Baunilha capítulo 8
Na manhã seguinte eu acordei e as memória vieram á tona, mas, dessa vez eu sabia que deveria fazer alguma coisa. Nick estava vivo em algum lugar e eu não poderia ficar parado diante disso.
Me arrastei até o telefone e disquei o número de Lia.
Só chamou, chamou e chamou, aumentando minha tensão.
Por fim, coloquei o telefone de volta no lugar.
A preocupação só crescia em meu peito.
Peguei meu casaco vermelho e saí do meu apartamento, correndo em direção a casa de Lia.
Quando cheguei lá comecei a tocar a campainha freneticamente mas ninguém atendeu.
- Lia! - gritei diante da porta, em desespero.
- Não... não... - murmurei com uma mão na cabeça.
Avancei sobre a porta e girei a maçaneta, por sorte, a porta estava destrancada.
Entrei na casa, as luzes estavam desligadas então procurei pelo interruptor. Depois de acender as luzes olhei ao redor e vi que tudo estava em seu devido lugar.
Caminhei pelos cômodos e não encontrei ninguém. Tentei pensar racionalmente mas era impossível, Lia deveria estar lá.
Lembrei do bilhete que ela havia recebido e senti o desespero me dominar ainda mais.
Decidi ir embora, mas, enquanto fazia o trajeto até a porta notei algo em cima de uma mesa.
Me aproximei e vi que era uma foto...
Peguei a foto, olhei para ela e senti meu coração acelerar ainda mais, de uma forma que eu pensava ser impossível.
A foto era da noite anterior, eu e Lia no bar.
Um terror misturado com raiva e urgência tomou conta do meu fraco corpo.
Joguei a foto de volta na mesa e corri para fora da casa de Lia.
Ao chegar no meu apartamento notei uma carta na frente da porta, peguei a mesma rapidamente e entrei em casa fechando a porta atrás de mim.
Pressionei minhas costas contra a porta e respirei ofegante como se tivesse acabado de fugir de algo - ou alguém.
Finalmente voltei minha atenção para o envelope em minhas mãos, já sabendo de quem era, mesmo ele estando sem o nome do remetente.
Abri o envelope e peguei o bilhete que estava dentro dele, esse estava no meu idioma.
"Lembre-se de vir sozinho, eu sou bastante esperto Toby. Qualquer gracinha sua e seus amigos estarão perdidos."
Senti o mundo desmoronando ao meu redor, sem a ajuda de alguém como eu poderia salvar Nick e Lia?
Dei um chute na porta como se ela tivesse culpa e enfiei meus dedos entre os fios ruivos do meu cabelo.
Eu teria que salvar Nick e Lia sozinho. Não poderia arriscar nem mesmo passar perto de uma delegacia, isso acabaria com tudo já que aquele monstro estava na minha cola.
Respirei fundo buscando me acalmar e usando minha última gota de sanidade fui em direção ao telefone.
Disquei o número da minha mãe e fui rapidamente atendido.
- Toby? Quanto tempo meu filho! Aconteceu alguma coisa?
- Mãe...
- Você se meteu em problemas de novo?
- Não Mãe. Eu só queria saber se posso jantar com a senhora hoje a noite! - eu disse forçando a voz para parecer que tudo estava bem.
- Claro meu amor!
- Obrigado mãe.
Nós nos despedimos e eu larguei o telefone.
Comecei a caminhar de um lado para o outro na sala tentando pensar em algo.
Decidi que o melhor seria seguir minha rotina normalmente, como se nada tivesse acontecendo.
Tomei um banho, vesti meu uniforme e fui para o trabalho.
No trajeto até o restaurante eu me sentia observado a todo segundo e por conta disso eu frequentemente olhava ao redor.
Durante todo o meu expediente meu chefe reclamou que eu estava muito distraído e até me liberou mais cedo por conta disso. Isso foi muito bom pois assim eu tive mais tempo para me arrumar para o jantar na casa da minha mãe.
Eu tentei ir o mais arrumado possível. Tentei aderir uma aparência mais saudável, mas confesso que não ficou muito convincente. De qualquer modo, eu estava apresentável.
Cheguei na casa da minha mãe, bati na porta e logo fui atendido.
Minha mãe parecia cansada mas ao me ver ela abriu um grande sorriso e me abraçou forte.
- Toby! Que saudade!
Me senti um pouco culpado por tê-la deixado.
- Você tá tão magrinho. - ela disse me soltando e olhando para mim de cima a baixo com um olhar preocupado.
- É. - respondi sem graça.
- Vem. Vamos entrar, a comida já está na mesa. - ela disse me arrastando para dentro de casa.
Nós jantamos normalmente, só conversamos sobre coisas simples do cotidiano. Jamais tocando em momentos do passado ou no nome de Nick. Eu também não ousei falar sobre as cartas ou culpá-la por ter as escondido de mim.
Eu só poderia torcer para que elas estivessem lá e esperar o momento certo para pegá-las.
- E as namoradinhas? - minha mãe fez a clássica pergunta, quebrando o silêncio.
Olhei confuso, era uma pergunta inesperada, ainda mais para aquele momento, mas de qualquer modo minha mãe não sabia o que estava acontecendo.
- Aquela sua amiga parece uma boa garota - ela falou sorridente - qual é o nome dela mesmo?
Senti um aperto no coração. Eu esperei por Lia o dia inteiro e ela não apareceu em momento algum. Seu destino era óbvio mesmo que eu não quisesse acreditar.
- Lia. - falei como se seu nome fosse algo pesado.
Abaixei minha cabeça olhando para o prato em minha frente, eu não poderia desabar na frente da minha mãe, ela não poderia saber o que estava acontecendo.
Paralelo a isso, minha mãe me olhava com empolgação por conta de Lia.
- E o que você acha dela?
- Mãe... eu acho a Lia incrível mas na verdade... eu sou gay.
Vi a surpresa em seu olhar mas ela aceitou tranquilamente, algo que foi bem inesperado para mim. Houve um tempo que me assumir era um dos meus maiores medos e agora diante dos outros problemas isso se tornou algo banal.
- Entendi filho. - ela disse.
Um silêncio tomou conta do ambiente e eu finalmente encontrei a brecha que eu precisava.
- Mãe... eu vou no banheiro ok?
- Claro filho, fique a vontade.
Depois de encontrar a minha brecha perfeita para sair da mesa, eu subi as escadas e fui até o escritório da minha mãe - o lugar com mais chance das cartas estarem. O escritório ficava ao lado do banheiro então eu não precisei disfarçar muito.
Por sorte a porta estava destrancada, então eu entrei e comecei a vasculhar tudo até que encontrei as várias cartas com caligrafia russa em uma das gavetas.
Suspirei de alívio - um sentimento que eu não sentia a muito tempo - e guardei as cartas no bolso.
Deixei tudo como estava, eu sabia que em algum momento ela notaria o sumiço das cartas mas elas estariam bem longe e o mais importante: Nick e Lia estariam a salvo.
Voltei para a mesa e agi normalmente até o fim do jantar.
Depois de me despedir da minha mãe eu voltei para a casa em passos apressados e ainda sentindo a sensação de estar sendo observado.
Cheguei em casa, tranquei a porta e corri até o meu computador onde traduzi algumas das cartas.
Eu li muitas coisas perturbadoras mas lá estava o endereço, o lugar onde Nick estava e provavelmente Lia também.
Era uma cabana no meio da floresta aparentemente. Me perguntei como as autoridades nunca descobriram, mas não importava mais.
Estava na hora de acabar com aquele inferno.
E eu faria isso sozinho.
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