Nove capítulo 1
A memória do meu primeiro dia de aula segue fresca em minha memória, como se tivesse acontecido ontem. Naquele tempo ainda havia pureza e bondade nas coisas da vida.
Naquele dia eu acordei bem cedo e coloquei todos os materiais escolares que eu estava super ansiosa para usar dentro da minha mochila de algum personagem que eu não me lembro.
Minha mãe fez panquecas e eu comi com pressa, lembro de ela me repreender de forma irônica dizendo que a escola não iria sair correndo, mas ela jamais entenderia a minha pressa para chegar naquele lugar e fazer novos amigos.
Mas naquele dia as coisas não correram exatamente como eu havia planejado já que minha mãe e eu ficamos presas no trânsito e todo meu plano de chegar cedo na escola foi arruinado.
Depois de muito tempo naquele entediante ambiente de congestionamento nós finalmente conseguimos chegar até a escola. Lá estávamos nós na frente da tão prestigiada Alpharetta Elementary School que estava totalmente vazia já que todas as crianças já estavam em suas respectivas salas de aula.
Suspirei de desapontamento, mas mesmo assim ainda sentia um onda de ânimo e nervosismo percorrendo minhas veias e deixando meu pequeno coração acelerado.
Olhei para a grande escola em minha frente e depois virei para minha mãe enquanto o vento balançava meus cabelos castanhos.
Minha mãe sorriu para mim e se abaixou para ficar na altura dos meus olhos.
- Quando você chegar da escola eu vou estar te esperando com uma surpresa e quero ouvir tudo sobre seus novos amigos!
- Sério? - eu disse abrindo um grande sorriso e com os olhos brilhando como estrelas.
- Eu prometo. - ela disse erguendo o dedo mindinho entre nós.
Estendi o meu pequeno dedo e entrelacei o mesmo no dela.
Depois desse pequeno e singelo momento ela se levantou e disse pra eu entrar, ela me deu um beijo na testa e eu saí correndo desajeitadamente para dentro da escola, em uma tentativa falha de recuperar todo o tempo que eu perdi.
Quando eu cheguei na sala, ofegante por ter corrido até ali, eu olhei ao redor e numa rápida passada de olho observei alguns do meus colegas.
- Olá! Você é a última criança da turma, venha aqui na frente se apresentar! - a professora disse lançando um olhar simpático para mim.
Deixei minha mochila em uma mesa e comecei a caminhar até a frente da sala me lembrando da criança tímida que eu sempre fui.
Estar atrasada tirava ainda mais minha coragem naquela situação.
Eu parei na frente do quadro negro e observei meus colegas com mais atenção dessa vez.
Meu coração batia forte e minhas pernas tremiam de nervosismo.
Acho que aquela foi uma das primeiras vezes que eu me senti nervosa de verdade na minha vida.
Eu respirei fundo, como minha mãe havia me ensinado e finalmente comecei a falar.
- Oi! Eu sou a Zoe Destaro. Eu gosto de desenhar e... fazer novos amigos!
Eu disse com minha voz infantil meio trêmula, algo que atraiu diversos olhares de estranheza e tirou toda a minha confiança.
- Quem vai querer ser amiga de alguém como você? - uma garotinha disse fazendo metade da sala cair na risada, algo que fez eu querer cavar um buraco no chão para me esconder.
- Helena! Mais respeito com a sua coleguinha! - a professora repreendeu.
- Muito bem Zoe Destaro! Pode voltar para o seu lugar. - a professora disse voltando o olhar para mim.
Eu ouvi a professora e comecei a caminhar de volta para o meu lugar me sentindo fracassada já que parecia não haver a menor chance de eu fazer amigos naquele dia.
Sentei no lugar onde eu havia deixado minha mochila e mergulhei na minha decepção, até que ouvi uma voz ao meu lado.
- Oii Zoe. - a voz infantil disse.
Me virei e me deparei com uma menina que usava um vestido amarelo com desenhos de girassóis.
- Oi?- eu respondi me virando para a garota de cabelos cacheados. Meus olhos estavam arregalados, em alerta.
- Você quer ser minha amiguinha? - ela disse com um grande sorriso no rosto.
Naquele momento todo o meu ânimo foi revigorado.
- Claro! - respondi sem pensar duas vezes.
E assim eu conheci Anne Foster, minha melhor amiga.
No fim daquele dia, quando cheguei em casa me deparei com a surpresa que minha mãe havia prometido.
Ela havia comprado várias guloseimas.
- Que legal mamãe! - eu disse pulando sobre ela para abraçá-la e expressar minha gratidão.
- Que bom que gostou querida. Agora me conte, fez algum amiguinho?
Eu me sentei em uma das cadeiras próximas da mesa, abri um sorriso e comecei a falar sobre o quanto Anne era legal e como nós passamos a tarde toda pintando com nossas canetinhas, minha mãe ficou bastante feliz.
Depois desse dia, Anne e eu nunca mais nos desgrudamos e, eventualmente, nós duas conhecemos dois meninos da nossa sala quando fizemos uma atividade juntos. Eles eram Phillipi - um garoto magrelo e bem-humorado - e Rick, um garoto moreno, de cabelos cacheados e um pouco mais reservado.
Nós formamos um grupo e sempre estávamos juntos.
No ano seguinte nós quatro fomos para o segundo ano do fundamental e já tínhamos diversas histórias de criança para contar.
Um dia estávamos brincando no parquinho quando um grupo de crianças se aproximou e começou a tentar nos intimidar. Nós erámos as crianças "rejeitadas" então isso era bastante recorrente, mas, naquele dia foi diferente.
- Ei! - as vozes de dois garotinhos ecoaram pelo parque na nossa direção.
As crianças malvadas - como eu costumava chamá-las na época - se viraram e se depararam com os dois garotinhos com expressões sérias. Vi as crianças más empalidecerem.
- Parem de intimidar eles, nós somos filhos do xerife Harper e se vocês continuarem contaremos para ele e vocês serão presos!
Aquela ameaça era completamente inviável mas foi o suficiente para assustar aquele grupo de crianças. Elas saíram correndo e os dois garotinhos se aproximaram de nós, eles também estavam no segundo fundamental mas eram de outra sala.
Eles se apresentaram como Kyle Harper e Ian Harper, filhos do xerife. Os dois também estavam no segundo ano do fundamental mas eram de uma sala diferente da nossa, de qualquer modo isso não nos impediu de construir uma amizade bem solidificada.
Quando os dois entraram pro nosso grupo nossa vida mudou positivamente, primeiro porque paramos de ser intimidados pelas outras crianças, elas ainda nos rejeitavam mas não ousavam nos incomodar por medo dos filhos do xerife. Além disso, os irmãos Harper eram muito aventureiros e nós acabávamos embarcando em várias aventuras juntos.
Isso fortaleceu nossa amizade, já que agora não nos víamos somente na escola.
Nós seis ficamos inseparáveis.
O fato de os dois serem filhos do xerife fez com que nossos pais confiassem muito nos meninos e nos deixassem sair bastante - não que eles não devessem confiar também, afinal, eles eram apenas crianças aventureiras, e não delinquentes. Mas a presença do xerife os deixava seguros de que poderíamos sair por aí e estaríamos bem protegidos. E realmente, o xerife se preocupava bastante com todos nós.
Desse modo passamos grande parte da nossa infância acampando, fazendo trilhas ou simplesmente lendo gibis e jogando jogos de tabuleiro no porão da casa dos meninos Harper. Aquele lugar era tipo nosso clubinho, nosso ponto de encontro fixo.
Esses foram alguns dos melhores momentos da minha vida.
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