Diário do medo 03/10/2016
São João Del Rei.
Não. De novo não.
Hoje foi um dos piores dias.
Cada novo passo que a gente dá parece um erro.
E o de hoje com certeza foi um dos maiores.
Ok. Certo. Eu vou tentar me acalmar pois preciso registrar isso!
Nessa manhã nós estávamos verdadeiramente esperançosos.
Nós fomos até o médium indicado pela Marina.
Ele nos recebeu e nos ouviu com atenção.
Depois que contamos tudo, ele analisou bem a situação e nos disse que uma presença maligna está nos perseguindo e isso pode vir de um objeto, lugar ou ação que tomamos - ou uma mistura de todos esses elementos.
Á princípio, ele não soube nos dizer o que era exatamente, pois segundo ele, essa coisa é tão forte que quando ele tentou se comunicar, se sentiu muito mal.
Então Marina teve a ideia de mostrar o colar que ela encontrou na cachoeira.
O olhar do médium ficou sombrio, ele disse que o objeto estava carregado de uma energia negativa.
Vi o rosto de Richard se contorcer de raiva.
Obviamente, não contamos sobre a morte de Victor para o médium, mas, agora que ele mostrava que o colar era um aliado da tragédia que aconteceu com Victor, sabíamos que não seríamos tolerantes á esse objeto.
O médium segurou o colar e em poucos segundos, um cheiro metálico tomou conta da sala.
O nariz dele começou a sangrar.
Ele largou o colar rapidamente e disse que não seria capaz de lidar com aquilo.
Em seguida, ele nos instruiu a não destruir o colar pois isso poderia piorar as coisas e disse para irmos até uma igreja.
Fomos embora e assim que chegamos do lado de fora vimos a paciência de Richard se esvair.
Nós tentamos acalmar ele.
Mas como poderíamos?
Como poderíamos acalmar alguém que acabou de perder o amor da sua vida e estava bem diante do culpado? - o colar.
Richard surtou.
Ele avançou sobre o colar e começou a tentar quebrar o objeto.
E isso foi um erro. Um erro horrível.
Eu juro que nós tentamos impedir.
Eu juro.
Ele apertou o colar com mais força e o objeto feriu suas mãos, ele tentou jogá-lo no chão, mas o colar se entrelaçou em uma de suas mãos firmemente.
Ele olhou assustado e seus olhos de repente ficaram brancos
Seu rosto se contorceu.
Nós gritamos, tentando chamá-lo de volta.
Mas já era tarde demais.
Um estalo seco cortou o ar.
O maxilar de Richard perdeu a forma e caiu para baixo, sua boca aberta em um ângulo impossível.
Nós gritamos, em uníssono, mas aquilo era mais do que inútil.
Os olhos brancos de Richard explodiram dentro das órbitas e lágrimas rubras serpentearam pelas suas bochechas.
Ele... ele ainda estava vivo.
Murmúrios de pura agonia escaparam de seus lábios disformes.
E nós só ficamos paralisados diante do inevitável.
Então, veio o golpe fatal.
O barulho de ossos se quebrando e o pescoço dele se virando para o lado de uma forma impossível.
Seu corpo despencou para o chão.
Como se ele fosse um mero boneco que caiu no desuso.
Nós gritamos.
Pedimos ajuda.
Mas foi irrelevante.
Ninguém estava lá para nos ouvir, a rua estava deserta como nunca.
Então nós fomos embora.
Deixamos ele lá.
Com aquele maldito colar enrolado em sua mão ensanguentada.
Eu não sei em que momento essa coisa tomou tanto controle sobre nós que nos fez deixar de ser quem éramos, perdendo nossa lealdade, deixando amigos para trás.
Primeiro Victor, e agora... Richard.
Sinto como se ainda pudesse ouvir o barulho dos ossos deles se partindo.
E não sei se consigo lidar com essa culpa horrível.
- Escrito por Gio.
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