Moldura amarela capítulo 2

Acho que, de alguma forma, sempre sentimos quando algo está errado. Seja através de uma intuição ou um sinal.

O sinal pode ser óbvio ou sutil mas, acreditar nele ou não pode ser o que vai determinar o seu destino.

Eu escolhi ignorar.

Não sei se dar atenção a aqueles detalhes poderia mudar grande coisa.

Mas sinto que ignorar deixou tudo pior.

Eu vou tentar organizar esses fatos. Ainda é difícil para mim pois algumas partes da minha memória estão realmente comprometidas.

Bom, ainda na época que eu estava no segundo ano do fundamental - logo depois do Antony contar sobre a lenda do homem-oco para ser mais exato - eu passei a me sentir frequentemente observado. Claro, poderiam ser apenas paranóias de uma criança que ouviu histórias de terror e de pessoas desaparecendo.

Mas deixou de ser paranóia quando eu comecei a ouvir batidas na janela do meu quarto quase toda noite.

O medo me salvou.

Imaginar o homem-oco do outro lado do vidro fez eu ficar paralisado debaixo dos cobertores.

E um dia aquilo parou.

A presença latente foi substituída por um carro vermelho que eu passei a ver em todos os lugares possíveis.

Eu nunca consegui ver o motorista.

Mas o carro sempre estava lá. Sua lata carmesim brilhando contra a luz do sol, perto da minha casa, da escola, da padaria, da minha lanchonete preferida, do parquinho e de todo lugar que eu pudesse ir.

Claro que naquela época eu não vi maldade nisso. Para mim, era só um carro vermelho de modelo raro que eu coincidentemente via em todo lugar.

Então eu não conectei o carro às batidas na janela do meu quarto.

Agora que eu sei da verdade, sei que tinha tudo haver.

E é por isso que no início desse relato eu falei sobre como a forma que escolhemos interpretar os sinais são importantes.

Bom, de qualquer modo, eu era só uma criança.

E esses detalhes poderiam passar despercebidos até mesmo para um adulto.

Só que um dia, isso mudou, as coisas chegaram à um novo patamar...

Eu tinha um urso chamado Teddy.

Ele era marrom, possuía um detalhe ciano em suas patinhas e um laço da mesma cor no pescoço.

Eu andava com ele para todo lado, mas, um dia perdi ele depois de passear no parque com meu pai.

Aquilo me deixou devastado.

Meu pai prometeu que compraríamos um novo urso assim que possível e eu só concordei.

Mas não foi preciso.

Por que no dia seguinte o urso surgiu na porta da minha casa.

Ele estava lá.

Sentado bem na frente da porta.

Eu lembro como fiquei feliz, agarrei o urso e corri até meu pai.

Ele ficou receoso pois não fazia sentido a pelúcia aparecer ali daquela forma.

Mas depois ele imaginou que alguém tivesse me visto com o urso, encontrando ele perdido no parque e procurado meu endereço para deixá-lo lá, nossa cidade é pequena então aquilo era totalmente plausível.

Meu pai só não entendeu o porque da pessoa não ter aparecido, só deixado o urso lá.

Mas eu supus que era uma pessoa tímida.

Então nós esquecemos o assunto e eu apenas comemorei o retorno do meu querido Teddy voltando a carregar ele para todo canto.

Mas um dia...

Eu encontrei outra coisa repousando na porta da minha casa.

Era uma pequena caixa.

Havia uma fita dentro dela e eu não hesitei em pedir meu pai para colocá-la para rodar no VCR.

Quando a primeira imagem surgiu na tela eu pude ver o rosto do meu pai ficando branco.

Senti meu pequeno coração se acelerando e arregalei os olhos.

Era...

Eu.

Eu estava em todos os takes.

Em alguns eu olhava diretamente para a câmera.

Em outros era só uma imagem panorâmica do meu quarto ou dos lugares que eu fui.

E algumas vezes eu estava dormindo.

- O que é isso... papai? - perguntei com a voz meio trêmula.

- N-não é nada filho...! Não se preocupe. - ele disse avançando para tirar a fita do VCR.

Depois desse dia eu nunca mais vi o Teddy.

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