Nove capítulo 12
Kyle chamou Ian e eu liguei para Anne.
Enquanto esperávamos pela chegada dela, aproveitamos para ouvir Gavin e contar a ele tudo que descobrimos e tudo que aconteceu.
Gavin estava diferente, sua postura cética e firme foi substituída por medo e desespero.
Ele se desculpou e implorou que ajudássemos. Nós prometemos salvá-lo, mesmo que nós mesmos não acreditássemos em nossas palavras.
Gavin estava abatido, seus cabelos estavam desgrenhados e ele tinha olheiras profundas adornando seus olhos cansados. Além disso, sua pele estava pálida como se fosse de porcelana, sua boca seca e seu corpo três vezes mais magro do que quando o vimos da última vez.
Esperamos ansiosamente por Anne, e quando ela finalmente chegou, começamos a discutir planos.
- O que vamos fazer? - Ian questionou.
- Pra mim já chega. Acho que está na hora de fazer o que o Arthur disse. - falei.
- Não é uma decisão precipitada? - Ian continuou.
Kyle ficou apenas observando enquanto Gavin e Anne balançavam as pernas nervosamente.
- E quando vamos agir? Quando estivermos todos mortos? Temos que nos livrar disso e trazer justiça para Phillipi, Rick, Ellie e Maya. E a hora é agora. - falei com convicção.
- Ela está certa. Temos que agir. - Anne falou.
- E por onde começamos? - Gavin perguntou.
- Acho que está na hora de contar tudo para o xerife e pedir ajuda. - falei.
Kyle e Ian se entreolharam.
- Na verdade... eu tenho uma ideia melhor. - Kyle disse de repente.
Olhei confusa.
- Qual? - questionei.
- Não vamos envolver ele nisso. Acho que ele não acreditaria e nós só perderíamos tempo - Kyle fez uma pausa - vamos tentar pegar alguns equipamentos dele e pelo menos uma arma. - ele concluiu.
Ian estava tão surpreso quanto eu.
- Se pegarmos poucas coisas, ele não vai dar falta. - Kyle completou.
- Certo. Se você acha que isso pode dar certo, por mim tudo bem.
Os outros assentiram.
Naquele dia, o xerife Harper estava de plantão, então ele não estava em casa. Isso nos ajudou a conseguir os equipamentos e um revólver sem grandes obstáculos.
Com tudo pronto, nós cinco embarcamos em uma jornada da qual não sabíamos se voltaríamos vivos.
Apesar de tudo, tínhamos a intenção de lutar contra aquilo, e era isso que nos mantinha de pé naquele dia congelante.
Começamos nosso trajeto até as colinas. Tudo estava coberto por neve, o horizonte parecia só uma alva incerta. Nossos passos afundavam na neve enquanto fazíamos a nossa marcha até uma possível morte ou fim do nosso tormento.
Os pinheiros verdes estavam cobertos pela neve espessa. O silêncio pairava no ar, evidenciando os assobios do vento e nossas respirações ofegantes.
Parecia que eu conhecia cada parte daquela floresta, mesmo quando ela estava coberta por aquele manto branco.
Mas aquela parte eu com certeza conhecia... bem perto das colinas agora brancas estava o lugar onde acampamos anos atrás.
Senti meu coração doer com aquela memória. Por um momento, ainda pude ver todos nós sentados em volta daquela fogueira, sorrindo, com nossas inocências intactas, sem saber a avalanche que cairia sobre nós.
Meus pensamentos foram interrompidos pela voz de Kyle, que se aproximava.
- Você tá bem? - ele questionou.
- Acho que ninguém está... - respondi, me virando para olhar para ele.
Kyle parou diante de mim, seus olhos cansados fixados nos meus.
- Será que nós temos alguma chance contra... isso? - questionei com a voz trêmula.
- Eu não sei. Mas estamos certos em tentar. - Kyle disse, respirando fundo.
Assenti.
- Olha, Zoe... eu vim aqui para te dizer que...
A voz de Kyle foi interrompida por um som gutural que ecoou do horizonte.
Ficamos em estado de alerta.
Nós pensamos que teríamos que esperar ou chamar por aquela coisa, mas lá estava ela vindo em nossa direção, como se ansiasse pela nossa chegada.
Anne e Ian subiram em árvores estratégicas, enquanto eu, Kyle e Gavin ficamos parados no centro do que um dia foi nosso acampamento. Formamos um círculo, com nossas costas coladas enquanto olhávamos para diferentes direções.
- Ali! - Gavin gritou.
Então eu vi um vulto branco que corria ao redor de nós entre as árvores.
- Fiquem preparados. - falei, minha respiração branca se misturando aos flocos de neve.
Meu coração martelava dentro do peito.
De repente, aquele ser emergiu entre as árvores, seu corpo branco e esguio quase se camuflando ao ambiente.
Cada um de nós correu em direções diferentes.
Eu fui em direção às colinas, Gavin na direção de uma árvore e Kyle na direção de um lugar que não tinha nada.
O plano era que o ser fosse atrás de Gavin, já que ele era seu alvo do momento. Então Gavin subiria na árvore, enquanto Kyle - que estava com o colar - chegaria por trás e colocaria o colar no pescoço da coisa.
Era um plano arriscado e sem garantia, mas estávamos apostando tudo nele.
Contrariando nosso plano, o ser escolheu ir atrás de Kyle, que estava sem cobertura. Kyle ficou paralisado, sem saber o que fazer, Gavin ficou estático de surpresa, e eu senti meu coração se acelerando ainda mais, de uma forma que eu pensava ser impossível.
Naquele momento, nosso plano, que já não era bem estruturado, foi completamente arruinado.
E eu me vi sem saída, não poderia ver mais alguém morrendo diante dos meus olhos enquanto eu não fazia nada.
- BILLY! - gritei.
O ser virou para mim, atordoado. Ele ficou parado por alguns segundos, até que começou a avançar em minha direção com passos largos e desajeitados.
Dei um passo para trás e vi o rosto de cada pessoa ali presente em completo choque.
Tudo parecia estar em câmera lenta.
De repente, Gavin pulou em minha frente, e a criatura o agarrou sem pensar duas vezes, o arremessando longe.
Ouvi o som das costelas de Gavin se quebrando quando seu corpo bateu em uma árvore.
- GAVIN! - gritei.
Me virei para o monstro que estava prestes a dar sua primeira investida contra mim. Eu não tinha nada a perder.
- Billy... - comecei a falar - você era como um anjo e agora se tornou um demônio.
A criatura ficou paralisada por alguns segundos. Tempo suficiente para o som de uma arma sendo engatilhada ecoar pelo espaço branco.
Ian fez o primeiro disparo, mas não acertou o alvo.
O tiro deixou Billy atordoado. Ele se virou em direção às árvores, procurando a origem do disparo. Quando ele encontrou, começou a caminhar com passos erráticos na direção da árvore onde Ian estava escondido.
Aterrorizado, Ian começou a tentar engatilhar a arma novamente para efetuar um novo disparo, mas suas mãos trêmulas dificultavam o processo e Billy se aproximava cada vez mais.
Enquanto Ian tentava recarregar a arma fervorosamente ele deixou um cartucho cair. Vi seus olhos se arregalarem diante da situação que diminuía ainda mais suas chances.
- IAN! - Anne gritou com a voz trêmula, atraindo o olhar de Billy por um instante.
Então, quando tudo parecia perdido, Ian respirou fundo, ergueu a arma e disparou.
O tiro atingiu em cheio o peito de Billy. Ele ficou atordoado, e todos nós percebemos que estava na hora de dar o próximo passo.
Com a adrenalina pulsando em minhas veias, saltei em Billy, caindo sobre ele na neve macia. Meus dedos dormentes tocaram a superfície de sua pele, que parecia borracha, e eu o segurei com todas as forças que restavam em meu corpo, esperando que os outros chegassem logo.
Billy começou a se debater e deu seu primeiro golpe, perfurando a área das minhas costelas com suas garras afiadas.
Uma dor lancinante tomou conta de cada extremidade do meu corpo.
Vi o rosto assustado de Kyle enquanto ele se aproximava.
Kyle jogou o colar sobre o monstro e me puxou para longe do ser, que começou a se debater no chão.
Ian saltou da árvore em que estava e jogou a gasolina que segurava sobre o monstro, que estava fora de si. Sem esperar mais um segundo, Anne riscou o fósforo e jogou sobre Billy, que ardeu em chamas enquanto soltava gritos guturais.
No final, não sobraram nem suas cinzas.
A adrenalina e a satisfação por estar diante do tão almejado fim daquele pesadelo me deixaram incapaz de perceber meus sentidos, mas eles estavam de volta.
Pressionei minha mão contra o ferimento enquanto via o líquido vermelho espesso cobrir minha mão e, eventualmente, cair sobre a neve.
Kyle estava com os braços em volta de mim enquanto os outros corriam para ver o estado de Gavin.
As últimas chamas do fogo começavam a se dissipar enquanto minha visão ficava turva e meus olhos ameaçavam se fechar.
E eu finalmente apaguei, me desligando daquele caos.
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