Nove capítulo 8

Na manhã seguinte, a angústia era palpável. Rostos tristes adornavam a igreja local. Pessoas vestidas de preto caminhavam pela igreja como se o chão não existisse abaixo de seus pés, como se não tivessem mais razões para viver, e entre essas pessoas, uma delas se destacava: Gavin.

Ele andava de um lado para o outro com um olhar completamente vazio. Gavin não tinha mais lágrimas para chorar, mas a tristeza ainda estava lá, presente em cada extremidade do seu corpo. Sua pele estava pálida, como se sua vida tivesse sido sugada. Seus cabelos estavam bagunçados e arrepiados, quase como um gesto de protesto rebelde. Seus passos eram erráticos. Olheiras profundas adornavam seus olhos, negras como o terno largo que cobria seu corpo.

Seus olhos cansados visitavam a causa de sua tristeza periodicamente: os dois caixões fechados no centro do salão. Era possível notar seu rosto pálido se contorcendo, como se ele quisesse gritar, mas, ao mesmo tempo, buscasse se conter para não estragar o velório de sua amada Ellie.

Quando ele notou nossa presença, seu rosto se contorceu mais uma vez, mas, dessa vez, de desgosto. Ele nos via como um bando de parasitas.

Optamos por não ficar muito tempo na cerimônia, por respeito a Gavin. Nós apenas nos despedimos das meninas e fomos embora.

Depois desse angustiante momento, seguimos para o restaurante Never Enough Thyme, onde discutiríamos formas de acabar com toda aquela situação.

Chegamos lá, escolhemos uma mesa, e Kyle finalmente quebrou o silêncio que pairava entre nós desde a igreja.

- Nós estamos juntos nessa e precisamos resolver isso. Não só para salvarmos nossas vidas, mas também para trazer justiça para Ellie e Maya.

- Você acha que o acidente delas tem a ver com a maldição? - Anne questionou.

- Eu tenho certeza - Kyle fez uma pausa, abalado - naquelas visões que eu tive, elas morriam dessa forma, lembra?

Anne assentiu.

- Mas e o Gavin? Como vamos resolver as coisas com ele? Ele está fora de si. - Ian falou.

- Eu não faço ideia, mas temos que dar um jeito. - Kyle falou, com a mão no queixo.

- Quem de nós é o melhor com palavras em situações sensíveis? - questionei.

Todos olharam para mim, confusos com a minha pergunta, e depois olharam para Phillipi.

- Eu? - Phillipi disse, surpreso.

- Sim. Você acha que pode falar com ele? - perguntei.

- Acho que sim. Vou tentar. - Phillipi respondeu, com um sorriso fraco.

- Agora vamos pensar em algo para acabar com a maldição. Se a gente conseguir, nem precisaremos nos preocupar com a segurança de Gavin.

- Você tem razão. - falei, e todos assentiram.

- Rick? - Phillipi chamou - você tem alguma ideia? Você é bom com essas coisas.

- Ahn... - Rick falou, como se tivesse acabado de começar a prestar atenção - eu...

- Você tá bem? - Phillipi perguntou, preocupado.

Todos nós estávamos estranhos naquela manhã, já que estávamos abalados com as mortes de Ellie e Maya, mas Rick era o mais estranho de nós. Não parecia que ele estava só abalado e triste; parecia que ele estava escondendo algo.

Os olhos de Rick se encheram de lágrimas, e ele desviou o olhar por um momento, como se não conseguisse olhar para nós.

- N-na verdade, não. - ele finalmente assumiu, nos deixando ainda mais preocupados.

Rick colocou a mão no bolso de sua calça e tirou algo de lá. Ele jogou o objeto sobre a mesa, e, quando eu vi o que era, senti meu coração batendo mais forte.

Era aquele maldito colar com pingente de asa de anjo. A prata antiga exibindo seu brilho diante dos nossos olhos, quase como se provocasse cada um de nós.

- Isso apareceu na minha casa hoje de manhã. - Rick falou, impotente.

- M-mas - comecei a falar, com os olhos ainda vidrados no maldito colar - eu vi os peritos guardando isso junto com as outras evidências. - concluí, com a voz trêmula.

- Isso apareceu na casa da Ellie e da Maya antes de... vocês sabem, não é? - a voz de Rick estava carregada de medo e tristeza.

- Não. Não. Rick! Isso não vai acontecer com você, tá? Eu não vou deixar. - Phillipi disse, segurando o rosto de Rick com as duas mãos.

Rick desviou o olhar, fugiu do toque de Phillipi e limpou uma lágrima que caiu de seu olho esquerdo.

Ele não estava convencido.

- Tudo bem... eu... eu mereço isso! Todo esse inferno que estamos vivendo é por minha culpa! Eu sabia da maldição e mesmo assim deixei vocês irem lá. Eu fui com vocês! Eu causei isso! Eu deveria ter impedido. - Rick disse, cobrindo o rosto com as duas mãos.

- Não! Nada disso é culpa sua, Rick! Você tentou nos impedir, nós que insistimos nisso! - falei.

- Não é culpa de nenhum de nós, e sim daquela coisa - Phillipi começou - e eu prometo - ele falou, olhando diretamente para Rick, que já estava tirando as mãos do rosto - prometo que vamos acabar com isso.

- Sim. O Phillipi está certo. - Anne falou.

Todos assentiram, e Rick finalmente pareceu mais calmo. Ele ainda evitava contato visual, mas parecia disposto a nos ouvir.

- Proteger o Gavin está em segundo plano. Precisamos focar na segurança do Rick agora. - Ian falou.

- Tem razão. - Kyle concordou.

- E como vamos resolver isso antes que... seja tarde demais?! - Anne questionou, aflita.

- Vamos atrás de um médium. - sugeri, atraindo a atenção de todos na mesa.

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