Baunilha capítulo 1
Julho, 1990
Naquele fim de tarde, o céu laranja iluminava toda a vizinhança. Nick andava do meu lado na calçada estreita, ele estava muito empolgado falando sobre o dinossauro de brinquedo que havia ganhado em seu aniversário. De repente, ele parou e olhou encantado para algo. Seus breves segundos de silêncio foram preenchidos pelo som das poucas crianças brincando no horizonte.
- Olha Toby! - ele disse apontando para algo mais a frente na rua.
Olhei para o lugar que ele apontava.
- Um carrinho de sorvetes! - ele completou olhando para mim com um largo sorriso no rosto.
Os cabelos castanhos de Nick dançaram com o vento à medida que ele deu o primeiro passo a frente.
- Onde você vai? - questionei.
- Comprar um sorvete ué. Você vem?
Pensei um pouco e olhei para o chão.
- A mamãe não me deu dinheiro. - respondi um pouco envergonhado.
Nick sorriu.
- Não seja bobo, eu pago pra você. - ele disse como se fosse algo óbvio.
- Tudo bem então! - respondi caminhando até o meu amigo.
Nós dois começamos a nos aproximar do carrinho e com isso o som da música infantil começava a tomar forma em nossos ouvidos.
Não haviam outros clientes então nós imediatamente nos aproximamos da cabine, Nick esticando seu pequeno corpo para ser visto.
Então um homem olhou para nós de cima, ele era bastante alto e corpulento, tinha uma pele pálida, olhos azuis, um nariz pontudo, cabelos loiros parcialmente ocultos pelo chapéu de sorveteiro e uma barba por fazer.
Ele abriu um largo sorriso.
- Olá crianças! - ele disse em um tom animado, com um sotaque bastante forte.
- Eu quero um sorvete de baunilha e meu amigo quer... - Nick se virou para mim esperando uma resposta.
Eu estava distraído tentando decifrar se o sotaque do homem realmente era russo.
- Ah desculpa - eu disse finalmente notando o rosto confuso de Nick enquanto ele esperava uma resposta - pode ser baunilha também.
- Dois de baunilha por favor. - Nick reforçou para o homem.
- Muito bem! Esse é meu sabor preferido. - o homem falou com seu forte sotaque russo e uma expressão estranha no rosto, depois ele saiu para buscar os sorvetes.
- Você tá no mundo da lua hoje em. - Nick falou em um tom bem-humorado.
- Foi mal, é que eu gosto de fins de tarde como esse - eu falei olhando ao redor - tão laranja.
- Igual o seu cabelo, é bem legal cara. - Nick respondeu.
Dei um leve sorriso em resposta.
Não demorou muito para o estranho homem voltar com as duas casquinhas.
Nick entregou o dinheiro e pegou uma das casquinhas, em seguida eu me aproximei da cabine e estendi minha mão tocando na superfície da casca do sorvete, então por um segundo aquela expressão estranha voltou para o rosto do homem que não soltou o sorvete.
- Que camisa bonita. - ele disse.
- O-obrigado. - respondi desconfortável enquanto olhava para a minha camisa branca com listras azuis.
O homem finalmente soltou o sorvete e deu um sorriso leve sem mostrar seus dentes.
Até Nick estava com uma expressão de estranhamento diante daquela situação, mas logo passou quando voltamos a caminhar pelo bairro.
Meu amigo provou o sorvete pela primeira vez e logo fez uma careta.
- Que gosto estranho - ele exclamou - e eu nem pedi cobertura de morango. - ele concluiu olhando para o sorvete com o cenho franzido, em seguida jogou o mesmo na lixeira mais próxima.
- Tá tão ruim assim? - questionei.
- Sim. Tem gosto... sei lá... de ferro! - Nick disse ainda fazendo careta.
Provei o sorvete e senti o mesmo que Nick. Eu tentei disfarçar a careta já que o sorvete tinha sido pago pelo meu amigo, mas foi impossível.
- Horrível né?
- Sim... isso... isso tá bastante estranho.
Nick pegou o sorvete da minha mão e jogou no lixo.
- Temos que ir para casa, nossas mães devem estar preocupadas. - falei.
Nick assentiu.
- Você tem razão, não sei como elas deixaram a gente sair hoje.
- Com essa onda de desaparecimentos tudo ficou estranho. - Nick concluiu enquanto passávamos na frente de um muro com diversos cartazes de desaparecidos.
- Verdade. Quem será que tá fazendo isso? Onde estão todas essas crianças? - perguntei aflito.
- Nunca vi algo assim em Woodstock. - conclui.
- Talvez nunca tenhamos visto coisas assim por aqui porque temos apenas dez anos. - Nick disse meio óbvio.
- É... mas porque isso foi acontecer logo no nosso bairro?
- Não sei cara.
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