Baunilha capítulo 3
Naquela tarde eu estava sentado na minha cama olhando para a janela em minha frente. A rua estava deserta e o sol trazia cores laranjas para as pequenas casas do subúrbio.
Meus pés balançavam freneticamente enquanto eu ouvia a voz da minha mãe na sala.
- Oi Ivy... o Toby quer saber se você pode trazer o Nick para brincar.
- Ele pode dormir aqui já que está ficando tarde.
- Certo. Ficarei de olho nos dois, com essa onda de desaparecimentos todo cuidado é pouco.
- Vou falar para o Toby esperar por ele então. Obrigada Ivy, até logo.
Comemorei silenciosamente ao perceber que ele viria.
Alguns minutos depois vi o carro de Ivy se estacionando em frente à minha casa. Nick e sua mãe saíram do carro e foram até a porta da frente, minha mãe atendeu e não demorou muito para Nick aparecer correndo em direção ao meu quarto.
Assim que ele entrou, eu me levantei da cama.
- E aí, cara! - ele cumprimentou animado.
Abri um sorriso e prestei atenção na conversa abafada entre minha mãe e Ivy uma última vez antes de focar totalmente no menino sorridente em minha frente.
- O que você quer fazer hoje? - questionei.
- Hum - ele pensou um pouco - que tal a gente brincar na casa na árvore?
- Na casa na árvore? Já faz tantos dias que a gente não sobe lá.
- Exatamente por isso! - Nick argumentou.
- Não sei se minha mãe vai deixar, ela está responsável por nós dois essa noite.
- Diz pra ela que nós só vamos ficar lá lendo alguns gibis.
- Ok.
Eu fui até minha mãe e depois de muita argumentação ela deixou.
Nós pegamos alguns gibis de super heróis e fizemos nosso trajeto até a casa na árvore.
Assim que chegamos lá em cima demos uma rápida passada de olho no ambiente que não estava nem muito sujo e nem muito limpo, mas estava muito bagunçado.
- Nossa que bagunça. - Nick disse se sentando no chão empoeirado com alguns gibis nas mãos.
- Qualquer dia a gente arruma isso. - eu disse me sentando ao lado dele.
- Olha - Nick apontou - você não estava procurando por aquilo?
Ergui minha cabeça e olhei para o lugar que Nick apontava, lá estava meu tigre de pelúcia que eu costumava chamar de Patrick. Aquele foi o último presente que meu pai me deu antes de morrer.
- O Patrick! - eu disse me levantando.
Caminhei até onde a pelúcia estava jogada, estava entre algumas caixas de papelão com jogos de tabuleiro dentro.
Peguei o tigre que estava um pouco empoeirado e passei a mão em uma tentativa de limpá-lo, não fez muita diferença.
Apertei o tigre sentindo o tecido macio em minhas mãos e me virei para Nick que estava com uma expressão solidária, ele sabia como ninguém o quanto a morte do meu pai me fez sofrer e o quanto Patrick era importante para mim.
- Obrigado por encontrar ele. - eu disse caminhando de volta.
- De nada. - ele respondeu com um sorriso.
Me sentei ao lado de Nick mais uma vez - dessa vez com Patrick em meus braços - e peguei um gibi para ler.
Nós ficamos lá por um bom tempo, cerca de trinta minutos.
- O que é isso? - Nick falou de repente, quebrando o silêncio e interrompendo a leitura.
- O que? - questionei confuso.
- Escuta.
Ficamos em silêncio e eu foquei minha audição nos barulhos externos.
- É a música do carrinho de sorvetes que nós fomos antes de ontem. - Nick falou.
- O que? Mas porque ele estaria aqui? Isso não faz sentido!
- Não sei. Isso é bastante estranho. - Nick disse deixando o gibi de lado e levantando.
- Onde você vai? - eu questionei fechando o gibi que antes estava aberto em minhas mãos.
- Vou ver o que é isso ué. - Nick falou engatinhando até a saída.
- O que? Espera Nick! - eu disse indo atrás dele.
Aquilo era assustador.
Eu queria impedi-lo mas quando notei ele já estava lá fora.
Desci da casa na árvore com Patrick em meus braços, meu coração martelava dentro do peito e um mau pressentimento me consumia.
- Nick! Espera! - eu disse correndo atrás do meu amigo.
Já havia escurecido e a rua estava deserta sem sinais de vida além do assustador carrinho de sorvetes que não tinha motivos para estar ali.
Nick já estava atravessando o portão do quintal da minha casa, a curiosidade visível em cada movimento seu.
A música ficava mais alta à medida que eu me aproximava, meus pés ainda tocando a grama do quintal.
- Nick! - minha voz saiu entrecortada pelo frio e pelo medo.
Parecia um daqueles pesadelos onde a gente não consegue gritar.
De repente o rangido da porta da van sendo aberta cortou o silêncio noturno.
Tudo aconteceu em fração de segundos.
- Nick! Volta pra dentro! - eu gritei, apertando Patrick com mais força em meus braços. Meus dentes batiam por conta do frio e meu cabelo dançava com o vento.
Avancei um pouco mais, ficando mais perto de Nick, mas ainda estávamos separados pelo portão.
Passos ecoaram no ar e a expressão de Nick mudou de curiosidade para espanto.
Ele tentou correr de volta, mas já era tarde, aquelas malditas mãos grandes o agarraram pelos ombros.
Vi seu rosto ficar branco como um papel.
E congelei de horror.
- N-Nick... - murmurei impotente.
Ele se debateu contra o homem mas todo seu esforço foi inútil.
O homem sorriu de forma sádica e arrastou meu amigo para os fundos da van, sumindo com ele na escuridão.
Os gritos de Nick se tornaram cada vez mais abafados.
E eu não consegui fazer nada para ajudá-lo.
Patrick escapou dos meus braços e eu comecei a correr para dentro de casa com lágrimas nos olhos e a visão turva.
Tudo que eu tenho dos momentos seguintes são fragmentos.
A reação da minha mãe, os pneus derrapando no asfalto, a música sumindo no horizonte, os pais de Nick, as sirenes, os policiais, o som do relógio na parede da delegacia, o medo, o horror, o caos, a angústia e tudo aquilo que me fez quebrar.
Eu nunca mais fui o mesmo depois daquela noite... ninguém foi.
Minha mãe ficou arrasada e os pais de Nick deixaram Woodstock alguns dias depois do ocorrido.
A polícia iniciou buscas frenéticas mas sem sucesso.
O carrinho de sorvetes nunca mais foi visto e nem as crianças desaparecidas.
E não ocorreram mais sequestros em Woodstock depois disso.
Todos que sabiam do ocorrido me olhavam com desprezo e nojo, me culpando por tudo, e isso fez eu me sentir um monstro.
Eu desejei diversas vezes que eu tivesse sido levado no lugar dele, que eu nunca tivesse chamado ele para ir na minha casa naquela tarde ou que a gente nunca tivesse se conhecido no fundamental.
Naquela noite eu não perdi apenas Nick, eu também perdi Patrick - a última memória do meu falecido pai que eu costumava carregar - e também todo o meu psicológico.
Perdi a conta de quantas vezes eu briguei na escola porque alguém falou algo ofensivo sobre Nick.
O pior de tudo era saber que eu não fiz nada para ajudá-lo, que as pessoas estavam certas em me culpar e que ele nunca voltaria.
Nick nunca voltaria.
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