Nove capítulo 11
Aquela noite estava mais fria do que qualquer outra, talvez porque o inverno se aproximava ou porque a tristeza me deixava com o corpo gelado.
Depois que Rick sumiu, as coisas perderam ainda mais o sentido. Ele era meu melhor amigo e saber que eu nunca mais o veria dilacerava meu coração.
Ver Phillipi sofrendo deixou tudo ainda mais doloroso. Claro, todos nós sofremos com o desaparecimento de Rick, mas para Phillipi aquilo bateu mais forte, já que era o amor de sua vida.
Eu passei a ter pesadelos com aquelas malditas mãos pálidas e ossudas rasgando minha pele. Aos poucos, elas tiravam tudo de mim, não demoraria para tirar minha vida.
Eu estava presa em meus devaneios enquanto jogava Angry Birds em meu celular, quando o jogo foi pausado e uma ligação de Anne puxou minha atenção.
Senti meu coração bater mais rápido. Ligações nesses tempos nunca vinham com boas notícias.
Atendi rapidamente.
- Anne? O que foi? Aconteceu alguma coisa? - eu disse, me levantando da minha cama.
- Z-Zoe... - ela falou com a voz trêmula.
Senti meu coração afundar.
- Eu sinto muito, Zoe... eu sinto muito. - ela disse entre lágrimas.
- O que aconteceu, Anne? O que aconteceu? - minha voz subiu uma oitava por conta do desespero.
- Vem pro xafariz da praça central. - ela falou com a voz falha.
Eu ainda estava congelada no meio do meu quarto quando Anne desligou a chamada.
Então, entendendo a gravidade da situação, eu finalmente comecei a agir. Larguei meu celular sobre a cama, vesti um casaco amarelo volumoso, prendi meu cabelo com a fita azul que ganhei de Rick em meu aniversário e saí de casa às pressas.
Corri contra o vento gelado que cortava a noite e em poucos minutos, cheguei à praça.
Uma multidão se estendia na frente do xafariz, impedindo que eu visse o que acontecia lá.
O nervosismo começou a correr pelas minhas veias e eu comecei a empurrar as pessoas, abrindo passagem até o xafariz, sem saber se eu estava preparada para o que veria.
E eu não estava.
Quando eu vi, senti o frio tomar conta dos meus ossos enquanto meu coração começou a bater de forma irregular. O mundo ao redor pareceu ficar mais lento e silencioso.
A fita azul balançava em meus cabelos com o vento que soprava.
E diante de mim, deitado sobre a parte mais alta do xafariz, como uma escultura posta com cuidado, estava... Phillipi.
Seus olhos arregalados olhavam para o céu como se estivessem em comunhão com as estrelas. Seus cabelos ainda dançavam com a brisa da noite, e sua boca entreaberta eternizava seu último suspiro.
Sua garganta tinha um enorme corte, e de lá saía todo o sangue que deixava a água do xafariz rubi.
Um filete de sangue escorria de sua garganta, descia pelo braço abaixo da blusa de manga comprida e escorria por seu dedo indicador, fazendo as gotas caírem pausadamente na água.
E entre seus dedos estava aquele maldito colar, seu brilho tremeluzindo enquanto balançava na mão pálida de Phillipi.
Desviei meu olhar e vi as expressões de espanto das pessoas presentes no local.
Kyle surgiu de repente, me abraçou forte e colocou minha cabeça contra seu peito, impedindo que eu olhasse por mais tempo.
Aquela cena era a representação do mais puro horror, e eu faria qualquer coisa para esquecer. Mas era impossível.
O resto da noite foi como um daqueles pesadelos difíceis de acordar.
Passamos a noite toda acompanhando o processo de preparação do corpo de Phillipi para o funeral.
Não trocamos nenhuma palavra, ficamos apenas sentados naquela sala de espera em completo silêncio, esgotados e devastados com tantas tragédias.
Passei a noite toda deitada no ombro de Kyle, olhando para o nada enquanto ouvia Mystery of Love, de Sufjan Stevens, repetidas vezes em meus fones. Era a música favorita de Phillipi, ele costumava dizer que lembrava de Rick ao ouvi-la. E depois que eles se foram, essa se tornou a única forma de eu sentir que eles ainda estavam comigo.
Eu desejava que tudo fosse mentira, mas percebia que não era cada vez que um médico passava com pressa pelo corredor pálido.
Quando o dia amanheceu, a cidade se preparou para mais um velório, mais uma tragédia.
O desgaste era visível no rosto de cada morador de Alpharetta, era ainda pior em nós, amigos das vítimas.
O medo também era tangível, mas nós quatro sabíamos que aquela ameaça não atingiria ninguém além de nós. O caos pairava sobre o nosso grupo como uma nuvem negra.
Vestimos nossas roupas pretas e fomos para o funeral, parecendo quatro mortos-vivos. Lá vimos Phillipi pela última vez e nos despedimos dele para sempre.
Anne foi para casa, Ian foi se deitar, Kyle e eu fomos para o porão - o lugar que pensávamos que nos protegeria de tudo. E lá ficamos em silêncio por alguns instantes.
- Sabe... - comecei a falar, estranhando minha própria voz.
Kyle olhou para mim, seus olhos cansados exalando surpresa.
- Eu sinto falta de quando éramos um grupo completo e nossas únicas preocupações eram assistir Os Caça-Fantasmas, ouvir Queen e Evanescence, cantar Psycho Killer, contar piadas idiotas e viver aventuras quase mágicas - minha voz foi ficando embargada a cada palavra, até que finalmente deu lugar às lágrimas.
Kyle abaixou a cabeça, escondendo os olhos marejados.
Senti que ele queria dizer que tudo ficaria bem e que voltaríamos a ser como antes, mas ele sabia que seria uma grande mentira.
- P-por que ele não nos contou?
- Ele sabia que não conseguiríamos salvá-lo. - Kyle respondeu.
Eu poderia retrucar, poderia dizer a Kyle que ele estava errado, que nós conseguiríamos salvá-lo, mas Kyle estava certo. Não iríamos conseguir salvá-lo, assim como não salvamos Rick, Ellie e Maya.
Ficamos em silêncio enquanto o som do vento uivando lá fora, contra os flocos de neve rodopiantes, parecia tentar preencher as lacunas da nossa alma.
- Então é isso... - comecei a falar com a voz falha - vamos morrer. - ri sem humor, enquanto as lágrimas continuavam a surgir em meus olhos.
Kyle olhou para mim, sem saber o que dizer.
- Vamos dar um jeito. - ele respondeu.
- Quando Kyle? E como? Nós estamos simplesmente parados aqui, sem fazer nada! Olha quantas pessoas já perdemos! - falei alterada, minha voz ainda trêmula.
Kyle abaixou a cabeça.
- Phillipi também prometeu a Rick que tudo ficaria bem, e olha só... - fiz uma pausa - nós nem mesmo conseguimos honrar a memória deles! - concluí amarga.
Kyle não respondeu nada. Mais uma vez, o som do vento lá fora preencheu o ambiente.
Suspirei.
- Me desculpa... eu tô descontando tudo em você. - falei sem graça.
- Tudo bem. Você está certa. - Kyle respondeu impotente.
- Você já percebeu que a maldição parece ter um padrão? - Kyle questionou de repente.
Olhei confusa, afinal, a maldição tinha diversos padrões.
- Não os que já conhecemos, mas algo sobre a ordem das mortes.
Olhei para Kyle com mais atenção, esperando que ele prosseguisse.
- Além de estarmos morrendo exatamente na ordem das visões que tive, estamos morrendo na ordem dos nossos aniversários.
- O quê? - perguntei surpresa.
- Olha só - Kyle falou, se levantando enquanto gesticulava com as mãos - quando eu tive aquelas visões, pensei que as mortes não aconteceriam exatamente naquela ordem, mas aconteceram. Primeiro a Maya junto com a Ellie, depois o Rick e depois o Phillipi, exatamente na ordem das minhas visões. Além disso, a Maya era a primeira do nosso grupo a fazer aniversário, depois vinha a Ellie, depois o Rick, depois o Phillipi e agora...
- O Gavin! - completei com urgência.
Não tivemos que montar um plano mirabolante para trazer Gavin de volta, pois quando olhamos para a porta do porão nos deparamos com um Gavin abatido, assustado e atordoado, com um colar de prata em mãos.
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