O príncipe de cera
França, 1960.
Como seria a sensação... de ter asas?
E poder voar para longe...
Entre vagalumes ou estrelas...
Como uma desbravadora de novas constelações...?
Esses eram só alguns questionamentos que atravessavam a mente de Anouk naquela noite.
O quarto estava silencioso e frio. Iluminado fracamente pela luz pálida da lua e pela vela no criado mudo, com sua chama tremeluzindo com o vento.
Anouk deveria estar em sua cama à muito tempo, entregue ao mundo dos sonhos. Mas, mesmo com seu corpo arrepiado, ela não deixava a janela.
Seu olhar estava preso ao céu azul marinho.
E embora parecesse tranquila, o incômodo só crescia em seu interior.
Era um sentimento esmagador. Uma solidão tão profunda que era indescritível.
Por um segundo, ela desejou que pudesse apenas fechar seus olhos e voar céu acima, vendo o mundo se tornar cada vez menor e mais insignificante.
Mas aquilo era só um sonho inalcançável.
Então, ela finalmente suspirou e secou seus olhos. Em seguida, puxou a fina cortina branca sobre a janela e se virou para a cama.
Antes de se deitar, ela se abaixou diante das chamas tremulantes da vela e soprou, a chama resistiu por um instante, mas logo se apagou, mergulhando o quarto na escuridão profunda.
Anouk se perdeu entre os lençois brancos de sua cama e selou suas pálpebras deixando que sua mente se desligasse.
Então, ela finalmente adormeceu.
No dia seguinte, Anouk se levantou de sua cama e se apressou para tomar café com seus pais.
Ao descer as escadas, ela os encontrou, os dois estavam sentados à mesa saboreando fatias de pão e frutas.
- Anouk. - Bernard cumprimentou ao notar a presença de sua filha.
Ele fez um gesto para que ela se aproximasse e a garota obedeceu, se sentando de frente para seus pais.
Anouk olhou para a mesa repleta de alimentos, depois para o lustre brilhante que balançava sobre suas cabeças, depois para a empregada que estava parada no canto do cômodo com seu olhar fixo em nada em particular, por fim olhou para seu pai e para sua mãe que estava séria, mantendo uma postura elegante enquanto limpava a boca com um guardanapo.
- Anouk. - Katherine começou a falar. - Hoje será um dia muito importante. - Ela concluiu séria.
Já Anouk, preferiu evitar contato visual e para disfarçar começou a se servir com uma xícara de chá.
Katherine percebeu o desinteresse da filha, mas apenas olhou para a mesma com seu olhar frio e voltou a falar:
- Frederic virá jantar conosco essa noite.
Anouk levantou o olhar.
- Imagino que você saiba o quanto isso é importante. - A mulher completou olhando nos olhos da filha.
Anouk desviou o olhar outra vez.
- Claro. - Respondeu secamente.
- Ótimo. Quero que, depois do café, você vá até o centro da cidade para comprar um belo vestido.
- Eu irei. - A garota respondeu tomando um gole na xícara.
Katherine sorriu sem mostrar os dentes, um sorriso tão falso que parecia lhe custar muito, como se aquilo pudesse fazê-la quebrar como porcelana.
- Que bom que você sabe da importância desse casamento para nossa família. - Bernard falou.
O silêncio pairou no ar.
- Frederic é um bom homem, minha filha. - Ele completou.
- Sim. Ele é. - Anouk respondeu colocando a xícara de volta na mesa.
Em seguida, a garota se levantou e seguiu seu caminho para fora da sala, com os olhares de seus pais a acompanhando.
Em poucos minutos, ela já estava caminhando pelas ruas de pedra do centro da cidade.
Olhava ao redor, apreciando cada detalhe.
Os monumentos.
O tom azul do céu.
As pessoas que lhe pareciam tão estranhas.
O cheiro de rosas brancas no ar.
Até que no meio de tantas coisas, algo lhe chamou mais atenção...
Á alguns metros, posicionado de forma imponente, bem no centro da praça principal, estava... uma estátua.
Anouk nunca tinha visto uma estátua ali e aquilo era estranho pois para isso acontecer, teria algum motivo, teria alguma cerimônia, e ela certamente saberia.
Ela franziu o cenho.
Foi atingida por um estranho sentimento.
E começou a caminhar lentamente enquanto as pessoas ocultavam parcialmente a estátua à medida que passavam em frente a ela.
Então, ela finalmente chegou perto o suficiente para reparar cada detalhe da figura.
E ela não teve pressa.
Era esculpido em cera, algo que causou estranhamento, já que não fazia sentido uma escultura de cera ser colocada na praça.
Mas a garota ignorou e continuou a olhar.
Era um príncipe.
Um belo príncipe. Que a deixou encantada.
Ela não o conhecia de lugar algum.
Mas aquele estranho sentimento ainda existia dentro dela.
Anouk deu três voltas ao redor do príncipe, com os olhos carregados de admiração.
Ele tinha um rosto tão sereno.
Usava uma roupa tão nobre.
Parecia tão confiante.
Até que Anouk fez algo que não era comum, mas parecia simplesmente... certo.
Ela se ajoelhou diante da escultura, lentamente, cuidando para que seus joelhos não se ferissem nos pedregulhos do chão, e, depois, juntou suas mãos.
Olhou para cima, encontrando o rosto sereno do príncipe banhado por raios dourados.
- Me salve.
- Por... favor... - Ela fechou os olhos e abaixou a cabeça. - Me salve.
- Anouk?!
A garota ergueu sua cabeça como alguém que volta a si depois de ter sua mente focada em memórias distantes. E encontrou o rosto carrancudo de sua mãe do outro lado da mesa.
- Onde você está com a cabeça? Não vê que Frederic está falando com você?
- Me desculpa... mãe.
- Você deve se desculpar com Frederic, não comigo.
As palavras morreram nos lábios de Anouk assim que Frederic - sentindo-se como um santo imponente e apartador de discussões - estufou o peito e falou:
- Não há necessidade.
- Minha noiva não precisa se desculpar. - Completou limpando seu bigode fino com um guardanapo.
- Oh, Frederic! Você como sempre muito cortês.
Frederic apenas lançou um olhar convencido se recostando novamente na cadeira.
- Bem, vamos voltar a falar sobre... negócios. - Bernard sugeriu.
Frederic apenas assentiu, sem nem olhar para o homem.
- Nossas riquezas estão em decadência agora, mas sei que isso mudará graças a esse casamento. E por isso somos muito gratos a você Frederic. - Bernard falou, saudando com sua taça de vinho.
- Será um prazer ajudar sua família nesse momento de crise, e claro... - Ele desviou seu olhar para Anouk. - Prazer ainda maior será me casar com uma moça tão bonita como Anouk.
Anouk sentiu seu estômago se revirando diante do olhar malicioso de seu noivo indesejado.
O homem não lhe passava nenhuma convicção. Já beirava os 35 anos. Usava seu cabelo louro lambido e grudado na testa. Vestia ternos caros, mas tão obsoletos que o tornavam meramente estúpido.
A garota não sabia dizer quem era mais cínico: se eram seus pais - dispostos a entregar a própria filha em troca de riquezas incertas - ou se era Frederic - claramente cego de luxúria.
- Poderia me passar o vinho... Anouk? - A voz áspera do homem tirou Anouk de seus devaneios.
- Claro. - Ela respondeu forçando um sorriso.
Anouk alcançou a garrafa e levantou seu olhar para Frederic, que já estava com o braço estendido e com um sorriso ladino no rosto.
A garota parou por um segundo, contemplando seu desgosto enquanto olhava para o homem.
Então, ela finalmente levou a garrafa até a mão dele, porém, inclinou a mesma sutilmente, derrubando parte do líquido rubi. Assim que o vinho tocou a pele do homem, ele puxou a mão para si, como se aquilo queimasse, e olhou atônito.
Anouk, por outro lado, deixou transparecer um sorriso sutil, enquanto o fuzilava com o olhar, deixando claro que aquilo foi proposital.
- Anouk! - Katherine gritou.
A garota largou a garrafa sobre a poça de vinho que escorria pela mesa destruindo o jantar.
- Me desculpa mãe... é que eu estou muito cansada.
Bernard balançou a cabeça em negação, Katherine respirou fundo e Frederic continuou a secar sua mão.
- Posso ir para o meu quarto? - Anouk perguntou.
- Mas...
- Tudo bem Katherine. - Frederic interrompeu. - A Anouk está cansada. - Concluiu lançando seu olhar para a garota.
Anouk se levantou satisfeita. Caminhou até a escada e subiu os degraus até o segundo andar, que estava banhado pela escuridão.
Ela finalmente alcançou seu quarto. Uma vez lá dentro, fechou a porta atrás de si e soltou um longo suspiro, agraciada por finalmente ter um momento sozinha.
Mas não demorou muito para ela notar que tinha companhia.
Sentado no parapeito da janela, estava um gato. Seus olhos âmbar refletiam o brilho anêmico da lua. Sua boca estava levemente inclinada para cima - como se o animal sorrisse. E seu pêlo combinava perfeitamente com a cortina branca que dançava com a brisa da noite.
Mas aquilo não era nem de longe o mais estranho.
A pelagem branca do gato estava coberta por um líquido vermelho vivo - que se assemelhava muito a sangue fresco - e havia também um laço da mesma cor preso ao seu pescoço segurando um envelope branco.
Mesmo consumida pelo estranhamento daquela visita singular, Anouk não pôde ignorar seu mensageiro.
Desse modo, a garota caminhou cautelosamente, como se qualquer movimento brusco pudesse espantar a pequena criatura.
Quando ela o alcançou, puxou o papel delicadamente.
Por um momento, parecia que o gato iria fazer algum tipo de reverência, mas ele apenas pulou e sumiu entre os telhados das casas vizinhas.
Sem aguentar mais de tanta curiosidade, Anouk desembrulhou o papel, cheia de dedos.
E a mensagem que viu a fez congelar por um instante.
Você não se lembra o que fez ontem antes de se deitar, Anouk?
Antes que a garota pudesse sequer pensar sobre aquilo, sentiu algo líquido e... quente, abaixo de seus pés.
Ao olhar para o chão, arregalou seus olhos e largou o papel.
O assoalho estava coberto por um líquido vermelho coagulado.
E o cheiro metálico flutuava no ar.
Anouk pulou para trás de súbito e caiu sentada.
Ao abrir os olhos novamente, notou que não havia nada ali. O chão estava tão limpo quanto sempre foi.
Na manhã seguinte, Anouk acompanhou sua mãe até a igreja, honrando a tradição de ir à missa aos domingos.
Katherine mantinha seu semblante sério e movia-se com delicadeza. Tamanha era a elegância da mulher que atraía olhares por onde passava.
Já Anouk preferia não chamar tanta atenção. Andava de cabeça erguida mas não olhava para ninguém, e tinha um olhar tão vazio que parecia que sua mãe roubara sua energia.
Durante a celebração, os fiéis ajoelharam-se em sinal de adoração.
Anouk foi a única a permanecer de pé, atraindo o olhar de desaprovação de sua mãe.
- Ajoelhe-se, Anouk.
Anouk continuou de pé.
- Ajoelhe-se! - Katherine sussurrou entre dentes.
A garota finalmente cedeu, abaixou-se e se ajoelhou sobre o genuflexório.
Seus olhos estavam fixos no altar, em cada imagem e ornamento dourado ali presente. Ela também entendia cada palavra dita pelo padre. Era tudo muito bonito, isto é, mas não lhe despertava nada além de angústia.
Gloire au Père.
Et au Files.
Et au Saint-Esprit.
Ao fim da cerimônia, Anouk se afastou de sua mãe enquanto os sinos da igreja ainda ecoavam pela cidade.
Ela foi para o bosque - seu lugar favorito - e lá encontrou uma clareira com grama levemente alta coberta de orvalho.
Anouk se deitou e olhou para o céu acinzentado por alguns minutos, como se seus olhos estivessem em comunhão com ele.
Ela fechou os olhos sentindo a brisa suave e se virou para o lado.
Quando tornou a abrir seus olhos não pôde fugir do espanto que lhe aguardava.
Um objeto metálico repousava no gramado, bem ao seu lado.
Anouk rapidamente se colocou sentada e fitou o objeto por breves segundos antes de apanhá-lo - talvez por um tipo estranho de instinto.
Era uma tesoura.
E a lâmina ainda estava coberta por um líquido vermelho profundo.
Ao notar isso, Anouk rapidamente largou o objeto e saiu correndo dali.
Em casa, a primeira coisa que viu foi sua mãe sentada na sala.
- Filha! Onde você estava?
Anouk soltou um suspiro enquanto fechava a porta e se virou para a mãe tentando parecer tranquila.
- Eu... eu só fui dar uma volta no bosque.
- Eu fico tão preocupada...
Anouk franziu o cenho, confusa.
- Você é tão jovem e parece sempre tão solitária... fica sempre olhando para o nada com um olhar vazio.
Katherine soltou um suspiro.
- Por que não encontra aquela sua amiga? - ela disse se levantando. - Evangeline era o nome dela, certo?
Anouk olhou para o chão. Ouvir o nome de Evangeline era como ser acertada com um espinho bem no coração.
- Nós... nós não somos mais amigas, mãe!
- Filha...
- Por favor, pare de se preocupar com isso. - Anouk disse, passando pela mãe.
- É que eu não entendo. Você tem uma vida tão boa. Uma família perfeita. E agora, um marido incrível.
Anouk parou por um instante e se virou lentamente.
- "Marido incrível"... "família perfeita". - Riu sem humor. - Evangeline se afastou de mim porque ela via o quanto você e o papai me sufocavam. Ela não queria ser envenenada. Vocês dois assustaram ela!
- Que disparate! Como você ousa dizer isso? Sempre fizemos tudo para te dar do bom e do melhor! - A mulher fez uma pausa, respirando fundo. - Evangeline deve ter se afastado por você ser assim... amarga e melancólica!
- Não é de se admirar com os pais que tenho.
Katherine avançou sobre a filha, apertando um de seus pulsos com força. Os olhos da mulher pareciam prestes a saltar das órbitas e veias brotavam em sua testa.
- O que há de errado com você? Você precisa ir à igreja se confessar o quanto antes!
Anouk puxou seu pulso de volta para si e correu até as escadas.
- Anouk!
Ela fechou a porta de seu quarto enquanto os gritos de sua mãe ainda ecoavam no andar debaixo, e caminhou lentamente até sua cama, enquanto sua respiração ainda seguia um ritmo irregular.
Antes que ela se deitasse, notou algo incomum que chamou sua atenção.
Outro bilhete em cima do criado mudo, acompanhado de um lírio branco.
Anouk pegou o lírio e girou o mesmo entre seu dedo indicador e polegar.
Seu rosto se contorceu de dor quando um espinho espetou seu polegar e ela largou a flor vendo uma pequena gota de sangue surgir no ferimento.
Então, seu olhar foi para o papel, ela finalmente o pegou e desembrulhou cautelosamente.
O seu tempo está acabando... Anouk.
- Anouk. Anouk. Abra seus olhos.
Ela despertou ao ouvir uma voz desconhecida sussurrando seu nome.
Ela abriu os olhos e ficou confusa ao perceber que estava deitada em sua cama. Tudo ao seu redor estava escuro.
Sentido-se um pouco zonza, ela se sentou e sentiu um aperto no peito quando sua visão começou a se ajustar e ela viu... árvores.
Anouk estava cercada por árvores, e agora, com mais atenção, podia ver as estrelas brilhando acima de sua cabeça. Podia ouvir o som dos grilos. E sentir a brisa gelada tocando sua pele.
Mas não eram só os grilos que ela ouvia, também havia... vozes.
Um coro de vozes ecoava de dentro da mata, se aproximando cada vez mais.
Os olhos de Anouk passearam pela linha das árvores, até que ela finalmente viu várias silhuetas fantasmagóricas com vestes brancas dentro do bosque.
Antes que se desse conta, estava de pé, sentindo a grama entre seus dedos.
Ela correu. Cheia de adrenalina. Enquanto seu vestido branco voava ao redor de seu corpo.
Mas não importava o quanto ela corresse.
Aquelas pessoas sempre estavam no seu encalço, com gaiolas e velas nas mãos.
Anouk já tinha corrido tanto que sentia como se seus pulmões fossem explodir. E suas pernas pareciam prestes a falhar.
Quase a ser vencida pelo cansaço, Anouk olhou para trás sem diminuir o ritmo, e quando se virou novamente, deu de cara com um cavalo negro empinado sobre as patas traseiras.
O animal relinchou, assustado com o encontro repentino.
Anouk, por sua vez, caiu sentada. Seu peito subindo e descendo rapidamente enquanto ela não sabia se deveria olhar para seus perseguidores ou para o homem que descia do cavalo negro.
Era impossível enxergar seu rosto por conta da escuridão, mas ela ainda pôde notar que seu corpo estava coberto por vestes pretas e também por uma capa com um capuz que cobria seus olhos parcialmente.
O homem se aproximou lentamente e parou diante de Anouk.
A garota se encolheu.
Não sentia medo, na verdade, se sentia segura com aquela presença. Mas achava que deveria sentir medo.
Então, eles foram banhados por uma luz alaranjada, e Anouk soube que os outros haviam chegado.
O homem diante dela continuava calmo. Ele permaneceu parado por alguns segundos até erguer as mãos sob a cabeça e retirar seu capuz, revelando seu rosto sob a luz quente.
Anouk sentiu seu coração dando cambalhotas.
Era o príncipe.... o príncipe de cera da praça, dessa vez, em carne e osso.
Ele levantou o olhar que antes estava em Anouk e mesmo não vendo, a garota pôde sentir aquelas pessoas recuando.
Em seguida, ele estendeu a mão e Anouk a pegou, se colocando de pé.
Ela olhou para as pessoas de branco que tinham semblantes sérios, quase apáticos, e depois, para o príncipe que irradiava confiança.
Sem dizer sequer uma palavra, ele se aproximou e Anouk soube exatamente o que deveria ser feito.
Como se o plano tivesse sido implantado em sua cabeça.
E tudo parecia certo.
Tudo parecia perfeitamente alinhado.
Em um só segundo, seus lábios estavam selados, enquanto suas línguas faziam uma dança voraz lapidando uma conexão desconhecida mas profunda.
Anouk ouviu um baque surdo atrás de si.
Ela largou os lábios do príncipe e se virou encontrando aquelas pessoas caídas no chão.
Seus rostos estavam contorcidos em expressões de mais pura dor. Lágrimas carmesim caíam de seus olhos brancos leitosos. O mesmo tom carmim de suas lágrimas, tingia suas túnicas.
As velas estavam apagadas e as gaiolas abertas.
Tudo parecia certo.
Tudo parecia perfeitamente alinhado.
Anouk voltou seu olhar para o príncipe, as pupilas dos olhos dele eram negras como a noite, enquanto sua pele era pálida como marfim e macia como seda.
Ele segurou o rosto de Anouk com as duas mãos deixando suas unhas longas e afiadas levemente afundadas na pele da garota.
E seus lábios se curvaram para cima como os de um gato travesso.
Anouk fechou os olhos e aproximou seu rosto do dele de modo que seus narizes se tocaram.
- Príncipe... Lucien.
Um sonho.
Claro. Aquilo só poderia ser um sonho.
Em um instante ela estava lá.
Em outro, estava deitada em sua cama olhando para o teto branco.
Com o olhar parado.
A mesma melancolia de sempre.
E a mesma falta de algo que ela nunca soube explicar, mas, dessa vez, acompanhada de algo maior.
Anouk fechou os olhos e permitiu que seus dedos deslizassem pelo próprio corpo, sob o lençol branco, até pararem entre suas pernas.
Ela ergueu a cabeça contra o travesseiro enquanto um suspiro escapava de seus lábios e uma onda de prazer tomava conta de seu corpo.
Quando ela estava prestes a atingir seu ápice, sentiu a incômoda sensação de estar sendo observada.
Seus olhos se abriram bruscamente e ela confirmou suas suspeitas ao encontrar Katherine perto da porta com um olhar de desaprovação.
Anouk rapidamente tentou se recompor.
Mas em um só instante, sua mãe avançou sobre ela e a arrastou escada abaixo.
- Pecadora!
- Se arrependa dos seus pecados! - Gritou enquanto forçava a filha a ficar de joelhos.
Anouk abaixou a cabeça e sua mãe soltou um suspiro buscando se acalmar.
- Que o senhor tenha piedade dessa alma corrompida!
Anouk revirou os olhos, Frederic não parava de falar.
- Sabe o que eu falei para ele?
O homem franziu o cenho quando a resposta de Anouk não veio.
- Anouk?! - Ele chamou, estalando os dedos na frente do rosto dela. - Sabe o que eu falei para ele?
Anouk suspirou.
- O que? O que você falou para ele?
Frederic estufou o peito, convencido.
- Eu falei: no dia que você conquistar uma mulher bonita como a que eu conquistei, nós podemos conversar!
O homem olhou para Anouk esperando algum tipo de aprovação, mas a garota estava com o olhar vidrado em algo.
Eles estavam na praça, parados sobre as pedras enquanto o sol os aquecia e o cheiro de chuva prestes a cair pairava no ambiente.
E o que Anouk tanto olhava?
O príncipe.
Lá estava ele sob o pedestal, com seu olhar confiante e sua pose imponente como a de um guerreiro.
Mas, havia algo diferente...
Dessa vez Lucien sustentava um sorriso sutil e segurava um lírio branco.
- Anouk? O que você está olhando?
- Nada. Vamos.
Anouk saiu na frente com a cabeça baixa e os braços cruzados, mas não demorou muito para Frederic a alcançar com seus passos largos.
- Eu queria poder ver...
- O-o que? Ver o que?
Frederic olhou confuso.
- Os vestidos que a senhorita irá provar hoje, oras.
- Mas, eu entendo que não posso. Se o noivo ver o vestido antes da cerimônia, o casamento está fadado à ruína! - Ele completou.
Anouk quase riu de indignação.
Aquele casamento já estava fadado à ruína.
Algum tempo depois os dois chegaram em seu destino.
Frederic ficou do lado de fora enquanto Anouk entrou na boutique de noivas.
O lugar exalava um cheiro de rosas brancas e possuía decorações douradas e românticas.
A balconista ficou muito animada com a presença de Anouk.
Guiou a garota por toda a Loja e selecionou os mais bonitos e mais luxuosos vestidos.
- Ah! Esse! Se Frederic te ver caminhando até o altar com esse vestido, ele vai ficar ainda mais louco por você!
- Uau. - Anouk respondeu em um tom monótono, mas a mulher não notou.
- Você deve estar feliz né. - Falou desamassando a barra de um dos vestidos. - É o sonho de qualquer mulher casar com um homem como o Frederic!
Todos estavam curiosos com o casamento de Anouk - herdeira de uma das famílias mais bem sucedidas da região - e de Frederic, o homem mais rico da pequena cidade francesa.
Todos empolgados.
Menos a noiva.
Foi uma notícia tão repentina.
De repente, duas pessoas altamente ricas se apaixonaram perdidamente.
Que coincidência.
Que... conveniente.
- É... eu estou muito feliz. - A voz falhou. - Mesmo.
Anouk segurou os vestidos tentando esconder sua expressão de desgosto e caminhou até o provador.
Ela fechou a porta do lugar e se virou para o espelho, se surpreendendo ao notar que o vidro do mesmo estava trincado.
Mas, aquilo não tinha a menor importância, então ela apenas se sentou em um banco perto da porta e ficou lá por um tempo, alternando o olhar entre o vidro quebrado e os vestidos esparramados pelo chão.
Sem pressa.
Sem interesse.
Soltou um suspiro, percebendo que teria que provar os vestidos de qualquer modo e se levantou, pegando o primeiro que viu pela frente.
Depois de se vestir, ela se virou para o espelho, vendo seu reflexo distorcido no vidro quebrado.
O vestido era muito desconfortável, mas, de fato, deslumbrante e majestoso. Era volumoso na parte inferior, com uma longa cauda que se arrastava pelo chão. Tinha mangas bufantes, flores bordadas e renda na parte do busto. Seu tecido era macio e sutilmente brilhante.
Era lindo.
Por um momento, Anouk até se distraiu, hipnotizada com seu reflexo distorcido, mas belo.
Ela até pegou os outros adereços.
Os sapatos. As luvas. O véu.
Olhou por tanto tempo, que se sentiu no limiar da loucura quando começou a ouvir o som de batidas de um coração.
No começo, ela pensou que era seu próprio coração, demonstrando ânimo com aquele casamento pela primeira vez.
Mas, foi ficando cada vez mais alto, à medida que era impossível ser um coração.
As paredes tremiam com os batimentos violentos e Anouk caiu no chão, tapando seus ouvidos que pareciam prestes a sangrar.
Ela apertou os olhos com força e tentou regular sua respiração.
Ofegante, e sem suportar mais aquele ambiente, Anouk abriu seus olhos de súbito.
E quase caiu para trás ao notar gotas de sangue escorrendo pelo vidro estilhaçado do espelho.
Ela se levantou abruptamente e viu que não era só o espelho que estava daquele jeito...
O vestido... também estava coberto por aquele líquido carmesim.
Ela conteve um grito.
E começou a cambalear para fora da sala, caindo e tentando se apoiar nas paredes.
Sua visão estava turva e seu ouvido zumbia.
- Você está bem? - A voz da balconista soou como se estivesse debaixo d 'água.
Anouk passou direto pela porta, ainda cambaleando.
O pequeno sino pendurado na porta balançou e o som atraiu a atenção de Frederic.
- Anouk? - A voz parecia distante.
- Anouk?!
A voz de Frederic desaparecia conforme Anouk se afastava, deixando-o plantado na calçada da boutique de noivas.
As pessoas na praça pareciam simples borrões, e todas elas se afastavam quando Anouk passava.
Uma dessas pessoas parou. Mesmo com tudo desfocado, Anouk ainda pôde ver a expressão de confusão e julgamento naquele rosto que lhe era tão familiar. E os cabelos loiros ondulados caindo sobre os ombros da figura.
- O que há de errado com você?
O som do chafariz - misturado com aquele zumbido horrível - dificultava totalmente a compreensão, mas, Anouk ainda podia reconhecer aquela voz.
Claro que ela reconheceria.
Já a ouviu em todas as versões.
Em alegria, em ânimo, em tristeza, em frieza, em raiva, em indiferença...
Era Evangeline.
Os lábios de Anouk pareciam costurados, mas mesmo que pudesse falar, sabia que as palavras morreriam em suas entranhas antes mesmo de sair.
- Meu Deus. O que há com-
A voz de Evangeline foi subitamente cortada, quando aquela dor impossível atingiu seu ápice, como se fosse um martelo atingindo a cabeça de Anouk.
Antes de abraçar a escuridão, ela notou sob o ombro de Evangeline, uma figura negra que a observava ao longe.
Ela se destacava, como se observasse um espetáculo.
A visão de Anouk foi tomada por uma alva branca. Não era nada sobrenatural ou interdimensional, era simplesmente o teto de seu quarto, ainda que fosse um mistério a forma como ela chegou até o local.
A sensação de torpor era tão forte que o teto parecia girar e Anouk sentia vertigem ao tentar lembrar das últimas horas.
- Vejo que acordou.
Anouk rapidamente se virou na direção da voz firme e encontrou sua mãe sentada em uma cadeira no canto do quarto.
- Você poderia me explicar por que deixou Frederic plantado na frente daquela boutique? - Katherine questionou, tentando conter a voz.
O silêncio pairou no ar por alguns instantes.
As memórias ainda turvas.
- O-onde... - Anouk começou, com a voz tão fraca e falha que mais parecia um ruído. - Está o vestido?
Katherine franziu o cenho e se levantou, aproximando-se da cama.
- Exatamente. Essa é a questão. Você não experimentou nenhum vestido para o casamento Anouk!
- E-eu... eu estava vestida de noiva... e-eu... eu saí de lá vestida de noiva!
- Você está ficando louca, minha filha? Você mal entrou na boutique e saiu de lá parecendo uma... uma... esqueça! Amanhã você voltará lá com Frederic e escolherá o mais belo dos vestidos!
A mulher respirou fundo, se virou e caminhou para fora do quarto em passos rápidos e pesados - o som do seu salto ecoando ao longe, enquanto Anouk olhava para o teto, imersa em pensamentos.
Ela ficou assim por horas.
Viu seu quarto escurecer à medida que a noite caía e a luz da lua avançando sobre o assoalho de seu quarto.
Parecendo sonâmbula, Anouk afastou os lençois brancos e se levantou, seu semblante abatido e apático enquanto seus pés tocavam o chão frio.
Ela foi banhada pela luz branca enquanto se aproximava da janela.
Colocou suas mãos sobre o parapeito e fechou os olhos.
Uma lágrima solitária rolou por sua bochecha enquanto a brisa suave da noite preenchia seus pulmões.
- Venha até mim
O vento pareceu ficar mais forte, os cabelos de Anouk e sua camisola branca balançaram violentamente.
- Por favor... venha até mim.
- E-eu imploro.
- Anouk?
- Anouk! Acorda!
- Já está na hora.
Anouk abriu os olhos, vendo a imagem de seu quarto desfocado.
Katherine estava ao seu lado, a sacudindo pelos ombros.
- Vá já se arrumar! Frederic já está te esperando!
Anouk se sentou na cama, sua cabeça latejava e tudo parecia girar.
Sua visão demorou para se ajustar, mas quando isso aconteceu, a primeira coisa que ela viu foi sua mãe.
Ela estava... estranha... assombrosa.
Katherine usava um vestido todo preto, um chapéu com um véu da mesma cor que ia até seus olhos frios e com olheiras profundas.
Os lábios e a pele da mulher tão vaidosa estavam secos.
Parecia que ela estava indo para um velório.
Anouk quis perguntar, mas lhe faltou forças, e quando se deu conta, a mulher já havia sumido pela porta.
A garota então se levantou, lutando contra a tontura para continuar de pé.
Ela pegou a roupa que estava pendurada em uma cadeira e se vestiu.
Logo estava pronta. Seus cabelos castanhos avermelhados caíam sobre seus ombros. Seu rosto estava coberto por uma maquiagem leve que não era capaz de esconder o abatimento. Vestia um vestido branco rodado que ia até seu joelho com um casaco preto de lã por cima, e nós pés um sapato também preto.
Não demorou muito para se ver andando pelas ruas de pedra com a ilustre companhia de Frederic, que estava milagrosamente calado.
Não só calado, como também muito estranho.
Frederic também usava roupas pretas, tinha um semblante cansado, triste e caminhava de cabeça baixa.
Por um instante, Anouk pensou que tinha o chateado por fugir naquele dia, e se sentiu satisfeita.
Mas, logo percebeu como todos pareciam estranhos naquela manhã.
Não só sua mãe e Frederic, mas todos da cidade.
Cada pessoa compartilhava as mesmas características: semblante cansado, vestes pretas e cabeças baixas.
Alguns tinham olhares de raiva e julgamento, dirigidos diretamente para Anouk.
Parecia que, do dia para noite, a escuridão havia caído sobre a cidade.
Até o céu estava nublado, as ruas escuras e acinzentadas.
E o mal estar só crescia dentro de Anouk.
Uma estranha sensação de ter feito algo errado, de estar exposta e desamparada.
Ela sentia como se fosse vomitar a qualquer momento.
Então, no final da rua, a boutique de noivas brilhou como um farol sombrio.
Um raio cortou o céu enquanto Anouk e seu noivo indesejado marchavam até a loja.
Lá dentro as coisas não eram tão diferentes. A loja tinha uma iluminação que, na melhor das hipóteses, era péssima.
A atendente tão silenciosa e estranha quanto os outros moradores da cidade, guiou Anouk até os vestidos e passou suas mãos pálidas e ossudas por eles, suas unhas exageradamente grandes produzindo um som agoniante ao tocar os tecidos.
Anouk não queria ficar nem mais um segundo ali.
Tomou os vestidos em suas mãos e caminhou sob a luz tremeluzente do corredor em direção ao provador.
Uma vez lá dentro, provou cada vestido o mais rápido que pôde.
Não houveram intervenções dessa vez, mas, parecia haver um relógio cronometrando a chegada de algo latente.
Algo que deixava o ar denso e puxava toda a vitalidade de Anouk.
Ela se apressou.
E foi embora após escolher um lindo vestido.
Ao anoitecer, um novo cenário esperava pela garota.
O padre dentro do confessionário.
A igreja vazia, com uma iluminação amarelada quase se apagando.
Os trovões ecoando do lado de fora.
E os relâmpagos refletindo nos vitrais coloridos.
Anouk ajoelhada sobre o genuflexório, realizava o sacramento da penitência.
- Por favor padre... abençoe-me, e conceda a absolvição dos meus pecados. - Pediu com a voz trêmula e a cabeça baixa.
Do outro lado, no breu do confessionário, o padre olhava para a situação com um olhar severo.
O homem pigarreou.
- De nada adianta minha benção, minha jovem, se seu coração não mudar. - Respondeu, com a voz rouca.
- Se arrependa genuinamente e se livrará do fogo do inferno.
Anouk ergueu a cabeça, olhando para o vazio.
- Agora, reze três Rosários e jejue na próxima semana, assim, sua alma poderá encontrar a luz. Vá, e não volte a pecar.
- Sim, padre.
Em seguida, Anouk se levantou do genuflexório, sentindo como se um peso saísse de suas costas.
Ela soltou o ar que estava preso em seus pulmões, em uma rajada pesada e fria.
E caminhou em direção à saída, banhada pela luz alaranjada e pelos clarões dos raios.
Suas pernas estavam trêmulas, mas cada vez que ultrapassava uma coluna de bancos e se aproximava da saída, sentia suas forças se revigorando.
Uma vez lá fora, sentiu a brisa da noite e aquele cheiro de uma tempestade que vai e volta.
O céu estava vermelho como sangue fresco, com nuvens nebulosas e raios cortantes.
Anouk desceu as escadas da igreja, seus cabelos dançando com o vento.
E quando chegou até o piso, notou algo que a deixou encantada, de uma forma que fez seu coração bater mais forte.
Diversos vagalumes voavam pela praça.
Dispersos, brilhantes... livres.
Anouk avançou, caminhando entre as pequenas criaturas brilhantes.
Seus olhos não fugiam delas, suas pernas continuavam avançando de modo quase automático e um sorriso sutil, mas verdadeiro, permanecia em seus lábios.
Anouk parou, e quando olhou para frente, viu um pedestal.
Um pedestal que ela conhecia bem.
E que agora estava vazio.
Ela olhou confusa. Um lírio branco repousava no lugar que antes se estendia a figura imponente do príncipe.
Ela se aproximou e tomou o lírio em suas mãos, no mesmo instante, um raio cortou o céu, iluminando uma mensagem gravada no mármore:
Príncipe Lucien, o guerreiro da liberdade.
Por um instante, o ar faltou em seus pulmões, uma pontada de euforia.
Anouk passou seus dedos pela mensagem esculpida, enquanto seus olhos refletiam o brilho dos raios.
Ela sentiu como se o simples ato de tocar aquelas palavras fosse capaz de libertá-la.
Mas isso não aconteceria.
Ela fechou os olhos.
E quando os abriu novamente...
Já era o grande dia.
Anouk foi cuidada e preparada pelos melhores profissionais, mas permanecia indiferente diante disso já que não lhe causava nenhum tipo de afeição.
A cada segundo. A cada minuto. A cada vez que o ponteiro do relógio se movia. Ela podia sentir. Podia sentir sua vida, como sempre a conheceu, sendo levada pelo vento para bem longe.
Era como se estivesse sendo arrastada até o inferno, aos poucos, sem pular uma etapa sequer.
As palavras morriam em seu interior. As lágrimas ardiam em seus olhos e tudo parecia um pesadelo.
Todos sorriam e festejavam, com uma felicidade que não pertencia a ninguém.
E ela se sentia cada vez mais fraca.
- A noiva está pronta!
Anouk olhou para seu reflexo.
Mal se reconheceu.
Cabelos longos perfeitamente arrumados.
Maquiagem pesada.
Acessórios de ouro.
E o belo vestido, com seus brilhos salpicados refletindo na luz branca.
- Você deve estar tão feliz! E não é para menos, hoje é seu dia!
Anouk assentiu, com um sorriso automático sem mostrar os dentes e lágrimas nadando nos olhos.
Meu dia...
- Está chegando a hora. Vou te deixar um pouco sozinha, você deve estar tão nervosa!
Anouk balançou a cabeça em concordância e secou seus olhos úmidos com as costas da mão assim que a mulher saiu da sala.
Por um tempo, ela ficou apenas encarando seu reflexo no espelho, desejando acordar daquele pesadelo.
Depois, ela se levantou e caminhou até a janela, segurando o majestoso vestido.
O céu estava nublado, como se soubesse que aquele era um dia sombrio.
Já a rua, estava repleta de pessoas - cantando, dançando e festejando.
Aquilo despertou um novo sentimento em Anouk, um sentimento que estava maquiado pela apatia: raiva.
Ela voltou até a frente do espelho e abaixou sua cabeça, deixando que as lágrimas caíssem.
Permitiu que todos aqueles sentimentos fossem expurgados de seu corpo cansado.
Em meio às lágrimas, seus olhos se abriram e encontraram algo que a fez erguer a cabeça apenas para lançar um olhar decidido para seu próprio reflexo.
Uma tesoura.
Ela alcançou o objeto e sem pensar duas vezes, levou o mesmo até seus longos cabelos.
Logo, os fios castanhos avermelhados estavam espalhados pelo chão.
Seu cabelo agora estava na altura do queixo, em um corte repicado.
Ela sorriu em meio às lágrimas.
Mas seu sorriso rapidamente se desfez quando ela viu gotas carmesim caindo pausadamente no assoalho branco.
Seus olhos se arregalaram.
O ar faltou em seus pulmões.
Ela olhou para suas mãos trêmulas e a tesoura escapou, produzindo um som metálico ao tocar o piso.
- N-não...
- Anouk! Anouk, o que você fez?!
Katherine irrompeu pela porta, como um furacão.
Anouk seu virou, ainda com as mãos estendidas e uma expressão de choque no olhar.
- M-mãe... e-eu...
Katherine avançou sobre ela e segurou seu rosto com as duas mãos.
- O que você fez com o seu cabelo? - A mulher gritou fazendo Anouk franzir o cenho. - E por que você está chorando? Está quase na hora! Você está tentando destruir esse casamento?!
Katherine secou o rosto de Anouk delicadamente, mas ainda havia raiva em seu olhar.
- Vamos!
Antes de deixar a sala, Anouk vestiu suas luvas brancas enquanto um único questionamento rondava sua mente:
Por que... por que ela não vê?
Uma vez na frente da igreja, Anouk observou o ambiente. O lugar estava repleto de pessoas. Um carro Citroën DS preto - decorado com fitas brancas - estava estacionado na frente. E ao que tudo indicava, Frederic já estava no altar.
Anouk respirou fundo e subiu as escadas indo de encontro com Bernard.
- Você está linda, filha. - o homem falou.
Katherine olhou ainda com uma expressão de desaprovação e colocou o véu branco sobre a cabeça da filha.
Em seguida, a mulher se retirou sem falar nada e caminhou elegantemente até a entrada lateral da igreja.
Bernard e Anouk cruzaram os braços e subiram os degraus restantes.
Assim que colocaram os pés dentro da igreja a atmosfera mudou.
Anouk se sentiu ainda mais tonta, podia sentir o suor frio escorrendo de sua testa e temeu não aguentar até o fim da cerimônia.
Bernard ficou sério, com uma expressão sombria demais para a ocasião.
Os convidados estavam todos olhando para frente, imóveis e o mais estranho é que todos usavam roupas pretas.
Conforme Anouk passava por eles, via seus rostos sombrios e indiferentes, com olhos fundos, olheiras profundas e lábios pálidos.
E nenhum deles se virava para olhar para a noiva.
Anouk já estava se sentindo mal o bastante e por isso decidiu parar de olhar para seus estranhos convidados.
Ela voltou seu olhar para frente e encontrou algo ainda mais estranho: o padre, vestido com uma batina vermelha, tinha um sorriso de orelha a orelha.
Frederic estava parado no altar, abatido como os demais convidados, mas também sorrindo.
Toda a iluminação na igreja era fraca, mas no altar era praticamente nula, ela dependia das pequenas lâmpadas na parede lateral da igreja e de algumas velas próximas ao padre.
Anouk continuou caminhando ao lado de seu pai. Por um instante, ela sentiu vontade de largar o braço de seu pai e correr para longe, mas, o homem a segurou mais firme como se fosse capaz de ler seus pensamentos.
A cada passo, Anouk se sentia mais fraca e impotente, embalada pela canção sombria do pianista e fuzilada pelo olhar bizarro de seu noivo.
Ela finalmente passou pelo banco da frente, onde Katherine estava sentada, e não pôde evitar que seu olhar fosse até a mulher.
Katherine estava estática, seu olhar fixo no altar. E ela parecia muito diferente de minutos atrás, como se tivesse adoecido em pouco tempo.
Anouk engoliu seco e voltou seu olhar para frente.
Ela subiu um pequeno degrau e seu pai a soltou, entregando-a para Frederic, que já estava com a mão estendida.
Ela hesitou, mas logo colocou sua mão sobre a de Frederic.
Em seguida, olhou para o padre e se sentiu ainda mais atordoada. O sorriso do homem era composto por uma longa fileira de dentes pontiagudos e amarelados.
Anouk se virou para Frederic, como se encarar aquele sorriso por muito tempo fosse um pecado.
- Meus filhos Anouk e Frederic... - O homem começou, com uma voz áspera. - Vindes aqui para unir-vos pelo matrimônio.
Anouk acidentalmente olhou para seus convidados e a visão do altar era ainda pior, parecia um exército de mortos vivos sentados nos bancos.
Entre eles estava Evangeline, com um olhar tão morto que fez Anouk fechar os olhos por um segundo, desejando que aquilo acabasse logo.
Depois de alguns minutos de perguntas intermináveis e um clima sombrio, o padre finalmente fez a grandiosa pergunta:
- Frederic, você aceita a senhorita Anouk como sua legítima esposa?
- Aceito. - Frederic respondeu quase antes do padre terminar a frase.
- Anouk...você aceita o senhor Frederic como seu legítimo...
Antes que o padre concluísse a frase, um estrondo de trovão ecoou pela capela, seguido pelo som do galope pesado de um cavalo na rua de pedra.
Os convidados esboçaram uma reação pela primeira vez desde o início da cerimônia - surpresa.
Anouk inclinou sua cabeça e olhou na direção da entrada da igreja.
Lá fora, o céu estava cinza e nebuloso. Os raios serpenteavam e a chuva começava a se intensificar.
Mas o que mais chamava atenção era uma figura totalmente vestida de preto que descia de um cavalo negro.
Anouk sentiu seu coração bater mais forte e mal notou quando largou as mãos de seu noivo.
A figura lá fora, subiu as escadas e avançou para dentro da igreja, atraindo o olhar de todos.
Anouk não demorou para reconhecê-lo.
- L-Lucien. - Murmurou.
Lucien continuou a caminhar em passos pesados que ecoavam por toda a igreja em direção ao altar. As gotas de chuva pingavam de seu corpo. E cada vez que ele direcionava seu olhar para algum convidado, este caía em lágrimas.
Tudo aconteceu tão rápido, mas pareceu uma eternidade.
Em meio ao som dos passos, da tempestade, dos lamentos - e também da presença hipnotizante do príncipe - Anouk não pôde notar a expressão de espanto no rosto do padre e no de Frederic.
Lucien finalmente parou diante de Anouk e olhou sob o ombro dela, diretamente para o padre.
O rosto do homem se contorceu, seus olhos ficaram totalmente brancos e lágrimas carmesim rolaram pelas suas bochechas. Logo depois, sua mandíbula pendeu para baixo, de uma maneira antinatural.
Enquanto o homem tombava para o lado, diversos vagalumes brilhantes saíram de sua boca.
Anouk poderia ficar assustada, deveria, mas, ficou encantada.
Frederic estava atônito. Ele tentou correr, mas teve sua fuga interrompida por Lucien que o segurou pelo pescoço com sua mão pálida e ossuda.
O príncipe ergueu Frederic no alto, suas unhas afiadas perfurando o pescoço do homem.
Antes que o ar nos pulmões de Frederic se esgotasse totalmente, Lucien o arremessou para longe.
Anouk conseguiu ouvir o som das costelas dele se quebrando ao bater na parede, mas ele não tinha forças nem para se levantar.
O príncipe olhou para Frederic por alguns segundos, com repúdio, antes de voltar seu olhar para Anouk que estava extasiada.
Ele estendeu a mão para ela e ela não precisou de muito tempo para corresponder.
Assim que tocou a mão de Lucien, notou que a luva branca de renda que cobria seu pulso estava completamente vermelha. Gotas de um líquido da mesma cor pingavam sobre o chão.
Ela se sentiu tão confusa, mas também sentiu que não deveria se preocupar com aquilo.
Ela sorriu.
Lucien a tomou nos braços.
E começou a caminhar até a saída da igreja.
Enquanto as pessoas choravam, presas em seus bancos.
E Frederic lutava para recuperar o ar.
A igreja voltou a brilhar, cada vez que se aproximavam da saída, brilhava mais.
Então, Anouk fechou seus olhos.... e encostou sua cabeça no peito de Lucien.
Tudo era tão silencioso dentro dele. Exatamente como ela esperava.
Então ela ouviu sua voz melodiosa. Pela última vez.
- Agora você pode dormir... Anouk.
Comentários
Postar um comentário