Baunilha capítulo 9
Naquela mesma noite eu decidi mudar tudo.
Coloquei um coturno preto, uma roupa toda preta e escondi um canivete dentro do sapato. Eu sabia que essas coisas não fariam grande diferença, mas eu queria sentir a falsa sensação de estar preparado.
No fundo eu sabia que estava tomando uma decisão imprudente, mas era tudo pelo Nick e pela Lia.
Por fim, peguei uma lanterna e saí do meu apartamento.
Durante o tempo que eu andei pela rua tudo parecia normal, não parecia ter ninguém a minha espreita.
Porém, quando eu entrei na floresta isso mudou. A atmosfera estava pesada, parecia que eu estava sendo observado em todas direções e por conta disso eu frequentemente apontava minha lanterna para diferentes polos.
Depois de andar bastante sem problemas, eu finalmente vislumbrei uma cabana através das árvores. Me preparei para invadir e acabar com tudo mas antes que eu tomasse qualquer ação, ouvi passos atrás de mim. Antes que eu pudesse reagir senti algo batendo fortemente contra minha cabeça.
Perdi o controle do meu corpo, vi a luz tremeluzente da minha lanterna se dissipando entre as árvores e perdi minhas forças no infinito da escuridão.
Algumas horas depois eu abri os meus olhos com dificuldade tentando me lembrar os acontecimentos das últimas horas. Eles vieram á tona quando meus olhos se abriram por completo e eu me deparei com um cômodo muito sujo e vazio - exceto por uma pequena janela na parede.
Em poucos segundos me dei conta da dor que sentia no alto da cabeça, das correntes que prendiam meus tornozelos, das cordas que seguravam meus pulsos e do pano em minha boca, que me impedia de gritar.
O desespero tomou conta de mim, além de tudo, eu estava descalço então o canivete que anteriormente estava escondido em meu coturno estava perdido. Eu estava completamente sem chances.
Eu fiquei preso durante todo aquele dia. Eu tentava gritar mas só sons abafados saíam e nem isso fez aquele monstro aparecer.
Também não havia sinais de Nick e nem de Lia.
De noite eu ouvi alguns assobios pela cabana mas isso não me trouxe nenhum conforto ou alívio.
O cômodo onde eu estava não recebia nenhuma luz além da luz da lua que entrava pela pequena janela.
Isso mudou quando a porta de repente foi aberta produzindo um rangido terrível.
Ouvi passos pesados e através da fraca luz vi a silhueta imponente do homem que segurava uma arma a qual ele engatilhava.
Ele parou na minha frente forçando que eu olhasse para ele.
- Lamento não ter te dado boas vindas Toby. - a voz rouca ecoou pelo cômodo.
- Eu preparei uma surpresa para você. Estive na cidade durante o dia de hoje para comprar mantimentos e fazer um jantar para você. - ele disse sorrindo como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
Permaneci em silêncio com minha cabeça baixa.
- Ah Toby, não seja mal criado como o Nick. - ele disse pegando em meus ombros com suas mãos pesadas.
Ele me levantou, me soltou e colocou a arma em minha cabeça.
- Se comporte, não me faça te matar. - falou me guiando até o outro cômodo.
Quando chegamos no que parecia ser a sala de jantar eu pude sentir o cheiro de mofo que vinha de todo o resto da casa.
O homem me colocou em uma das cadeiras e começou a amarrar minhas mãos.
- Como eu vou comer com as mãos amarradas? - questionei finalmente soltando minha voz fraca.
- Olha! - ele disse forçando surpresa - você é mais inteligente do que eu imaginei. - falou desistindo de amarrar meus pulsos.
- Mantenha sua inteligência e não tente nenhuma gracinha. Eu sou muito bom de mira. - ele completou girando o revólver no ar enquanto ia até outra cadeira.
- Tá. - respondi indiferente.
Depois que ele se sentou e começou a cortar um pedaço de carne.
Observei atentamente demonstrando interesse em cada movimento dele.
- Qual é o seu nome? - questionei enquanto observava ele colocando a carne no meu prato.
Ele ergueu o olhar, surpreso.
- Uau. Não imaginava que você estivesse tão interessado em mim. - ele falou com seu forte sotaque russo.
- Na verdade... eu estou bem mais interessado do que eu imaginava.
Ele sorriu.
- Dimitri.
- Que belo nome. - respondi colocando um pedaço de carne na boca.
- Pelo visto você vai facilitar as coisas Toby. - ele disse satisfeito.
- É. - respondi dando de ombros.
O silêncio pairou no ar por alguns segundos até eu fazer uma nova pergunta:
- Onde está o Nick? Você disse que ele estaria aqui. E a Lia? - falei controlando minha voz.
- Nick se comportou mal e por isso não veio jantar com a gente. Mas não se preocupe, ele está bem.
- E a Lia? Onde ela está? - falei com um pouco mais de urgência na voz.
- Ela fugiu.
Senti alívio ao ouvir isso
- Agora pare de se preocupar com esses dois e aproveite o nosso jantar Toby. - ele falou se levantando.
- Vou buscar vodka. - Dimitri completou pegando a arma e caminhando até a cozinha.
Ele voltou alguns instantes depois.
- Dimitri... por que eu e Nick? Por que você nos escolheu? - questionei.
- Porque eu gostei de vocês assim que conheci vocês.
- Eu soube naquela tarde que deveríamos viver juntos. - Dimitri completou virando uma dose de vodka.
Ri sem humor e deixei uma expressão amarga dominar meu rosto. Dimitri ficou confuso.
- E isso fez você se achar no direito de destruir nossas vidas? - gritei.
O olhar de Dimitri ficou sombrio.
- Você estava indo tão bem Toby. - ele se levantou bruscamente.
Mais uma vez, a coragem fugiu de meu corpo.
O homem me pegou pela camisa e me arrastou de volta para o quarto escuro. Eu estava fraco demais por conta das drogas - e principalmente pela falta delas - e por isso não consegui reagir.
Dimitri me jogou no chão, minhas costas bateram contra a parede dura e eu senti dor em cada extremidade do meu corpo.
- Como você ousa dizer isso na minha cara? Seu pirralho desgraçado.
Permaneci em silêncio, o medo me consumindo e as soluções desaparecendo.
- Me responde porra!
De repente, Dimitri golpeou meu rosto com seu coturno e eu rapidamente senti o cheiro metálico do sangue que começava a surgir em meu nariz.
Caí no chão frio, quase inconsciente e vi Dimitri começando a caminhar em direção a porta.
- M-me... - comecei a falar com dificuldade - me desculpa.
Dimitri se virou e através da fraca luz da lua que entrava pela janela pude ver sua expressão em uma mistura de surpresa e culpa estranha.
- No final das contas - eu disse me colocando sentado - você foi o único que realmente me enxergou e fez questão de mim.
A surpresa no rosto de Dimitri agora era consumada.
Me coloquei de pé com dificuldade.
- Nós... nós podemos matar Nick agora e viver sozinhos.
O homem estava maravilhado. Suas sobrancelhas estavam erguidas e seus olhos brilhavam como se tivessem roubado todas as estrelas do céu.
- Eu... eu te amo. - comecei a caminhar em direção ao homem que estava congelado de emoção.
Cheguei perto dele, afastei um fio de cabelo loiro que caía sobre seus olhos azuis piscina e olhei para sua barba por fazer.
Selei nossos lábios e senti nossas línguas se entrelaçando.
A próxima coisa que senti foi o líquido quente e espesso cobrindo minha mão. Vi Dimitri abrir os olhos em completo horror e descrença.
Foi um movimento rápido, calculado e satisfatório.
- Viu? Eu sou bem mais inteligente do que você imaginava. - respondi sarcástico, olhando fixamente para o homem, com a faca ainda cravada em seu peito.
Dimitri cambaleou para trás forçando que a faca saísse de seu peito, seu sangue espirrou em diferentes direções.
Ele olhava para mim e para o ferimento com pavor.
Ele colocou a mão sobre o corte, como se tentasse segurar seu próprio sangue mas cada vez que ele olhava para sua mão mais vermelha eu podia notar o desespero crescendo em sua face.
Aquilo não poderia salvá-lo, aquilo não podia impedir que ele pagasse por cada pecado que cometeu.
Não pude conter que um sorriso escapasse de meus lábio quando vi seu corpo despencando, seus olhos paralisados, seu sangue se acumulando no chão sujo e a faca que eu roubei durante o jantar ensanguentada em minhas mãos.
Assim que a adrenalina diminuiu senti uma forte dor de cabeça tomando conta de mim, arfei e deixei a faca cair de minha mão.
Mas eu não poderia parar, eu tinha que encontrar Nick.
Tudo que tenho dos momentos seguintes são fragmentos.
Eu comecei cambaleando pela cabana, com a visão turva, procurando por qualquer sinal de Nick. Encontrei a porta do porão, entrei e senti um forte cheiro de podre. Desci as escadas e olhei ao redor. Dentro do porão, eu encontrei diversos esqueletos no chão; minha blusa listrada de azul estava pregada na parede com meu nome gravado sobre ela. Eu não tive tempo de questionar como era possível que ela estivesse ali, pois, ao lado dela, estava Nick acorrentado como um animal, magro como um esqueleto, com um olhar abatido e completamente surpreso.
Não aguentei mais.
Vomitei na frente de Nick, depois avancei sobre ele e comecei a tentar soltar as correntes que o prendiam freneticamente, mas era impossível.
Minha visão começou a escurecer e eu não sei exatamente em que momento desse caos que eu chamei a polícia mas antes de apagar por completo ainda pude ouvir as sirenes e a fraca voz de Nick falando comigo;
- Você veio me salvar.
- Ele disse que você nunca viria.
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