Moldura amarela capítulo 3

Algum tempo depois do episódio com meu urso Teddy, aquele sonho se alojou em minha mente.

E depois tudo se acalmou.

Os desaparecimentos que aconteciam pela cidade pararam, o carro vermelho deixou de aparecer em todo canto e o homem-oco virou uma figura mística tosca para nós que crescíamos e deixávamos de acreditar em lendas.

Os anos se passaram.

E aquela noite chegou.

Eu tinha quinze anos.

Meu pai ia trabalhar até tarde e eu chamei Antony e Olívia para passarem a noite na minha casa já que eu estava com medo de ficar sozinho.

Eles aceitaram e chegaram por volta das sete da noite.

Uma tempestade de neve caía lá fora então nós estávamos bem agasalhados.

Nós trancamos todas as portas e janelas, e fomos para a cozinha onde preparamos chocolates quentes.

Depois fomos para o meu quarto.

Antony e Olívia largaram suas mochilas sobre a cama e nós três nos sentamos no chão com nossas canecas postas à nossa frente.

O vento assobiava lá fora.

- O que vocês querem fazer agora? - questionei.

Antony pensou um pouco e Olívia tomou um gole do chocolate quente.

- Já sei! - Antony falou.

- O que? - Olívia disse colocando a caneca no chão.

- Vamos jogar verdade ou desafio. - Antony falou olhando para nós dois com um olhar desafiador.

- Verdade ou desafio? - questionei.

- Sim. - Antony respondeu dando de ombros.

- Por mim tudo bem. - Olívia disse.

- Por mim também. - falei.

- Ótimo! Você tem alguma garrafa aqui pra gente girar? - Antony questionou.

- Aqui no meu quarto não. Vou procurar em outro cômodo. - falei me levantando.

Os dois assentiram e eu caminhei até a porta.

Atravessei o corredor escuro e cheguei na cozinha onde pude visualizar a janela e a neve caindo lá fora.

Acendi a luz e examinei o lugar em busca do que Antony sugeriu. Meus olhos alcançaram a bancada da cozinha e eu vi uma garrafa de vinho vazia do meu pai.

Peguei a garrafa e comecei a caminhar de volta para o quarto.

Mas...

Quando eu passei na frente da janela me senti observado.

Senti um estranho arrepio tomando conta do meu corpo e parei.

Olhei para a janela, mas nada parecia errado.

Lá fora os flocos de neve continuavam rodopiando no ar e as árvores secas produziam sombras imponentes mas nem um pouco ameaçadoras.

Balancei a cabeça com vergonha de mim mesmo e fechei a cortina.

Depois voltei a fazer meu trajeto até o quarto.

Ao chegar no quarto, me sentei perto de Antony e Olívia e coloquei a garrafa no chão, no meio de nós.

Por alguma razão, um forte incômodo tomava conta de mim.

Eu sentia como se algo estivesse errado.

Busquei afastar esses pensamentos e voltei minha atenção aos meus amigos.

- Vamos começar! - Antony disse colocando a mão sobre a garrafa.

Ele girou o objeto que produziu um zunido agudo ao entrar em atrito com o chão.

O som foi ficando mais grave e irregular à medida que a garrafa foi perdendo a velocidade.

Até que ela parou.

- Olívia! - Antony exclamou.

Olívia olhou para a garrafa que apontava para ela e depois para Antony.

- Verdade ou desafio? - Antony questionou.

- Verdade. - ela respondeu.

Antony sorriu.

- É verdade que... você acredita na lenda do homem-oco até hoje? - ele perguntou olhando fixamente para Olívia.

Senti um arrepio ao ouvir esse nome.

O som da risada irônica de Olívia se misturou ao som do vento lá fora.

- Que pergunta ridícula! É claro que não. - ela respondeu.

Antony deu de ombros e girou a garrafa mais uma vez.

Ela produziu o mesmo som irritante ao parar de girar, e dessa vez apontou para mim.

- Estou com sorte hoje. - Antony falou em um tom bem-humorado.

- Mike, verdade ou desafio?

- Verdade. - respondi sem hesitar.

Ele fingiu pensar um pouco.

- É verdade que... você já gostou da Amber Collins?

Engasguei com minha própria saliva.

- O que? A Amber? - falei surpreso.

Olívia revirou os olhos.

- Claro que não Antony. - respondi.

- É Antony! Até parece que o Mike seria capaz de gostar daquela garota insuportável. Ela se acha só por ser filha do xerife. - Olívia falou olhando para o chão.

- Ei não fica brava Ol - Antony começou a falar - eu não gosto dela também!

- É. Nós prometemos não citar ela nunca mais e você acabou de descumprir essa promessa! - Olívia falou, evidentemente chateada.

Naquela época era praticamente uma regra do nosso trio não gostar e não citar o nome de Amber Collins, pois uma vez, sem motivos aparentes, ela bateu em Olívia.

Antony e eu flagramos essa cena. Olívia estava com o nariz cheio de sangue, nós defendemos ela e fomos até o xerife para reclamar do comportamento de Amber.

Ele falou que ia conversar com a filha e nós deixamos esse assunto para lá.

O ponto é que Antony teorizou que Amber fez isso por gostar de mim e ter ciúmes de Olívia, algo que não fazia o menor sentido.

Antony ficou em silêncio e girou a garrafa de novo, dessa vez o objeto apontou para ele e Olívia faria a pergunta.

- Antony. Verdade ou desafio? - Olívia perguntou ainda séria.

- Vou escolher desafio para me redimir pelo meu erro. - Antony disse em um tom engraçado.

Olívia deixou um sorriso escapar.

- Eu te desafio a sair lá fora!

Olhei surpreso.

- Lá fora? Mas tá muito frio. - falei.

Olívia se virou para mim.

- Ele aguenta. É só ir até o quintal da sua casa e voltar.

- Isso mesmo. Eu aguento! Isso daí vai ser moleza. - Antony disse já se levantando.

Seguimos ele pela casa, até chegar na porta da frente.

Eu ainda sentia aquela sensação estranha, ela parecia estar até mais intensa, como um mal pressentimento.

- Tem certeza Antony? - questionei.

- É claro. Eu não recuso nenhum desafio!

Olívia sorriu vitoriosa.

Abri a porta e a brisa gélida tocou nossas peles. Olívia abraçou seu próprio corpo e Antony suspirou.

- Dois minutos! - Olívia falou.

- Beleza! - Antony respondeu confiante.

Ele saiu. Seus pés afundando na neve e os flocos se alojando em seu casaco felpudo.

Olívia fechou a porta e eu olhei para o relógio para marcar os minutos.

Tudo estava indo bem.

Até que...

Ouvimos o som de Antony correndo de volta.

Sua respiração estava tão ofegante que ele parecia estar correndo uma maratona.

Olívia e eu nos entreolhamos.

Então ele bateu na porta, seu desespero fazendo as dobradiças estremecerem.

- Abre a porta! Rápido! - ele gritou do outro lado.

Olívia arregalou os olhos e girou a chave.

Antony empurrou a porta com tanta pressa que tropeçou e caiu no chão.

Olhei para ele assustado.

Aquele não parecia o simples desespero de alguém com frio.

Ao invés de ficar parado no chão, ele saltou rapidamente e avançou sobre a porta, trancando a mesma.

- Antony! Você tá bem? - Olívia perguntou, preocupada.

Antony não respondeu.

Ele estava pálido, seu peito subia e descia rapidamente e sua pupila estava dilatada.

- Antony? - Olívia chamou outra vez.

Ele continuou tentando regular sua respiração.

- Aconteceu alguma coisa? - eu perguntei.

Ele finalmente respirou fundo e olhou sério para nós. O medo ainda lapidado em seu olhar.

- T-tem alguém lá fora. - ele falou de uma vez com sua voz trêmula.

Antony é do tipo brincalhão, mas eu nunca o vi brincando com algo do tipo, muito menos tão sério.

- C-como assim? - Olívia perguntou com a voz fraca.

- Eu... eu estava lá fora e quando olhei para o canto do quintal... vi uma silhueta parada na escuridão. - ele disse se sentando em uma cadeira, ainda trêmulo.

Senti um arrepio na espinha.

- Você tem certeza? Talvez seja só uma árvore. - falei.

- T-tenho... porque... - ele começou a falar, visivelmente abalado - porque ele começou a vir em minha direção!

Olívia arregalou os olhos.

Eu olhei para a porta, meu coração martelando dentro do peito.

- Vamos sair daqui! Vamos voltar para o quarto.

Antony se levantou e nós voltamos rapidamente para o quarto.

Ao chegar lá, eu fechei a porta como se aquilo fizesse alguma diferença.

Antony se sentou na cama limpando seu casaco salpicado de flocos de neve. Olívia parou ao lado dele com uma expressão aflita.

- E agora? - Olívia perguntou.

- Agora nós ficamos aqui. Se realmente tem alguém lá fora, essa pessoa não pode entrar. A casa está toda trancada. - respondi.

- "Se realmente tem alguém lá?" olha o meu estado Mike! Você acha que eu iria brincar com isso! - Antony falou alterado, sua voz tão pesada quanto o som da tempestade lá fora.

Nunca o vi tão bravo.

- Tá Antony. Eu acredito em você. Me desculpa, eu só estou tentando acalmar as coisa e porra, essa é a minha casa! - falei.

Antony abaixou a cabeça.

Olívia cruzou os braços e olhou na direção da janela que estava coberta por uma cortina branca.

- O que essa pessoa está fazendo aqui? E se ele conseguir entrar? Nós estamos sozinhos! - Olívia falou nervosa.

Suspirei. Passei a mão nos meus cabelos ruivos e me sentei ao lado de Antony.

- Estamos seguros aqui, fica tranquila. Meu pai chega de manhã, tudo que temos que fazer agora é ficar aqui.

Olívia assentiu mas ela não parecia confiante.

Cada um de nós estava tomado pelo medo.

Não é todo dia que alguém surge em seu quintal durante uma tempestade de neve e corre atrás de alguém.

De repente, aquele som cortou a noite como uma lâmina afiada...

Uma batida na janela.

Meus amigos olharam para mim com os olhos arregalados. 

- N-não deve ser nada. - falei tentando tranquilizar meus amigos.

Mas...

Outras três batidas preencheram o silêncio.

Aquele maldito som que tanto atormentou a minha infância.

Um som que só poderia ser de alguém batendo o punho contra o vidro.

Antony e eu nos levantamos da cama abruptamente.

Nós três paramos na frente da porta do quarto, olhando diretamente para a janela.

Atrás da cortina branca quase transparente, uma sombra negra e imponente nos espreitava do lado de fora.

Girei a chave da porta do quarto e puxei meus amigos comigo.

Nós corremos para o banheiro - o lugar que parecia mais seguro - e passamos a noite trancados lá, ouvindo o som de alguém andando ao redor da casa.

Pela manhã, assim que meu pai chegou, ele se deparou com três adolescentes aterrorizados e com lágrimas nos olhos.

Aquela tinha sido uma noite verdadeiramente aterrorizante para nós três.

Meu pai saiu para o quintal e confirmou nossas suspeitas, haviam... diversas pegadas na neve.

Vi o rosto do meu pai empalidecer, como quando ele viu aquelas fitas.

Ele ficou tão estranho depois desse dia.

Na verdade, ele nunca mais foi o mesmo.

Ele nem me quis morando com ele mais, como se eu fosse a causa daquele intruso invadir nosso quintal.

Ou... como se ele quisesse me proteger.

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