Baunilha capítulo 7
Eu me lembro de cada detalhe daquela tarde e daquela noite.
Era um sábado. Eu havia trabalhado durante grande parte do meu dia e já estava voltando para a casa no fim da tarde.
Uma chuva estava se aproximando então eu estava andando bastante rápido pelas ruas enquanto a música "Shout" de Tears For Fears tocava no meu MP3.
Eu estava com pressa de chegar em casa para extravasar meus vícios e logo depois me arrumar para encontrar minha amiga no bar como de costume.
Quando eu finalmente cheguei no meu apartamento fechei a porta atrás de mim e joguei minha bolsa no sofá.
Em seguida preparei tudo, tomei um banho, saí de casa e fui em direção ao bar.
Entrei no local que estava tocando uma música baixa e estava praticamente vazio se não fosse por Lia sentada em frente ao balcão e o bartender organizando as garrafas de bebidas nas prateleiras.
Lia e eu sempre tivemos o hábito de chegar cedo.
Me aproximei dela e sentei em uma cadeira ao seu lado, ela se virou ao notar minha presença.
- E aí? Como você tá? - Lia cumprimentou.
- Bem e você? - respondi me ajeitando na cadeira.
- Bem. - ela disse segurando um copo vazio com as duas mãos.
O silêncio pairou por alguns segundos, algo que eu rapidamente estranhei. Lia estava quieta demais e isso era estranho afinal, mesmo com um cotidiano abstrato ela era o tipo de pessoa que dava um jeito de encontrar algum assunto.
Parecia que ela tinha algo para contar mas estava insegura sobre isso.
- Whisky? - ela perguntou.
- Pode ser. - respondi dando de ombros.
Lia ergueu o braço chamando o bartender e pediu uma garrafa da bebida.
Quando a garrafa chegou servimos uma dose.
Eu imediatamente virei o copo sentindo a bebida rasgando minha garganta. Fiz uma careta e olhei para Lia que estava com o copo intocado.
- O que foi? - eu disse largando o copo vazio sobre o balcão - que bicho te mordeu? - conclui com o cenho franzido.
- Toby... - ela começou com a voz fraca.
Olhei preocupado.
- Preciso te contar uma coisa.
Me ajeitei na cadeira olhando aflito para ela.
- O que aconteceu Lia?
- Eu... eu nunca parei de investigar aquela história. - ela assumiu parecendo derrotada.
Suspirei me virando para a frente, o som das garrafas batendo uma contra a outra preenchendo o silêncio.
- Meu Deus Lia. - eu falei mesmo que já imaginasse que aquilo estava acontecendo.
Ela abaixou a cabeça e olhou para o copo com whisky.
- Mas... dessa vez algo diferente aconteceu. Eu recebi uma coisa. - ela revelou com a voz trêmula.
Me virei para ela surpreso, apertando o copo com mais força.
- O que?
Lia enfiou a mão no bolso da jaqueta azul e tirou um pedaço de papel.
Ela estendeu o papel em minha direção e eu notei sua expressão de cansaço.
Peguei o papel e senti um frio na espinha, Lia não me entregaria um papel sem motivos.
Desdobrei o bilhete e me deparei com uma frase em russo, gelei.
- É ele não é? - Lia falou olhando para o nada com lágrimas nos olhos.
Engoli seco.
- O-oque tá escrito?
Lia se virou para mim deixando uma lágrima cair de um de seus olhos, seu rosto era de alguém que teve a coragem despedaçada e ela parecia ter conhecimento de que se meteu numa fria.
- "Eu vejo vocês." - ela falou com a voz embargada.
Senti o mundo começando a girar.
- N-não pode ser ele. - murmurei.
- Tire suas próprias conclusões Toby. - Lia falou secando os olhos.
- Acho melhor a gente não beber mais hoje - ela disse se levantando - eu vou pra casa.
- Lia...
- Pode ficar com o whisky. - ela completou deixando o dinheiro encima do balcão e dando as costas em seguida.
Não falei mais nada e vi sua silhueta sumindo na porta do bar.
Fiquei lá por mais alguns minutos, tentando digerir tudo aquilo.
Tomei mais um copo de whisky, me levantei, peguei a garrafa e me dirigi para fora do bar entre passos pesados e suspiros, decidido a ir para a casa depois da fracassada noite.
Cheguei no meu apartamento, fechei a porta atrás de mim, tirei os sapatos e larguei a garrafa de whisky sobre o balcão que dividia a cozinha e a sala.
Pensei em Lia e em como eu fui um péssimo amigo ao deixar ela ir embora sozinha daquele jeito.
Peguei um cigarro, um isqueiro e me sentei no sofá da sala. A chuva que estava ameaçando chegar desde mais cedo finalmente começou a cair lá fora e os pensamentos começaram a surgir em minha mente.
Comecei a tentar ficar chapado o mais rápido possível, antes que todo aquele horror dominasse minha mente mais uma vez.
Quando eu já estava quase chegando ao estado que eu desejava, ouvi o som da campainha.
Pensei que fosse um delírio então ignorei mas o som persistiu, a pessoa apertando a campainha freneticamente.
- Merda... - murmurei.
- Já vai! - respondi me levantando do sofá com o cigarro entre os dedos.
Caminhei em direção a porta, meio grogue e com uma forte esperança de ser Lia do outro lado da porta.
Mas quando eu abri não havia ninguém do lado de fora. Olhei ao redor mas os corredores velhos do prédio estavam vazios.
- De novo essas crianças... - pensei alto.
Quando eu já ia fechar a porta me deparei com uma caixa de papelão perto do meu pé, bem na frente da minha porta.
Olhei confuso pois eu não estava esperando nenhuma encomenda.
Segurei o cigarro com os lábios e me abaixei para pegar a caixa, ela não era grande e nem pesada.
Fechei a porta com o pé e fui até o balcão da cozinha, deixando a caixa sobre ele.
Dei mais uma tragada no cigarro e soltei a fumaça infestando meu pequeno apartamento.
Eu estava meio desinteressado na caixa e pensava se deveria perder o meu tempo a abrindo ou não.
Eu decidi abrir.
Me aproximei do balcão e coloquei minhas mãos na superfície da caixa, entre as bordas das tampas que estavam seladas com uma fita transparente.
Rasguei a camada de fita e afastei as tampas de papelão para visualizar o conteúdo no interior da caixa.
Sabe quando você está chapado, alguma merda acontece e você automaticamente fica sóbrio?
Foi isso que me aconteceu.
Meu coração quase saltou do peito, meus olhos se arregalaram e eu pulei para trás.
Dentro da caixa estava... Patrick, algumas fotos que eu não ousei olhar de primeira e um buquê de rosas vermelhas.
Esfreguei meus olhos pensando que era só uma alucinação bizarra, mas a caixa não desapareceu.
Senti meu estômago se embrulhando e corri para o banheiro onde eu vomitei todas as comidas que visitaram meu estômago naquele dia.
Lavei meu rosto na pia em uma fracassada tentativa de me acalmar.
Levantei minha cabeça e vi pela minha visão turva o meu reflexo no espelho, eu estava abatido, o horror transparecia em meu olhar, olheiras profundas estavam abaixo de meus olhos e meu corpo tão magro me fazia parecer um esqueleto.
Afastei meus cabelos ruivos dos olhos e tentei regular minha respiração, voltei a caminhar em direção a caixa, trêmulo e atordoado.
Parei em frente a caixa e desejei com todas as minhas forças que aquela merda sumisse, que aquilo fosse apenas uma brincadeira estúpida da minha mente.
Mas não era.
Ainda com o corpo trêmulo e a respiração pesada preenchendo o apartamento, eu abri a caixa mais uma vez e comecei a ver tudo que tinha lá dentro.
Primeiro Patrick - o tigre de pelúcia. Senti meu coração sendo dilacerado por dentro, aquele tigre era uma das últimas memórias boas que eu tinha do meu falecido pai e aquele monstro que levou Nick tirou toda a pureza disso, ele tirou a pureza de tudo e ainda voltou para me assombrar depois de tantos anos. Como ele podia estar tão perto? Como ele podia ser tão cruel?
Senti vontade de vomitar de novo mas me mantive firme - por mais difícil que fosse - e continuei vasculhando a caixa sentindo um misto de sentimentos horríveis.
A próxima coisa que eu encontrei fez meu sangue ferver de ódio e meu coração gelar de terror.
Eram fotos.
Fotos minhas com Nick, fotos minhas com Lia, fotos minhas em diferentes épocas, cenários e contextos. E o pior... fotos de Nick, antigas e atuais.
Foi como levar um soco no estômago, o mundo ao meu redor começou a girar e suor frio escorreu pela minha testa.
Nick estava vivo. Durante todo esse tempo ele estava vivo, no domínio daquele monstro.
- N-não. - murmurei caminhando para trás com a foto mais recente de Nick ainda em minha mão.
Lágrimas começaram a queimar em meus olhos.
- Não... Nick pelo amor de Deus... você não pode ter sofrido tanto assim! - eu disse entre lágrimas.
- Não! - gritei jogando a foto no chão.
Coloquei minhas mãos no rosto e desabei.
- N-Nick... por que eu não te salvei?
Meus lamentos e gritos ecoaram pelo apartamento por longos minutos. Eu sentia cada gota de culpa transbordando, agora mais do que nunca já que eu parecia desejar mais que Nick tivesse morrido naquela noite do que passado oito anos ao lado daquele monstro.
Em um impulso de fúria saltei em direção a caixa e comecei a destruí-la. Derrubei a garrafa de whisky acidentalmente no processo. As rosas vermelhas caíram no chão junto das horríveis fotos que acompanhavam os últimos oitos anos da minha vida e da vida de Nick.
No meio de toda aquela bagunça de rosas despedaçadas e whisky, um papel se destacou.
Peguei o papel me esforçando ao máximo para não destruí-lo antes de ler.
Desdobrei o papel enquanto meu coração cronometrava cada segundo de tensão antes de ler as palavras ali escritas.
Era uma carta e ela estava em russo. Esfreguei meus olhos sem acreditar naquilo, mas era real, a carta realmente estava escrita em russo.
Corri até meu quarto e me sentei na frente do meu computador.
Fiquei horas e horas traduzindo aquela mensagem e quando finalmente terminei de traduzir cada uma das palavras, me senti tonto.
"Querido Toby, me sinto ofendido por você nunca ter lido nenhuma das minhas cartas, talvez, Nick pudesse ter sido salvo a muitos anos se você as tivesse lido, devo dizer que fui bastante estúpido mandando aquelas cartas para você, se você fosse um pouco mais esperto poderia ter me denunciado e acabado com isso a muitos anos, mas felizmente a burra da sua mãe que pegou as cartas e não soube meu idioma para traduzi-las. Ela sabia que as cartas eram minhas e sentiu medo, mas nunca foi na polícia, fico feliz que sua mãe seja tão idiota quanto você. Bom, apesar de tudo, tenho uma boa notícia para você: Ainda não é tarde para salvar seu amiguinho Nick, ele está bem aqui do meu lado e ainda respira. Ele é um garoto bem sortudo. Eu fui denunciado logo depois que levei ele então tive que parar de produzir meus sorvetes especiais, por sorte, ele era um garoto bastante promissor e eu não abri mão dele durante esses anos, diferente do que fiz com as outras crianças. Nick é bastante especial para mim e você também Toby. Eu tive que te deixar por esses anos pois estava sendo procurado pela polícia, mas, nunca desisti de você Toby, você pode ver isso pelas fotos suas que tirei. Eu sempre estive do seu lado, sempre agi nas sombras, desde o dia que você e Nick compraram aqueles sorvetes de baunilha até os dias de hoje. Não se sinta menos especial que Nick, você era meu alvo principal naquela noite mas o destino colocou Nick no meu caminho e desde então existe um lugar especial para vocês dois no meu coração. Imagino que agora seja a hora de resolvermos isso juntos, então venha me ver, o meu novo endereço está em alguma das cartas antigas que sua mãe recebeu, com sorte ela ainda as guarda e logo você poderá se juntar a Nick. Nós três seremos felizes para sempre Toby."
Dessa vez eu desmaiei.
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