Nove capítulo 6
Depois do ocorrido na noite de Halloween, nós todos fomos para a casa de Kyle, já que a noite estava destruída para todos nós.
Lá, tentamos encontrar explicações lógicas para aquilo e concluímos que era só alguém com uma fantasia muito bem feita, provavelmente criada a partir de látex e silicone. Essa pessoa só decidiu assustar um grupo aleatório de amigos, e nós fomos os escolhidos. Só não encontramos uma explicação para a voz daquela pessoa ser tão semelhante à de Kyle.
De qualquer modo, decidimos esquecer o nosso fracassado último Halloween. Isso ficou mais fácil depois que encontramos explicações para os eventos estranhos da noite.
Eu queria poder dizer que essa história acaba aqui, mas infelizmente não seria verdade.
Mal sabíamos nós que o caos estava apenas começando.
No primeiro dia de novembro, John e Ian embarcaram em uma viagem. Kyle não iria viajar com eles, mas quando ele desapareceu logo depois que seu pai e seu irmão viajaram, supomos que ele havia decidido ir de última hora.
Os dias foram se passando normalmente até que chegou o nono dia, o maldito nono dia desde que John e Ian viajaram.
Quando acordei naquela manhã, me deparei com uma estranha mensagem em meu telefone.
Era Kyle.
A mensagem dizia: "me ajuda".
Ao ver aquilo, fiquei rapidamente nervosa e, sem hesitar, me arrumei e saí correndo de casa.
Quando cheguei à casa de Kyle, tudo parecia normal. O lugar estava quieto e sem sinais de alguma possível invasão.
Torci para que fosse apenas uma brincadeira sem graça e avancei em direção à porta, onde comecei a chamar o nome de Kyle.
Não obtive respostas, e o nervosismo começou a me dominar ainda mais. O silêncio que vinha do interior da casa era ensurdecedor.
Comecei a pensar se deveria chamar a polícia ou coisa do tipo, mas antes disso resolvi tentar entrar.
Girei a maçaneta, e a porta se abriu, me surpreendendo.
Dentro da casa de Kyle, tudo estava perfeitamente organizado do jeito que o xerife costumava deixar, e todas as luzes estavam apagadas. A mistura desses fatos era bastante estranha, já que, se Kyle estivesse sozinho lá por nove dias, ele aproveitaria para virar a casa de cabeça para baixo e definitivamente não perderia a chance de convidar seus melhores amigos para isso.
Comecei a acreditar novamente que aquilo era algum tipo de brincadeira estranha, já que não fazia sentido. Mas a preocupação me moveu, e eu avancei por cada cômodo até chegar ao porão, onde finalmente encontrei Kyle.
Ele não estava de nenhuma das formas que eu imaginei: nem rindo da minha cara e nem sentado em uma cadeira, amarrado, amordaçado e com uma arma na cabeça.
Na verdade, ele estava sentado em um canto, encolhido e tremendo violentamente.
O celular estava jogado ao lado dele, com nossa conversa ainda aberta.
Fiquei parada por alguns instantes, sem saber o que fazer, ou esperando que ele finalmente se levantasse e falasse que estava brincando, mas isso não aconteceu.
Ao contrário disso, Kyle permaneceu sentado naquele canto, seu corpo ainda trêmulo, o olhar espantado, a boca entreaberta, a respiração pesada e as mãos na cabeça.
Não suportando mais a cena que se desenrolava diante de mim, avancei em direção a ele e me abaixei à sua frente. Meu olhar estava tão assustado quanto o dele.
- Kyle?! - eu disse, colocando as mãos nos ombros dele.
Kyle olhou para mim como se tivesse acabado de fugir de uma espécie de hipnose, notando minha presença naquele instante.
- Kyle?! - eu repeti, minha voz carregada de urgência enquanto eu sacudia o corpo de Kyle.
Ele estava péssimo. Além do horror em seu olhar, olheiras profundas se manifestavam abaixo de seus olhos; sua boca estava seca, sua pele pálida e suor frio escorria pela sua testa.
Kyle respirou fundo, como se faltasse ar em seus pulmões, e eu segurei seu rosto com minhas duas mãos.
- Todos estavam... - ele começou a falar com dificuldade - todos estavam mortos.
Senti meu sangue gelar.
- Quem Kyle? Do que você está falando? - questionei com urgência.
Kyle engoliu seco, seu olhar cansado se desviando de mim.
- V-você... eu... Ian... - ele fez uma pausa, visivelmente afetado - Anne... Phillipi... Rick... Maya... Ellie... Gavin.
- O-o quê?
- Ele vai matar todos nós! Eu vi... ele vai... ele prometeu... as nove badaladas ecoaram, o carro girou na pista, as unhas se cravaram na terra, o sangue caiu na água. - Kyle disse em desespero, sua voz oscilando e acelerando a cada palavra, suas mãos sobre a cabeça e o olhar aflito.
Suas palavras pareciam desconexas; nada fazia sentido em suas frases, mas ele estava claramente abalado com algo.
- Kyle, você precisa se acalmar! - falei, tentando acalmá-lo enquanto ele se balançava para frente e para trás, tremendo cada vez mais.
- N-não... nós não temos tempo!
- O que você quer dizer? Não temos tempo pra quê?
- Kyle.
- Kyle?
- Kyle!
O corpo de Kyle caiu sobre mim, seus olhos fechados e nenhum sinal de consciência visível.
- Não. Não. Kyle, fala comigo, por favor! - falei, segurando o corpo dele.
Em seguida, chequei seus sinais vitais, que estavam normais, e depois, com muita dificuldade, o arrastei até o sofá e o deitei.
Liguei para John e falei que Kyle havia passado mal, cortando diversas partes da história.
John ficou extremamente preocupado e disse que voltaria da viagem com Ian o quanto antes; enquanto isso, eu garanti que cuidaria de Kyle.
Encerrei a ligação e comecei a procurar pelo número da emergência, mas antes que eu pudesse iniciar a chamada, a mão fria de Kyle segurou a minha, me impedindo de prosseguir.
Me virei para ele, que estava acordado, mas ainda abatido. Ele não parecia mais tão nervoso.
- Por favor, não chame a ambulância. - ele disse, com a voz fraca, mas cheia de convicção.
- Mas você precisa de ajuda! - protestei.
- Eu só preciso me alimentar e tomar água.
Pensei em insistir na ideia de chamar ajuda, mas com Kyle não adiantaria insistência. Ele sempre foi muito teimoso.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Depois você pode, pelo menos, me contar o que foi que aconteceu?
Kyle desviou o olhar.
- Kyle!
Ele voltou a olhar para mim.
- Tá. Vou contar tudo, mesmo que pareça loucura. Acho que será preciso chamar os outros também.
Assenti e me levantei do sofá.
Depois que Kyle se alimentou e tomou água, ele parecia bem melhor, então eu liguei para os outros.
Logo eles chegaram. Encontrei todos na porta e contei o que havia acontecido, todos ficaram muito preocupados. Depois, nós nos reunimos no porão para ver o que Kyle tinha para nos contar.
O silêncio pairou no ar por alguns instantes, todos sentindo um misto de confusão e preocupação, até que Kyle finalmente começou a falar.
- Aquele dia na floresta... eu acho que Rick estava certo.
Todos olharam surpresos, Rick com um medo particular no olhar.
- Kyle... você tem certeza de que está bem? - perguntei.
Kyle desviou o olhar que estava nos outros e olhou diretamente para mim. Ele estava sério de uma forma completamente incomum.
- Vocês precisam acreditar em mim. - ele disse frio, mas sem ser rude.
- Todos nós sabemos que tem algo errado acontecendo, só não queremos admitir. - ele completou.
Todos estavam surpresos com a mudança drástica no comportamento de Kyle. Ele, que sempre foi o mais cético e engraçado do grupo, agora parecia completamente diferente - medroso e sério.
Rick se ajeitou na poltrona e engoliu seco, evidenciando o seu nervosismo. Os outros só olhavam atentamente.
- Zoe e eu voltamos no acampamento aquele dia para buscar as coisas que havíamos deixado para trás, e muitas coisas estranhas aconteceram lá. Tem algo errado naquele lugar.
Olhei surpresa, pois ele estava revelando nosso segredo.
- Eu acho que não foi uma boa ideia irmos acampar lá, e é por isso que eu quero contar tudo. Não podemos esconder mais nada uns dos outros.
Gavin cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha.
- Do que você tá falando? Que acampamento? - Maya questionou, com o cenho franzido.
Kyle ficou em silêncio, sem saber o que dizer.
Então Phillipi resolveu explicar.
- Há alguns anos, nós fomos acampar. Rick nos disse que o lugar escolhido era cercado de lendas e maldições, mas nós fomos mesmo assim - ele fez uma pausa - durante a madrugada, ouvimos vozes e sons estranhos, então fugimos, deixando tudo para trás.
Ellie e Maya pareciam assustadas, já Gavin possuía uma expressão sarcástica no rosto, provavelmente pensando que tudo era uma piada.
- E o que seriam essas tais "lendas"? - Ellie perguntou.
- Acho que o Rick vai saber explicar melhor. - Phillipi disse olhando para o garoto.
Rick respirou fundo.
- É uma lenda que diz que naquele lugar existe uma criatura que precisa de um grupo de nove amigos para começar seu ciclo de maldição.
- Mas vocês não eram nove. - Maya interrompeu.
- Mas nos tornamos. - Rick respondeu.
- Se isso for mesmo real, e eu acredito que seja, nós não morremos naquela noite porque ainda não éramos nove.
- Fomos tão imprudentes. - Rick concluiu.
- Como assim?
- É o seguinte: a lenda diz que, se um grupo de nove pessoas ou mais encontrar o monstro, elas são mortas imediatamente. Se o grupo possui qualquer quantidade de pessoas, mas o monstro não for encontrado, então eles não são amaldiçoados. E se o grupo possui menos de nove integrantes, eles conseguem fugir, mas assim que o grupo completar nove, todos são atingidos, mesmo quem não estava presente na época em que o monstro foi visto, e essas pessoas estão fadadas a morrer, um por um. - Rick explicou, meio impaciente e nervoso.
- Que merda. - Gavin exclamou, se levantando do sofá.
Ellie e Maya estavam boquiabertas.
- Eu não entendo, nós nem vimos nada naquela noite. - Anne se manifestou.
- Mas ouvimos. Fomos escolhidos. - Rick respondeu.
- Na verdade... - comecei a falar, com a voz trêmula - eu vi uma coisa.
Todos se viraram para mim, inclusive Kyle, que estava sentado ao meu lado.
- Eu vi aquela mesma coisa que vimos no Halloween. Acho que o monstro da floresta se passou por Kyle naquela noite - fiz uma pausa - aquilo não era uma fantasia.
Todos olharam para mim em choque, exceto Gavin, que continuava sem acreditar.
- Puta merda. - Gavin falou.
- Que tipo de brincadeira idiota é essa? Vocês me chamaram aqui só para ficar com esse papo furado?
- Não. Eu chamei cada um de vocês porque essa situação está ficando cada vez mais séria. Dessa vez, aconteceu algo ainda maior - a voz de Kyle falhou - não podemos tratar essas coisas como simples coincidências.
Os olhos de Kyle estavam marejados, como os de alguém que teve sua coragem tirada à força. Ele abandonou de vez seu lado cético.
- Eu passei os últimos nove dias paralisado, como se eu estivesse em uma paralisia do sono. E cada dia eu estava preso em uma visão diferente.
Todos olhavam atentamente para Kyle, até Gavin, que estava claramente irritado com aquela situação.
- E o que você viu? - perguntei, ansiosa.
- E-eu... - ele começou, sua voz impotente - eu vi a morte de cada um de nós. Cada dia, uma morte diferente, que ficava se repetindo até o dia completar vinte e quatro horas.
Nossos olhos quase saltaram das órbitas, exceto por Gavin, que riu sarcasticamente, cortando o silêncio pesado que ficou depois da revelação de Kyle.
- Você só pode estar de brincadeira, Kyle. - Gavin disse.
Ele olhou ao redor e, ao perceber que todos estavam acreditando, ficou sério.
- Qual é, gente? O Kyle tava inconsciente há alguns instantes e, mesmo assim, vocês estão ouvindo essa história? Ele deve estar chapado pra caralho, sei lá.
- Cara, você é meu amigo, mas não dá pra acreditar nessa história. - ele completou, olhando diretamente para Kyle.
Depois disso, ele começou a caminhar em direção à porta do porão.
O olhar de Kyle ficou sombrio de uma forma que eu nunca vi antes, e ele avançou sobre Gavin, segurando-o pela gola da camisa. Gavin ficou surpreso; sua expressão sarcástica foi substituída pelo choque.
- Foda-se que você não acredita, Gavin, mas você vai me ouvir até o final!
- A primeira visão que eu tive foi com a morte da Maya, e a Ellie estava com ela!
Parecia que os queixos de Ellie e Maya iriam cair.
- Você tá maluco?! - Gavin disse, alterado.
Ele empurrou Kyle, que caiu sentado no sofá, e finalmente demonstrou sua raiva diante daquela situação.
- Fique à vontade para criar suas fantasias de vidente, Kyle, mas não envolva a Ellie nessa merda que você criou na sua cabeça! - ele cuspiu as palavras em Kyle e depois caminhou em passos pesados até a porta, que ele bateu atrás de si.
Kyle ficou parado, com uma expressão fria e o olhar fixo na parede oposta.
- Você não vai atrás dele, Ellie? - Anne perguntou.
- Não. Deixa ele esfriar a cabeça, ele vai ficar bem. - ela disse, olhando para o chão, claramente abalada com a fala de Kyle.
- E se for verdade? O-o que a gente faz? - Maya finalmente questionou, com o medo evidente em sua voz.
- Eu não sei... acho que... só tentem ficar longe de carros por agora... - Kyle respondeu.
Maya assentiu, sem convicção.
- O que mais você viu? - perguntei.
Kyle se virou para mim.
- Apenas isso. Cada dia, a morte de um de nós.
- Até... a sua?
- Sim... foi horrível. - ele disse, se virando para frente de novo.
- Se cada um souber sua própria morte, será possível impedir? - Anne questionou.
- Talvez.
- E se terminarmos nossa amizade? - Maya começou a falar, atraindo o olhar cansado de Kyle - não seremos mais no-
- Não adianta - Rick interrompeu - se a maldição já nos atingiu, nada pode ser feito. - ele disse, sem esperanças.
- Meu Deus. - Maya disse, colocando as mãos na cabeça.
Naquele momento, percebemos que qualquer ceticismo seria apenas uma tentativa de enganar a nós mesmos, pois já acreditávamos naquela história, por mais absurda que ela fosse. Talvez, no fundo, sempre acreditamos, mas antes era mais fácil fingir que tudo aquilo era só coisa da nossa cabeça. Logo, Gavin também teria que entender que coisas assim não podem ser coincidência. E que nós fomos pegos pela maldição do número nove.
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