Nove capítulo 7

Depois que abrimos o jogo naquela tarde, as coisas ficaram normais por um tempo, então acreditamos que estávamos livres por alguma razão e ficamos gratos por isso.

Nós contamos tudo aquilo para Ian, pois ele fazia parte e tinha o direito de saber, mas optamos por esconder do xerife.

Como as coisas voltaram ao normal - pelo menos em parte -, nós decidimos esquecer tudo aquilo, mas ainda mantendo nossa crença de que tudo foi real.

Ellie e Maya ficaram abaladas. Gavin optou por não acreditar e continuou afastado do nosso grupo, mantendo laço somente com sua namorada Ellie.

Não poderíamos estar mais errados ao pensar que, por alguma razão, seríamos poupados por aquele monstro.

Ellie e Maya apareceram de repente segurando um colar de prata antiga com um pingente de asa de anjo. As duas estavam pálidas como papel.

No começo, nenhum de nós entendeu aquilo, até que Ellie revelou que o colar apareceu de repente na cabeceira de sua cama.

Kyle deu um passo à frente e pediu para ver o colar. Assim que ele segurou o objeto em sua mão, rapidamente o soltou, deixando-o cair no chão, e fez uma expressão de dor, como se o colar tivesse queimado sua pele.

As duas garotas ficaram ainda mais aterrorizadas. Afinal, as duas moravam na mesma casa, e aquele estranho colar de repente apareceu lá.

Naquele dia, nós percebemos que o que quer que fosse aquilo... não havia nos poupado.

Tentamos pensar em algo para impedir qualquer ataque que as duas pudessem sofrer, mas era inútil. Não sabíamos com o que estávamos lidando, nem como isso iria agir ou quando iria agir.

Por fim, concluímos que, com base nas visões de Kyle, as duas deveriam ficar longe de carros. Elas concordaram, atordoadas.

Também sugerimos que Ellie conversasse com Gavin. Talvez, se ela mostrasse o colar, ele entendesse a gravidade da situação e voltasse para nos ajudar a lidar com tudo aquilo. Porém, Ellie recusou, dizendo que Gavin era cabeça-fechada demais para entender tudo aquilo e que deveríamos dar um tempo para ele entender tudo por si mesmo.

Entendemos o posicionamento de Ellie, já que ela conhecia Gavin mais do que qualquer um ali. Nos despedimos, e cada um foi para sua casa, sem saber que as coisas estavam prestes a atingir outro patamar.

Na manhã seguinte, eu acordei com o som da chuva batendo contra a janela do meu quarto. Me levantei, sonolenta, me arrumei e desci as escadas para a sala, onde encontrei minha televisão ligada exibindo o jornal da cidade.

Quando eu vi do que se tratava aquela reportagem, senti meu coração parando por um segundo.

O mundo ficou em câmera lenta enquanto eu ouvia cada palavra dita pela repórter.

"Duas jovens foram vítimas de um estranho acidente de carro na saída nove da cidade. Câmeras da cidade capturaram imagens do carro das garotas em alta velocidade, como se elas fugissem de algo. Porém, não havia nada atrás delas nessas imagens. Os peritos estão tentando determinar como o acidente aconteceu, já que o carro e as vítimas foram encontrados em condições improváveis..."

Sem aguentar mais ouvir aquilo, saí correndo da minha casa e, quase de modo automático, fui em direção à saída nove da cidade. Eu precisava saber. Eu ainda tinha esperança de que não fossem elas. Não poderia ser.

E, de repente, eu já estava lá. Parada enquanto a chuva caía sobre mim, meus pés firmes no asfalto, como se tivesse medo de ser arrancada dali.

Minha visão estava turva e embaçada por conta da chuva, mas eu ainda podia ver. De um lado, as árvores verdes se estendiam no acostamento, balançando contra o vento. Perto delas, estava o carro reduzido a um monte de sucata, como se mãos exorbitantemente grandes tivessem-no pegado e amassado como um simples brinquedo. Do outro lado, um perito guardava o maldito colar em um plástico de evidências, enquanto outros cobriam o que um dia foram os corpos de Ellie e Maya com panos brancos.

Nada natural poderia explicar aquele acidente, e eu sabia mais do que qualquer perito presente ali.

Era impossível que um carro ficasse retorcido daquela forma sem bater em nada, sem capotar. Era impossível.

Nós deveríamos ter feito alguma coisa.

Deixei as lágrimas caírem de meus olhos, misturando-se com as gotas de chuva.

Desviei meu olhar dos corpos no chão e olhei para uma viatura policial, com luzes vermelhas e azuis piscando freneticamente, enquanto o xerife Harper anotava algo com um semblante abatido.

De repente, Gavin passou por mim. Passos largos, mas vacilantes. Ele parou a poucos metros de mim, olhando para a cena, e, quando eu pensei que ele iria avançar nos peritos exigindo explicações, ele, na verdade, caiu de joelhos sobre o asfalto molhado e soltou o grito mais angustiante que eu já ouvi.

- ELLIE!

Eu queria ir até ele para dizer que sentia muito, mas não tinha forças para isso. Eu estava congelada, vendo todo aquele horror se desenrolar diante dos meus olhos.

Mal notei quando os outros chegaram e tiveram a mesma reação de choque. Ian abraçou Anne, impedindo que ela continuasse vendo a cena. Phillipi apertou a mão de Rick. E Kyle se atreveu a ir até Gavin, que lamentava no chão.

- G-Gavin... - ele começou, sem jeito - eu sinto muito. - concluiu, solene.

Gavin parou de gritar e chorar alto. Ele ergueu a cabeça e olhou diretamente para Kyle, com os olhos vermelhos e o rosto banhado em lágrimas, mas não havia só isso no rosto de Gavin. Havia também ódio em seu olhar.

Nós cinco paramos para ver a cena, aflitos. Nossos corações já estavam pesados por conta da tragédia. Não queríamos uma briga diante daquela situação.

- Sente muito. - ele riu sem humor, um sarcasmo estranho para a ocasião.

Kyle olhou, confuso.

- Isso é tudo culpa sua! - ele gritou, avançando sobre Kyle.

Os dois caíram no chão. Kyle fez uma expressão de dor quando sua cabeça bateu no asfalto e depois ficou assustado. Gavin estava sobre ele, seus olhos carregados de uma fúria implacável.

- É tudo culpa sua! Você atraiu isso! - Gavin gritou, dando o primeiro soco no rosto de Kyle.

Ficamos congelados diante da situação. Tudo parecia acontecer em câmera lenta. Meu coração acelerou, e eu senti um nó na garganta.

- Sua culpa! Sua culpa! Sua culpa! - Gavin gritou repetidas vezes, cada palavra um novo golpe no rosto ensanguentado de Kyle.

Ian tentou intervir, mas Gavin o empurrou para longe com uma força quase antinatural, um reflexo do seu ódio. Anne correu até Ian, enquanto eu, Phillipi e Rick continuamos paralisados no lugar.

Cortes profundos serpenteavam pelo rosto de Kyle. Seu rosto se contorcia a cada novo golpe de Gavin, e o sangue vermelho-vivo escorria junto com a água da chuva. Ele já não tinha forças para reagir. Gavin estava fora de si.

- GAVIN! - gritei. Minha voz parecia só um eco estranho.

O meu grito chamou a atenção de John, que, ao notar o que estava acontecendo, rapidamente saiu de perto da viatura e correu em nossa direção.

Tudo aconteceu tão rápido, mas pareceu uma eternidade.

O xerife agarrou Gavin e o tirou de cima de seu filho. Gavin se debateu, mas seus esforços foram inúteis diante do xerife Harper.

- Se acalma, garoto! Você tem que se acalmar! - John gritou.

Gavin foi cedendo aos poucos. Sua fúria deu lugar às lágrimas, e ele desmoronou nos braços do xerife.

- E-Ellie... eu não... por que eu fiz isso?! - ele falou, com a voz embargada.

John abraçou Gavin, entendendo seu momento de dor. Ele também olhou, preocupado, para Kyle, que já estava sentado com minha ajuda.

Kyle apenas balançou a cabeça com dificuldade para seu pai.

- Eu entendo, garoto, mas agora você terá que me acompanhar. - John falou.

Gavin apenas assentiu, seu olhar frio e completamente triste mostrando que algo havia morrido dentro dele naquele dia.

Ajudamos Kyle a se levantar, e ele foi levado para o hospital, onde recebeu os devidos cuidados.

Quando todos foram embora, eu fui até o quarto dele para que pudéssemos conversar.

- Oi. - falei, sem graça, entrando no quarto.

Ele olhou para mim, seu rosto quase irreconhecível.

- Oi. - ele respondeu e se virou para o outro lado, olhando para a janela.

- Você tá bem? - perguntei.

- Os médicos disseram que eu posso sair amanhã de manhã, então... acho que sim. - ele respondeu, ainda sem olhar para mim.

- Kyle... eu sinto muito por tudo. - falei, olhando para o chão, mas pude ver Kyle se virando para olhar para mim.

- Eu também sinto muito, Zoe. Não queria que as coisas fossem assim, mas estamos todos juntos nessa. Inclusive - ele fez uma pausa - o Gavin.

Olhei para a janela embaçada pela tempestade lá fora e respirei fundo, sentindo o cheiro de alvejante na sala.

- O Gavin... será que ele vai ficar bem? - falei, com preocupação.

- Sim... ele vai. Meu pai já liberou ele. Temos que falar com ele o quanto antes.

- Mas você não está com raiva dele?

Kyle fez uma pausa, seus olhos ficando levemente marejados.

- No começo, eu senti raiva dele, sim. Mas agora eu entendo ele... eu poderia ter feito algo para impedir que aquilo acontecesse... sabe... eu tive aquelas visões. - ele concluiu, olhando para baixo, como se estivesse com vergonha de si mesmo.

- Não... Kyle... me escuta!

Ele se virou, olhando nos meus olhos.

- Não foi sua culpa! Não foi culpa de nenhum de nós, e sim daquela... daquela coisa!

- Você tá certa - ele assumiu - mas agora é nosso dever proteger o Gavin.

- Sim! E temos que trazer justiça para Ellie e Maya também.

- Então que tal todos nós nos reunirmos no Never Enough Thyme amanhã, depois do funeral, para discutirmos ideias para acabar com isso? - Kyle sugeriu.

- Acho uma ótima ideia, mas como vamos convencer o Gavin a ir? - questionei, confusa.

- O Gavin não vai dessa vez. Vamos ficar de olho nele e pensar em planos melhores para trazê-lo de volta.

- Certo... eu tenho que ir agora, Kyle.

- Tudo bem.

- Até amanhã.

- Até.

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