Nove capítulo 5

Acho que o primeiro indicativo de que as coisas estavam ficando estranhas foram as inúmeras coincidências envolvendo o número nove que surgiram em nossas vidas.

No início era engraçado e até cômico.

Acho que primeiramente devo destacar que quando fizemos amizade com Ellie, Maya e Gavin as coisas permaneceram normais por alguns meses. Nossa amizade se iniciou em maio e foi só em setembro que as coincidências mencionadas anteriormente começaram a surgir.

Primeiro eram apenas músicas envolvendo o número nove que começavam a tocar de forma repentina mesmo quando estas não estavam baixadas em nossos dispositivos.

Depois todos nós tirávamos as mesmas notas em provas. E a nota era nove.

E foi progredindo para nove batidas nas janelas de nossos quartos durante todas as noites.

Nove badalas de um sino em nossos pesadelos.

Era assim, tudo girava em torno do número nove, mas éramos céticos demais para ver qualquer maldade ou estranheza naquilo. Não éramos apenas céticos, éramos negligentes também.

E o nosso ceticismo deu uma breve pausa no Halloween, quando algo genuinamente bizarro nos aconteceu.

Naquela tarde as meninas foram se arrumar na minha casa.

Havíamos combinado que elas se arrumariam lá e que por volta das seis sairíamos para encontrar os meninos em uma das ruas da cidade e logo depois iniciaríamos nossa busca por doces.

Aquilo era super importante para nós pois sair no Halloween para pegar doces era uma tradição da nossa amizade e aquela seria a última vez que faríamos isso já que estávamos ficando velhos demais.

Quando terminamos de nos arrumar saímos.

Eu estava fantasiada de Nina Sayers como cisne negro, Anne de Carrie, Maya de Valak e Ellie de Tiffany.

E assim nós chegamos no local combinado e ficamos lá por alguns instantes esperando os meninos que estavam atrasados.

Eventualmente, Phillipi chegou usando sua fantasia de Pennywise, junto dele estava Rick vestido de Jack Sparrow.

Continuamos a espera dos outros e não demorou muito para Gavin aparecer com uma perfeita fantasia de Michael Myers que nos deu um leve susto.

Depois Ian chegou com sua fantasia de Jason. Ele estava sozinho e isso foi algo que estranhamos rapidamente.

- Onde está o seu irmão? - questionei.

- Ele ficou em casa. Segundo ele, a fantasia é muito elaborada e por isso vai demorar ficar pronto. - Ian respondeu com a voz levemente abafada por conta da máscara.

- Ele até escondeu de mim. - Ian completou rindo sarcasticamente.

- E devemos esperar ele ou começar a nossa busca por doces? - Anne perguntou.

- Ele pediu que esperássemos - Ian fez uma breve pausa - mas óbvio que não faremos isso, ele que se vire para achar a gente! - ele concluiu em um tom bem humorado.

Antes que saíssemos dali, ouvimos uma voz atrás de Ian. A voz era meio robótica e arrastada mas claramente familiar.

- Não se preocupem. Já estou aqui.

- Kyle?!

Todos nós olhamos incrédulos para a silhueta monstruosa de nosso amigo. A fantasia era tão bem feita que parecia real e aquilo era assustador.

Determinei que a voz robótica de Kyle se dava pela quantidade de maquiagem que cobria seu rosto, ou seja lá o que fosse aquilo já que seu rosto estava totalmente branco como se uma camada espessa de massa branca cobrisse cada centímetro de sua face.

Me perguntei como ele respirava e também me questionei de como era possível ele cobrir todo seu corpo com aquela estranha massa, cera ou qualquer material que fosse.

Cada extremidade do corpo de Kyle estava branco como se ele fosse um boneco de cera ambulante. Ele não usava roupas e nem sapatos, mesmo assim, seu corpo parecia perfeitamente uniforme. Totalmente liso e plano.

Outra coisa que me chamou atenção foram seus membros. Suas pernas e braços pareciam mais longos, seus pés estavam magros como de um cadáver, garras surgiam nas pontas dos dedos brancos de suas mãos ossudas, além disso, seu corpo também parecia mais esbelto e suas costelas estavam muito bem marcadas.

Vislumbrando esse conjunto de características pude sentir um frio nos ossos. Aquilo me lembrava o monstro que eu supostamente vi naquela noite na floresta e isso abria espaço para outros questionamentos: como Kyle captou tão perfeitamente a imagem daquele ser? Ele teria o visto também? Se sim, porque escolheria se fantasiar disso? E como faria isso com tanta maestria?

Era até difícil olhar para ele por muito tempo.

Todos nós ficamos imersos em questionamentos silenciosos por alguns minutos, com expressões de completa surpresa no rosto. Fiquei admirada que Kyle não demonstrou nenhum convencimento diante disso. Ele apenas ficou nos observando e isso é algo que eu supus já seus olhos eram apenas duas órbitas vazias.

- Caraca. - Gavin quebrou o gelo.

- O Kyle não sabe brincar. - disse rindo nervosamente.

- Não sabia que meu irmão tinha esse talento. - Ian disse se aproximando de Kyle.

- Nunca imaginei que te veria careca. - ele falou rindo enquanto ficava na ponta dos pés para tocar a cabeça de seu irmão agora mais alto do que nunca.

Foi uma cena cômica que fez todos rirem. Nunca imaginamos ver Jason na ponta dos pés tentando tocar na cabeça de um monstro branco.

Kyle foi o único que não riu mas imaginamos que tal ato pudesse ser difícil para ele devido as circunstâncias.

Depois desse momento decidimos iniciar nossa busca por doces.

Começamos a andar pelas ruas já embaladas pelo céu noturno mas muito bem iluminadas pelas luzes das decorações nas casas.

Esqueletos pendiam em varandas, aranhas falsas serpenteavam as paredes das casas, morcegos pendurados em barbantes giravam no ar, pessoas com fantasias criativas preenchiam as ruas, doces eram distribuídos nas portas das casas decoradas e músicas como "psycho killer" e "somebody's watching me" ecoavam pelas ruas juntamente dos sons dos gritos vindos dos filmes de terror assistidos nos interiores das casas.

Por mais criativas que fossem as fantasias das pessoas que encontrávamos pelo caminho, nenhuma chegava aos pés da fantasia de Kyle. Ele impressionava a todos por onde passava.

Nós até reclamamos de forma irônica que ele estava tirando o brilho de nossas fantasias. Kyle não apresentou nenhuma reação diante disso e eu me diverti com a ideia de ele estar sorrindo por baixo da maquiagem de alguma forma, com seu jeito convencido de sempre.

No fundo nossa reclamação tinha uma leve sinceridade, sua fantasia tinha tudo para ser básica se não fosse tão bem feita.

Todos estavam impressionados com a naturalidade na qual Kyle caminhava pelas ruas. Seus membros modificados, seus olhos cobertos e seu nariz tampado não pareciam fazer a menor diferença.

Passamos por diversas casas na vizinhança, todos nós conversávamos muito, exceto Kyle que apenas andava um pouco atrás de nós em completo silêncio.

Em determinado momento senti que meu amigo estava muito de lado então fui até ele e como forma de puxar assunto perguntei quantos doces ele havia pegado.

Kyle não disse nada, ele apenas estendeu sua abóbora em minha direção. Seus dedos pálidos e longos segurando a alça com firmeza.

Olhei para dentro da abóbora e pude contar quantos doces haviam lá dentro.

Nove doces. Exatos nove doces. Nem mais, nem menos.

Senti um frio na espinha como quando você sabe que está em perigo de uma forma estranha.

Depois me senti uma tola, Kyle se vangloriaria do meu medo de sua fantasia para o resto da vida.

Confesso que também senti um pouco de raiva. Ele sabia que estávamos incomodados com as coincidências em volta do número nove que estavam acontecendo em nossas vidas e mesmo assim ele escolheu perpetuar isso em uma data tão importante para nós.

Me afastei de Kyle e fui até os outros que estavam um pouco mais a frente, passamos em mais algumas casas e não demorou muito para sentirmos falta de Kyle.

Ele havia sumido.

Começamos uma busca frenética por ele e depois de correr por todo o quarteirão paramos exaustos e concluímos que aquela fantasia talvez estivesse incomodando Kyle e por conta disso ele tivesse voltado para casa para trocar de roupa.

Voltamos a andar e quando viramos a próxima esquina nos deparamos com algo que fugia da nossa compreensão.

- Finalmente encontrei vocês! Porque não me esperaram?

Era Kyle. Com uma fantasia de Freddy Krueger.

Era absolutamente impossível que ele trocasse de fantasia em um intervalo tão curto de tempo.

Ficamos congelados de horror diante de Kyle que não demorou muito para se preocupar.

Gavin foi o único de nós que buscou coragem e começou a tentar contar a história para Kyle.

Ele contou tudo de uma forma meio confusa mas Kyle conseguiu compreender.

Kyle começou a tentar nos acalmar buscando por explicações lógicas, mas mesmo ele que não caminhou com aquele ser estava visivelmente abalado com a situação.

Hoje eu vejo que aquela fantasia estava tão perfeita porque não era uma fantasia.

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