Diário do medo 28/09/2016

São João del-Rei.

Querido diário, eu acordei há um tempo, depois de ter um sonho extremamente agoniante. Só de lembrar sinto meu coração se acelerando e o ar faltando em meus pulmões.

Vou contar como foi.

Eu estava na sala principal da banda, fazendo algumas escalas no meu clarinete.

O Victor estava ao meu lado montando seu saxofone.

Tudo estava normal e tranquilo.

Mas isso mudou quando Victor terminou de montar seu instrumento.

Ele começou a soprar, mas nenhum som saía. Isso o deixou confuso e ele começou a se preocupar, achando que tinha quebrado o sax, porque se tivesse, ele iria receber uma boa bronca do nosso maestro.

Eu me levantei e parei na frente dele, preocupada com a situação.

Victor voltou a soprar o instrumento.

Ele fazia tanto esforço que seu rosto começava a ficar vermelho.

- Victor. É melhor você falar com o Reginaldo.

Ele me ignorou completamente e continuou soprando.

Nenhum som saía.

Eu pude ver o desespero surgindo na face dele, de uma forma exagerada, como se a vida dele dependesse daquilo.

Então, de repente...

O saxofone se encheu de água.

A água transbordava.

E era completamente sem explicação.

Como aquela quantidade de água poderia surgir, de repente, dentro de um instrumento musical?

Victor não se importou nem um pouco. Continuou tentando tocar, e quanto mais fazia isso, mais água surgia.

Diante disso, eu dei um passo para trás, vendo a água cobrindo o chão.

- V-Victor... - murmurei.

Ele ignorou.

Seus olhos estavam fechados.

Sua expressão aflita.

E o saxofone continuava transbordando.

- VICTOR! - gritei.

Ele abriu os olhos abruptamente e eu pulei para trás de terror.

Os olhos dele estavam completamente negros e suas bochechas estavam molhadas por lágrimas.

Ele jogou o instrumento no chão como se não fosse nada.

E falou com uma voz completamente grave e desumana:

- Vocês vão pagar por isso!

Depois, ele avançou em minha direção, mas, antes que suas mãos pálidas com dedos enrugados me tocassem, eu fui puxada para trás.

Fechei meus olhos com o impacto daquele puxão.

E quando abri novamente... me deparei com algo que me causou um arrepio na espinha.

Eu estava perto da cachoeira.

Dessa vez, o céu estava branco, com nuvens negras ondulantes que indicavam a chegada de uma tempestade.

O vento estava tão forte que levantava a poeira e as folhas do chão. Isso fez eu ter dificuldades de manter meus olhos abertos, por medo de algo entrar neles.

Eu estava vendo tudo de uma forma vaga, mas finalmente notei... aquele mesmo senhor com roupa de época estava lá.

Ele me olhava com olhos vazios, carregados de decepção e desprezo.

Seus cabelos grisalhos dançavam com o vento violento.

Eu tirei meus cabelos do rosto e ousei abrir meus olhos um pouco mais para olhar para ele melhor.

Então ele finalmente falou:

- Eu avisei vocês... vocês não me ouviram... e agora... VÃO PAGAR POR ISSO!

Meu corpo estremeceu com o susto daquele grito repentino.

- O que você quer dizer? - gritei sobre o som da tempestade e da cachoeira agitada.

O homem deu um passo para trás.

- Por favor... - supliquei - me fala!

- Nada pode ser feito. - ele respondeu friamente.

Um raio cortou o céu e o homem se jogou de costas na água sob o clarão incandescente. Meu braço se ergueu no ar em uma falha tentativa de segurá-lo, e tudo que eu consegui foi tatear o vazio como uma criança perdida no escuro.

Corri até a beira do poço da cachoeira para procurar pelo homem dentro da água, mas ele havia sumido.

Enquanto eu tentava regular minha respiração, ouvi uma voz atrás de mim...

- Gio...

A voz estava embargada, mas, mesmo assim, eu a conhecia muito bem.

Era a Ingrid.

Me virei para trás rapidamente, esperando sentir algum alívio pela presença da minha amiga.

Mas isso não aconteceu.

Pois eu encontrei Ingrid parada, aos prantos.

Ela chorava tanto que seus olhos estavam inchados.

- Ingrid... você tá bem? - perguntei, preocupada.

Então ela se ajoelhou sobre a grama, seus cabelos dançando com o vento e sua silhueta sendo iluminada pelos raios.

- Por favor... - ela pediu fracamente, juntando as palmas de suas mãos - por favor... não faz isso com ele... por favor... eu amo ele. - ela suplicou, entre soluços.

- O quê? Do que você tá falando Ingrid? - questionei com o cenho franzido

Ingrid parou de chorar, abriu os olhos lentamente, me olhou com um olhar sombrio e...

Abriu um largo sorriso.

Antes que eu pudesse questionar o porquê daquilo, senti uma mão gélida tocando meu ombro e me puxando para trás.

Eu caí de costas na água e vi a escuridão tomando conta de tudo aos poucos.

O ar começou a faltar em meus pulmões, mas, antes que tudo ficasse pior, eu acordei.

Esse pesadelo foi muito estranho e assustador.

Mas com certeza aconteceu por conta do estresse acumulado daquela viagem.

- Escrito por Gio.

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