Moldura amarela capítulo 1

No jardim de infância eu conheci meus melhores amigos: Antony Peletier e Olívia Samuels. E eu não consigo me lembrar da minha vida antes deles.

Nós nos demos bem imediatamente, mesmo tão novos, nossas personalidades já se completavam.

Eu sempre fui o mais calado, introvertido e observador. Antony, o palhaço do grupo, sempre levantava nossos ânimos em momentos difíceis. Ele também costumava ser o mais impulsivo, não medindo esforços para defender alguém importante. Acima de todas as suas qualidades, a lealdade se destacava. Já Olívia era a mais sensata entre nós, ela sempre colocava ordem no nosso grupo e nos impedia de tomar atitudes das quais nos arrependeríamos depois.

É impossível falar sobre tudo o que aconteceu sem citá-los. E agora que eu parei para refletir sobre tudo amplamente, me lembrei de uma conversa que tive com Antony e Olívia quando estávamos no segundo ano do fundamental. Naquela época, nossa cidade passava por dias sombrios, com diversos desaparecimentos acontecendo. Nós, crianças, não entendíamos com precisão a gravidade daquela situação, então não estávamos alarmados.

Era uma manhã de primavera, nós estávamos na escola aproveitando o intervalo. Estávamos no parquinho, que estava vazio, já que poucas crianças tinham ido para a escola naquele dia. Antony estava em um dos balanços e eu no outro bem ao lado dele, enquanto Olívia estava sentada no topo do escorregador que ficava na frente dos balanços.

Estávamos quietos naquela manhã, talvez por causa do clima pesado que pairava sobre a cidade.

O som do vento balançando as folhas das árvores e o rangido das correntes dos balanços preenchiam o silêncio, parecia que até os pássaros estavam desconfortáveis para cantar naquele dia.

Fiquei encarando o céu azul, preso em meus pensamentos por longos segundos, até que Antony finalmente quebrou o silêncio.

- Não veio quase ninguém hoje, né? - ele falou com sua voz infantil.

- Deve ser por causa das crianças que sumiram. - Olívia respondeu.

Antony olhou para ela.

- Minha mamãe disse que foi o homem-oco que levou as crianças - ele falou.

Olhei curioso.

- Homem-oco? - questionei.

Antony se virou para mim.

- Sim. A mamãe me disse que o homem-oco está levando todas as crianças. Ela falou para eu ter cuidado e não me preocupar, pois logo o xerife Collins vai pegar ele! - ele explicou.

Olhei surpreso, a curiosidade começava a tomar conta de mim.

- Por que o xerife Collins não pegou esse homem mau ainda? - Olívia questionou com um olhar confuso.

- Porque ele se esconde muito bem, não sabem quem ele é ainda, mas sabem que ele existe e que está levando as crianças para a floresta.

Olívia arregalou os olhos.

- Mamãe me disse que ele é tão mau que, no lugar do seu coração, não existe nada, por isso ele se chama "homem-oco". - Antony concluiu.

- E se ele aparecer para mim? Como vou saber que é ele? E se ele me levar? - Olívia questionou, assustada.

- É muito simples - Antony disse como se fosse um sábio - é só você procurar o coração dele, se ele não tiver um, você corre para longe!

Olívia assentiu, com os olhos vidrados em Antony.

- Fica tranquila, Ol - falei - estamos protegidos, olha para o outro lado da rua. - apontei na direção do grande portão de grade da escola.

Olívia se virou, e seus olhos encontraram a viatura da polícia estacionada do outro lado da rua.

O xerife Collins estava escorado na porta da viatura, ele usava óculos escuros e olhava para a escola com um semblante calmo enquanto segurava um copo de café.

- Tenho certeza que o xerife Collins vai resolver tudo. Ele vai colocar o homem-oco para correr! - Antony disse, empolgado.

Eu ri sutilmente e Olívia pareceu mais tranquila.

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