Moldura amarela capítulo 4

Meu pai mandou que eu fosse morar com minha mãe em Saint Charles. Na época, eu não entendi o porquê de ele tomar uma medida tão drástica e bati o pé dizendo que não iria, mas não adiantou nada, e eu tive que ir.

Aquele foi um momento realmente sombrio para mim, já que eu me senti completamente abandonado pelo meu pai e tive que ir viver com a minha mãe, que nunca fez muita questão de mim e não era nem um pouco amorosa. 

Mas acho que o que mais me machucou foi o fim da minha amizade com Antony e Olívia. 

Eu não tive a chance de avisá-los sobre a minha mudança, então eles devem ter achado que eu sumi em um dia qualquer sem me importar com eles. 

Eu entendo se eles tiverem pensado dessa forma, pois realmente pareceu isso. 

Mas a verdade é que eu nunca deixei de pensar neles e lamentei todos os dias a perda de contato e o fim da nossa amizade. 

Minha vida em Saint Charles foi tão tranquila que me deixou em solidão profunda. 

Minha mãe nunca estava em casa e, quando estava, não dava a mínima para mim. Eu não consegui fazer amigos, pois não me encaixei em nenhum grupo; as pessoas eram muito diferentes de Antony e Olívia. E a cidade era pacata demais para eu buscar qualquer diversão individual. 

Eu passei dois anos vivendo assim. 

Até que a notícia veio. 

Aquela notícia veio para terminar de me destruir, para me jogar mais para baixo e para me forçar a voltar para Plainview. 

O meu pai tinha sido assassinado. 

Quando eu soube, senti como se uma flecha tivesse atravessado o meu peito. 

Mas tudo o que eu pude fazer foi segurar o choro e arrumar uma pequena mala para viajar para Plainview. 

Minha mãe finalmente demonstrou alguma compaixão e se ofereceu para viajar comigo. Eu aceitei, e nós embarcamos. 

Nossa chegada em Plainview foi tranquila. Nós chegamos ao amanhecer e fomos para um hotel. Lá, guardamos nossas coisas - que não eram muitas, pois ficaríamos só até o dia seguinte - e nos arrumamos para o funeral. 

Eu mal me lembro desses momentos. Eu estava tão abalado que parecia anestesiado, fazendo tudo no modo automático. 

Durante nosso trajeto até a igreja, olhares curiosos dos moradores da pequena cidade nos circundavam. Alguns, com uma inconveniência descabida, ousavam fazer perguntas. 

E eu ignorava todas. 

O meu pai, conhecido por ser um bom homem, tinha sido assassinado de forma brutal e misteriosa, deixando a cidade em choque, mas isso não dava um passe livre para perguntas ridículas que tratavam a morte dele como um simples caso curioso a ser comentado pela cidade toda. 

Quando nós finalmente chegamos à igreja, eu respirei fundo e caminhei com cuidado, um passo de cada vez, como se o chão fosse desaparecer abaixo de meus pés. 

Quanto mais eu me aproximava do caixão, mais as lágrimas ardiam em meus olhos, mais meu coração disparava, mais o mundo ao redor se tornava uma visão turva e aquela cena horrível ganhava ênfase ao meu olhar. 

Antes, eu conseguia me enganar dizendo que aquilo não era real, dizendo para mim mesmo que meu pai estava vivo em algum lugar, mas, naquele momento, minha ficha caiu de vez. 

Eu desabei. Minha mão deslizou sobre a madeira fria da tampa fechada do caixão, como uma sentença cruel. Meus gritos atraíram olhares de pena e solidariedade. 

Minha mãe surgiu e me ajudou a levantar. 

Eu estava aos prantos. 

- Eu sinto muito. - ela falou, suave, algo raro. 

O gosto salgado das lágrimas invadia minha boca, e meu corpo parecia tão pesado que eu mal conseguia parar de pé sozinho. 

Minha mãe colocou seu braço em volta da minha cintura e começou a me tirar do salão principal. Eu apenas aceitei, olhando sutilmente para aqueles que ficavam com pena de mim, enquanto as lágrimas silenciosas faziam sua trilha pelas minhas bochechas. 

Entramos em uma sala na lateral do salão. Lá, minha mãe me serviu um copo de água. Eu bebi, sentindo o forte sabor de cloro, enquanto minha mãe ajeitava meu terno preto e dizia coisas na tentativa de me reconfortar. 

- Você não precisa ficar aqui se quiser... acho que ele iria entender. - ela falou, desviando seus olhos fundos dos meus. 

Larguei o copo de plástico sobre o bebedouro e suspirei. 

- Eu vou tentar... vou tentar ficar até o fim da cerimônia... eu preciso me despedir. - falei com a voz embargada. 

Minha mãe assentiu e nós voltamos para o salão principal. 

Eu passei a cerimônia toda sentindo aquele forte aperto no peito cada vez que meus olhos alternavam entre a foto sorridente do meu pai e seu caixão selado. 

E, quando aquilo finalmente acabou, eu respirei fundo e decidi caminhar pela cidade. Minha mãe entendeu, e nós seguimos caminhos opostos - ela foi para o hotel e eu em direção ao bairro onde costumava morar. 

O céu estava salpicado por tonalidades alaranjadas que mostravam as nuances do entardecer. 

Eu seguia com passos erráticos pelas calçadas do subúrbio, meus olhos inchados, sensíveis a qualquer fonte de luz, meu terno amassado e grande demais para o meu corpo, trazendo para o exterior a bagunça do meu interior. 

Entre uma lágrima e outra. Um pensamento e outro. Um passo vacilante e outro... eu finalmente me vi parado na calçada oposta, diante do lugar onde construí a minha infância. 

Minha casa estava lá, emoldurada pelo céu laranja atrás dela. 

Eu fiquei lá por longos minutos olhando, lembrando, chorando e sentindo a brisa gélida arrepiando minha nuca. 

Todas as melhores lembranças ainda estavam lapidadas lá... meu pai... Olívia... Antony... 

Tudo estava normal... tudo... se não fosse aquela maldita fita amarela cruzando a entrada. 

Indicando que algo horrível e irreparável tinha acontecido lá. 

Nada seria como antes. E saber isso deixou um gosto amargo na minha boca. 

De repente, aquilo me puxou para fora de meus devaneios... 

Aquele som horrível ecoou, trazendo de volta os horrores da minha infância. 

Meu coração disparou, meus dedos formigaram, e o ar faltou em meus pulmões. 

Era aquele som de um carro com motor estragado. 

Aquele som que soava mil vezes mais perturbador, principalmente quando eu vi um maldito carro vermelho surgindo no horizonte. 

Meu corpo misturou o choque com uma adrenalina sem sentido, e um medo quase primitivo e inexplicável se apossou de mim. 

Então eu me vi correndo pelas ruas de Plainview em completo desespero, sem me importar em olhar ao redor ou definir um destino. 

Era só um carro vermelho. 

Um carro vermelho que nem estava atrás de mim. 

Eu só parei de correr quando senti meu corpo colidindo com algo - ou melhor dizendo - com alguém. 

Nós dois caímos sentados sobre a calçada por causa do impacto. 

Fechei meus olhos com força, sentindo minha cabeça latejando. 

Meu coração estava tão acelerado - ainda usando as últimas doses de adrenalina - que parecia querer explodir. 

- M-Mike? - uma voz fraca, mas surpresa, falou. 

Abri meus olhos com dificuldade. Aquela voz era familiar, e a silhueta de seu dono tomava forma aos poucos. 

Então eu finalmente pude ver... 

- A-Antony? - eu falei com minha voz tão impotente que mais parecia um ruído estranho. 

Finalmente consegui ajustar minha visão o suficiente para reparar em Antony. 

Ele estava com o cenho franzido em uma expressão de completa surpresa. 

E ele estava muito diferente. 

Seus cabelos negros estavam bagunçados, seu corpo magro e sua expressão, que antes costumava irradiar alegria, agora era triste. Ele estava abatido, com olhos fundos e olheiras que delatavam seu cansaço. 

Antony ergueu sua mão, sem mudar seu semblante apático. 

Eu agarrei sua mão e me coloquei de pé. 

Ele desviou o olhar e suspirou. 

- Fiquei sabendo do seu pai... eu sinto muito. - falou. 

Fiquei em silêncio por alguns segundos, sem saber o que dizer, mas Antony não foi embora. 

- Eu... eu sinto muito por ter ido embora sem falar com vocês. - falei. 

Antony voltou seu olhar cansado para mim. 

- Não importa de qualquer forma... já fazem dois anos - ele falou em um tom quase amargo e fez uma pequena pausa - e talvez tenha sido melhor assim... essa cidade virou um inferno. - ele concluiu. 

Antony mal conseguia manter contato visual. 

E as palavras demoravam tanto para sair de meus lábios, como se ficassem presas na ponta da minha língua. 

- O que está acontecendo aqui? - perguntei. 

Antony respirou fundo e olhou para o chão. 

- Diversos sequestros - ele ergueu a cabeça - até Amber Collins foi levada dessa vez. - sua voz falhou, e ele riu sem humor. 

- Eu nem deveria estar falando dela... - os olhos dele nadaram em lágrimas - a Olívia não iria gostar disso. - ele concluiu, derrotado, parecia sentir vergonha de si mesmo. 

- A Olívia... cadê ela? - questionei, preocupado. 

Antony pressionou seus dedos contra os olhos, como se segurasse para não chorar. Algo estava errado. 

- A-Antony... cadê a Olívia?! - questionei com mais urgência. 

Ele tirou a mão que cobria seus olhos e a levou até o bolso, onde pegou algo. 

Era um papel. 

Ele desdobrou o papel com lágrimas nos olhos e o ergueu diante dos meus olhos. 

Lá estava uma foto de Olívia sorridente, com seus cabelos castanhos ondulados caindo sobre seus ombros, no topo, a palavra "desaparecida" em destaque. 

Senti meu coração se partindo em mil pedaços. 

Fiquei sem reação. 

Antony puxou o papel de volta e o enfiou no bolso de sua calça jeans. 

Sua respiração ficou irregular. 

- A Amber chamou ela para conversar... - ele voltou a falar. 

Olhei surpreso. 

- Eu falei para ela não ir... Deus... eu falei... - ele disse, colocando a mão na cabeça. 

- Mas ela foi. E depois... eu nunca mais vi ela! 

Antony respirou fundo, tentando se recompor. 

- Eu... eu pensei que Amber tivesse algo a ver, mas... ela desapareceu também! 

Ele deslizou seus dedos entre os fios negros de seus cabelos enquanto lágrimas corriam pelas suas bochechas. 

- E-eu não deveria ter deixado ela ir sozinha! Eu deveria ter protegido ela! - ele lamentou, dando um passo para o lado e se virando para olhar para a rua deserta. 

- A polícia não faz nada! Nem depois que Amber Collins sumiu! Eles não fazem absolutamente nada! E o FBI continua com essa palhaçada de não se envolver, deixando tudo nas mãos desses policiais incompetentes! - Antony desabou, ele falava tão rápido que atropelava algumas palavras. 

Eu continuei paralisado. 

- Eu procuro ela todo santo dia... todo santo dia - ele enfatizou - e digo para os pais dela que tudo vai ficar bem, mas eu vejo nos olhos deles que eles não acreditam em mim. - ele falou entre lágrimas. 

- A-Antony, eu... eu quero ajudar a encontrar ela! - falei. 

Antony se virou para mim com uma expressão sombria. 

- É? E como você pretende fazer isso, Mike? Você vai sair de Saint Charles todos os dias como se estivesse fazendo uma simples viagem para passear com amigos e tomar sorvete de baunilha? - sua voz subiu uma oitava. 

Abaixei minha cabeça. 

Ele ficou em silêncio por um tempo, tentando se acalmar. 

- Ela sentiu sua falta, Mike. Ela sentiu sua falta todos os dias. Lembro dela falando de você até o último dia que a vi. 

Ele respirou fundo. 

- Você tem noção disso, Mike? Você tem ao menos a noção do quanto foi egoísta? Você foi viver sua vidinha feliz em outra cidade enquanto nós lidávamos com toda essa merda! - Antony gritou. 

E aquilo me feriu. Me feriu de uma forma bem mais profunda. 

- Vidinha feliz, Antony? Minha mãe é uma viciada que mal se importa comigo, e meu pai foi assassinado! - gritei de volta. 

Antony esfregou os olhos e se virou para o lado. 

- Você fala como se eu tivesse escolhido ir embora! 

- Você poderia ter nos avisado pelo menos! - ele rebateu. 

- Eu não consegui, Antony. E quer saber? Não teve um dia sequer que eu não pensei em vocês! Não dá para voltar no tempo, mas agora tudo o que eu te peço é que me dê uma chance para te ajudar a procurar ela! - falei com a voz embargada. 

- A Olívia também é importante para mim. - completei. 

O silêncio pairou no ar por alguns segundos. 

- Por favor... Antony. 

Ele suspirou. 

- Tá. Me encontra aqui amanhã às sete da manhã. - ele falou secamente. 

Em seguida, ele passou por mim e foi embora. 

Eu fiquei lá, congelado, até Antony sumir no horizonte. 

Já estava quase anoitecendo, então eu decidi voltar para o hotel. 

Eu passei todo o caminho de volta imerso em pensamentos e embalado pela angústia de saber que havia perdido duas coisas em um mesmo período: meu pai e Olívia - talvez eu devesse considerar três, já que Antony parecia me odiar. 

Finalmente cheguei ao hall do hotel, atravessei os corredores velhos e localizei meu quarto. 

Antes de abrir a porta, tomei ciência da notícia que teria que dar para minha mãe - eu não voltaria para Saint Charles com ela. 

Girei a maçaneta e entrei no quarto, que estava cheio de fumaça. Minha mãe estava sentada em uma poltrona, fumando um cigarro. 

Ela olhou para mim e desviou o olhar rapidamente. 

Fechei a porta e caminhei até a cama, me sentei e olhei para minha mãe, sem saber o que dizer. 

Ela voltou seu olhar para mim com uma expressão confusa, como se soubesse que eu queria dizer algo. 

- Mãe... - finalmente comecei a falar - eu... eu não vou voltar para Saint Charles com você amanhã! 

Ela arregalou os olhos e engasgou com a fumaça. 

- O quê? Por que, Mike? 

Suspirei. 

- Sabe a Olívia? - fiz uma pausa - aquela minha amiga de infância. 

Minha mãe continuou com o cenho franzido, então eu prossegui: 

- Ela foi... sequestrada. E eu quero ajudar nas buscas. 

Assim que concluí a frase, vi o rosto de minha mãe ficar pálido e sombrio. Ela se levantou abruptamente e parou bem na frente da porta. 

- Não! Você não vai ficar! - ela gritou de uma forma que parecia exagerada demais para a situação. 

Olhei surpreso. 

- Eu não vou deixar a Olívia! - protestei. 

- Eu já falei, você não vai ficar, Mike! - ela retrucou. 

- Eu não posso simplesmente voltar para Saint Charles como se nada tivesse acontecido! - falei me levantando para ficar diante dela. 

Ela suspirou, indignada. Seus olhos estavam úmidos. 

- Você não entende! Está tudo interligado! - ela gritou, se virando para o lado, com a mão que segurava o cigarro apoiada em sua cabeça. 

Franzi o cenho e engoli seco, sentindo a fumaça impregnada em minha garganta. 

- O que está interligado? - perguntei com a voz fraca. 

- Tudo, Mike! Tudo! A morte do seu pai... o desaparecimento da sua amiga! É tudo um plano para te trazer de volta a esta cidade maldita, e você está caindo direitinho! - ela falou tão rápido que algumas palavras saíram entrecortadas. 

Olhei incrédulo. 

Os olhos verdes dela nadavam em lágrimas. 

- Você tem noção do quanto eu amava seu pai? E do quanto me dói ver que ele fez tudo para te proteger e agora você vai jogar todo o esforço dele fora! 

- L-Lydia... - murmurei - do que ele estava me protegendo? Quem me atraiu de volta para Plainview? - questionei com a voz trêmula. 

Ela hesitou por um instante. 

- Só... só esquece isso e volta comigo amanhã. - ela respirou fundo, passando a mão em seus cabelos ruivos - você não pode lutar contra isso, Mike. 

Neguei com a cabeça. 

- Não. Eu não vou voltar. Eu não vou desistir! 

- Tá! Quer saber? Eu vou te contar tudo. Quem sabe assim você não desiste desse plano estúpido?! 

Ela suspirou e se sentou na poltrona. 

- Sabe quando a cidade foi assombrada por desaparecimentos anos atrás? Você estava na segunda série e costumava achar que o causador de todo aquele caos era um ser sobrenatural chamado "homem-oco" - ela disse, acendendo outro cigarro - seu pai me contou tudo. - completou, me olhando com olhos vazios. 

- Aquilo, Mike... aquilo não era obra de um ser sobrenatural - ela fez uma pausa - era uma pessoa real, um maníaco. 

Engoli seco. 

- E ele sempre quis você. 

Senti meu coração bater mais rápido. 

- Os sinais estavam lá. Seu pai me contou isso também, mas nós não levamos a sério. - ela assumiu, com os olhos levemente marejados. 

Ela ficou em silêncio por alguns segundos. 

- Um dia, você pediu para sair para brincar. Seu pai não deixou, pois, com aquela onda de sequestros, era muito perigoso - ela respirou fundo - mas você fugiu. 

Senti um aperto no peito. 

- Você sumiu por horas, Mike - a voz dela falhou - você sumiu por horas, e seu pai ficou desesperado. Ele te procurou, procurou, procurou e... nada! 

Ela secou os olhos úmidos e largou o cigarro no cinzeiro. 

- Então... horas depois, você apareceu... 

Olhei para ela, aflito, esperando por suas novas palavras. 

- Você estava... em estado de choque. Suas roupas estavam rasgadas e sujas, e seus cabelos completamente bagunçados. 

- Você contou coisas horríveis, Mike. Coisas absolutamente horríveis. 

Senti minhas pernas vacilarem e caí sentado na cama. 

- Depois de contar tudo... você apagou e, quando acordou, não se lembrava de nada. O trauma foi tão grande que você deletou tudo aquilo da sua mente. 

- Mas seu pai não deixou passar. Ele sabia exatamente quem tinha te causado tudo aquilo e foi atrás... mas era uma pessoa muito poderosa, e tudo o que seu pai conseguiu foi um acordo: ele não entregaria esse criminoso e, em troca, ele te deixaria em paz. 

- Mas esse maldito já estava obcecado por você... e voltou, voltou naquela noite em que você estava sozinho com seus amigos. 

- Quando seu pai percebeu, ele te enviou para Saint Charles para te proteger. 

Ela suspirou. 

- E agora todas essas coisas horríveis estão sendo causadas para te atrair de volta, e você está caindo! 

- Meu Deus - murmurei, incrédulo - você está dizendo que vocês passaram pano para o meu abusador? É isso? 

Ela abaixou a cabeça. 

- Você quer que eu fique calado diante disso? Que eu deixe a Olívia nas garras desse monstro?! - gritei, com as lágrimas ardendo em meus olhos. 

- Você não pode vencer isso Mike, ele é poderoso - ela fez uma pausa - e nós fizemos tudo isso para te proteger! 

- Me proteger? - gritei, me levantando - eu confiei em vocês, e vocês estavam acobertando um criminoso todo esse tempo?! 

As lágrimas começaram a cair de meus olhos. 

- Mike... - ela murmurou. 

De repente, uma forte dor de cabeça me atingiu, fazendo eu cair no chão de joelhos. 

- Mike! - minha mãe gritou. 

Mas sua voz parecia estar debaixo d'água. 

E um forte zumbido tomou conta dos meus ouvidos. 

Então... 

As memórias surgiram. 

Tão vívidas... 

Tão amargamente horríveis! 

Lá estava a floresta, o campo verde, o céu azul, o cheiro de orvalho no ar... 

E aquela maldita casa amarela com cortinas de pompons coloridos. 

Eu caminhava até lá, mas dessa vez, diferente das outras, eu entrava. 

E eu sabia que não era um sonho. 

Era uma memória. 

Era real. 

Os abusos. Aquela figura desfocada, sem rosto e sem coração. 

Era tudo real. 

Até o momento em que eu fugia desamparado, tropeçando pelo campo, e, de alguma forma, encontrava o caminho de volta para casa. Até isso era real. 

Gritei de terror enquanto as cenas surgiam e minha cabeça latejava. 

- Mike! - a voz de minha mãe ecoava, parecia distante, mas eu podia senti-la perto de mim, dando batidas leves em meu rosto. 

Finalmente abri meus olhos. Meu peito subia e descia rapidamente. Eu puxava o ar para meus pulmões como se fosse minha primeira vez fazendo isso. 

- Mike! - a silhueta de minha mãe começou a tomar forma. 

E eu finalmente vi seus olhos esmeralda arregalados. 

Desabei em lágrimas. 

Minha mãe me envolveu em seus braços e tentou me acalmar, mas eu não demorei para afastá-la. 

- Q-quem... quem é ele? - perguntei com a voz fraca, mas carregada do mais puro ódio. 

Minha mãe apenas desviou o olhar, e eu entendi... 

Entendi que ela era quase uma cúmplice. 

Balancei a cabeça em negação, olhei para ela com desprezo e me levantei. 

- Mike! - ela gritou uma última vez. 

Eu ignorei, caminhei até a porta... 

E saí.

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