto por mim... - ela voltou a falar - e eu nem consegui proteger ele.

Fiquei em silêncio, pois eu também sentia aquela culpa... eu também não tinha conseguido proteger Antony.

- Ei, vamos visitar ele... juntos. - sugeri, atraindo os olhos vermelhos dela para mim.

- Isso é tudo que podemos fazer por ele agora. - completei.

Ela secou as lágrimas que estavam em suas bochechas e falou:

- Tudo bem.

Olívia tomou distância, e eu comecei a me levantar.

Mas parecia que eu estava há anos deitado naquela cama. Meu corpo todo estava dormente e meus ossos estalavam a cada novo movimento.

Com muita dificuldade, eu me coloquei de pé. Estava tão fraco que quase caí para trás, se não fosse por Olívia me segurando.

Ela me ajudou a sair do quarto, e nós começamos a caminhar pelo corredor pálido.

Meus braços estavam em volta dos ombros de Olívia, e ela segurava minha cintura. Eu me sentia completamente miserável com aquela roupa hospitalar e aquela fragilidade.

Finalmente, chegamos na frente do elevador. Olívia apertou o botão correspondente ao andar em que Antony estava e nós ficamos esperando.

Quando as portas do elevador se abriram, pude ver o rosto de Olívia ficando pálido. Eu quase caí, pois ela parou de me segurar com tanta força.

Eu também fiquei em choque, já que... Amber Collins estava dentro daquele elevador, com seus cabelos loiros caindo sobre os ombros e um rosto tão surpreso quanto o de Olívia.

Ela também usava uma camisola hospitalar e tinha cortes espalhados pelo rosto.

Aquele momento pareceu congelado, até que Olívia deu um passo para trás, forçando que eu fosse junto, e desviou o olhar.

Amber abaixou a cabeça e passou ao meu lado, quase esbarrando em meu ombro.

Olívia me arrastou para dentro do elevador às pressas e apertou os botões de fechar as portas freneticamente, enquanto Amber sumia no fim do corredor.

- Você tá bem? - questionei.

- Claro! Eu não estou nem aí pra essa cadela. - Olívia respondeu.

Ela tentou soar firme, mas sua voz trêmula deixava claro que estava abalada com aquele encontro.

As portas do elevador se abriram, e Olívia saiu na frente, em passos largos e apressados.

Eu ainda estava um pouco tonto, mas já conseguia parar de pé e caminhar sozinho, então comecei a segui-la.

Mas ela caminhava tão rápido que eu mal conseguia acompanhar.

O nervosismo transparecia em cada movimento dela.

- Espera, Olívia! - gritei enquanto atravessávamos o corredor.

Ela diminuiu o passo, até que eu a alcançasse.

- Me desculpa. - falou com a voz fraca e com a cabeça baixa.

Continuamos nosso trajeto em silêncio, até que Olívia ergueu a cabeça e parou na frente de um quarto.

Na porta havia um papel com o número do quarto e o nome do paciente...

Antony Peletier.

Senti um aperto no peito e um frio na espinha.

Olívia estendeu a mão na direção da maçaneta, mas hesitou.

Ela respirou fundo, fechando os olhos.

- Deixa que eu faço isso. - falei.

Dei um passo à frente, toquei a maçaneta, abaixei-a e soltei um suspiro quando a porta começou a se abrir. Ela se moveu lentamente, revelando um trecho do quarto de Antony de cada vez.

Até que se abriu totalmente, e finalmente tive a visão de tudo.

Havia uma cama perfeitamente arrumada, com um criado-mudo ao lado e um abajur em cima. Havia também uma enorme janela, que exibia a floresta e o céu nublado lá fora. Os únicos sons presentes no quarto eram o som da chuva batendo contra o vidro e o bip dos aparelhos.

E junto à janela, de costas para nós, sentado em uma cadeira de rodas, estava Antony.

Olívia deu um passo para trás. Eu olhei para ela e dei um passo à frente, tentando encorajá-la, mas ela não me seguiu.

Então eu adentrei o quarto e comecei a caminhar lentamente na direção de Antony.

Ele não havia notado nossa presença e continuava parado, olhando para a janela.

- Antony? - chamei.

Sem resposta.

Eu podia jurar que conseguia ouvir o som do meu coração junto ao som da respiração pesada de Olívia.

- Antony... sou eu... o Mike. - falei chegando mais perto.

Sem resposta.

Parei a poucos metros dele e me virei para Olívia, vendo a aflição em seu olhar.

Sem aguentar mais, dei outro passo e parei na frente de Antony, entre ele e a janela.

Senti meu coração se estilhaçando dentro do meu peito.

Olívia deve ter percebido o choque em meu olhar, pois ela gritou perguntando o que estava acontecendo.

E eu não tive forças para responder. As palavras morreram dentro de mim.

Os olhos de Antony nem se moveram diante da minha presença. Ele continuava olhando fixamente para a janela, que era refletida em seus olhos azuis vazios.

Nada nele se movia. Nada. Ele estava completamente paralisado.

As marcas da violência sofrida ainda estavam presentes. Seu nariz continuava fora do lugar, e seu rosto estava coberto por cortes, pontos e curativos.

Mas ele não tinha reação alguma.

Foi aí que eu percebi que Antony estava morto.

Não morto da forma que te deixa sem sinais vitais, com a pele fria e decomposta, mas morto de uma forma pior... morto por dentro.

Aquilo era só sua casca vazia.

E ele nunca voltaria a ser o mesmo de antes.

Cambaleei para trás.

- A-Antony... - murmurei enquanto as lágrimas queimavam em meus olhos.

Olívia finalmente saiu da porta e veio correndo em nossa direção.

Quando ela viu o estado de Antony, colocou as mãos sobre a boca e começou a chorar.

Aquilo foi como levar um soco no estômago.

Quando somos confrontados por algo tão absurdo e inconcebível, nos agarramos à esperança de estar em um pesadelo.

E eu tentei acordar.

Mas não consegui, porque não era um pesadelo.

Era real. Amargamente real.

- A-Antony... pelo amor de Deus... - supliquei com a voz baixa demais.

Mas foi inútil.

Meu amigo nunca voltaria a ser quem ele foi um dia. Ele nunca voltaria a sorrir ou a contar piadas idiotas.

E perceber isso fez com que um abismo se abrisse em meu peito.

Me ajoelhei diante de Antony, segurei suas mãos e abaixei minha cabeça, permitindo que as lágrimas escapassem de meus olhos, enquanto eu ouvia o som da chuva batendo contra o vidro e os soluços de Olívia.

Ergui minha cabeça novamente e notei algo que, por um instante, me fez pensar que estava delirando.

Algo... brilhou em um dos olhos de Antony...

Então, uma única e solitária lágrima caiu de seu olho esquerdo.

De alguma forma, ele ainda estava lá.

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