Baunilha capítulo 5

Eu estava no refeitório em mais um intervalo entediante, a bandeja de comida a minha frente era remexida pelo garfo em minhas mãos e a cacofonia das vozes e dos talheres me deixava com dor de cabeça.

De repente alguém se sentou no lugar a minha frente, sem ser convidado, olhei para a frente e encontrei a garota do dia anterior. Foi impossível esconder minha expressão de confusão.

- Oi! - ela disse naturalmente - nós nem nos apresentamos ontem!

Permaneci em silêncio.

- Você é um homem de poucas palavras né? - ela disse em um tom bem-humorado.

- Bom, o meu nome é Lia Walker e eu sei que você não vai me dizer o seu nome mas tudo bem porque eu já sei que é Toby.

-Você fala demais. - falei seco.

Ela riu.

- Finalmente você falou alguma coisa!

Nós ficamos em silêncio por alguns segundos até ela voltar a falar.

- Eu posso ser sua amiga se você quiser.

- Eu não quero. - respondi rápido.

- Meu Deus! Como você consegue ser tão amargo?

Continuei em silêncio.

- Olha... eu sei que você não gosta desse assunto mas...

Ergui a cabeça sabendo o que ela estava prestes a falar, isso a fez pausar por um momento.

- Você nunca pensou na possibilidade do seu amigo estar vivo em algum lugar?

Senti um arrepio na espinha.

- O que? Você tá maluca de dizer isso?

- Não. Não estou maluca.

Desviei o olhar e comecei a mexer nas minhas próprias mãos, revelando o nervosismo que começava a me dominar.

- Eu pesquisei muito sobre essa história. - Lia continuou.

- Então você é só mais uma idiota querendo bancar a detetive, é isso? - falei num tom mais cruel do que pretendia e alto demais.

O refeitório nadou em silêncio e olhares curiosos nos atingiram como flechas. O rosto de Lia ficou vermelho, ela abaixou a cabeça e respirou fundo.

- Olha, eu só quero te ajudar! - ela disse erguendo a cabeça novamente.

- Eu já disse que não quero sua ajuda.

- Você não quer mesmo descobrir o que aconteceu? Pelo menos encontrar aquele babaca pra ele pagar por todo o sofrimento que causou?

- E o que você entende de sofrimento? Me diz?

- Eu... eu quase fui levada por ele.

- Ah. Aí o seu papaizinho policial te salvou, foi?

Lia ficou séria, pela primeira vez.

- Meu pai morreu a muitos anos, em uma troca de tiros - ela falou com um olhar sombrio - muito antes desse maníaco do sorvete. Eu só falei dele ontem pra te ajudar, seu idiota.

Senti um leve arrependimento tomando conta de mim, mas nada muito forte, eu era quase apático.

Lia pegou sua bandeja e começou a se levantar com um olhar de raiva e decepção.

Eu não poderia carregar mais uma culpa.

- Espera! - falei.

Ela olhou surpresa.

- Me desculpa.

Ela se sentou novamente, agora com um olhar confuso e curioso.

- Então... o que você sabe? - questionei hesitante.

- Na verdade, nada.

Olhei confuso.

- Mas se a gente se unir, acredito que vamos descobrir várias coisas.

- E porque você quer tanto investigar isso?

- Não é curiosidade ou maldade como os outros. Eu quase fui levada por aquele homem e diversas pessoas foram levadas... tipo o seu amigo - ela fez uma pausa - não é justo que ele saia impune depois de fazer tanta maldade.

- Você não acha que ele está bem longe daqui nesse momento não?

- Olha eu entendo que parece utópico pensar que vamos conseguir descobrir coisas que nem a polícia descobriu, mas eu não suporto ficar parada diante dessa situação.

- Alma de filha de policial. - falei.

Ela riu.

- E porque você quer me envolver nisso? Você mesma disse que eu tô um caco. - questionei erguendo uma das sobrancelhas.

- Exatamente, eu quero te ajudar. Nós dois passamos por traumas com esse maníaco e devemos nos unir para derrotá-lo. Talvez isso traga um pouco de paz para os nossos corações.

- Assim até parece que nós somos alguma espécie de super heróis. - falei sério.

- É quase isso.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, com as cabeças baixas.

- Me diz, Toby - ela começou a falar, como se pisasse em ovos - e se o Nick estiver vivo... você não gostaria de salvá-lo?

Senti lágrimas se formando em meus olhos, uma fraqueza que eu não queria mostrar para ninguém.

- É utópico demais acreditar que ele está vivo depois de tantos anos - eu disse com a voz falha - mas... podemos tentar encontrar aquele desgraçado que causou tudo isso.

- Isso aí!

E assim nasceu minha amizade com Lia, no meio do caos e do desejo de vingança.

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