Manequins
Eu costumava viver em uma daquelas cidades pequenas que só têm uma praça, uma igreja e em que todos se conhecem.
Mas não tinham só essas coisas lá.
Havia também uma casa abandonada que carregava uma lenda.
Segundo os mais antigos, no porão daquela casa havia vários manequins e eles não eram inofensivos.
Era absurdo, mas convincente o bastante para ninguém ousar chegar perto daquela casa.
Ela ficava em uma rua mais afastada, próxima da saída da cidade. Era verde e cercada por um matagal alto.
E eu realmente passei longos anos da minha vida achando aquela lenda estúpida e completamente sem fundamento.
Principalmente considerando que ninguém nunca tinha sido visto lá, tampouco os tais manequins.
Mas tudo mudou naquela maldita noite.
O ano era 2018.
Minha amiga Audrey e seu irmão Derek tinham ido dormir na minha casa.
Era madrugada, por volta das duas da manhã, e nós estávamos jogando conversa fora.
Naquele tempo, nós estávamos viciados em andar de patins pelas ruas da nossa pacata cidade, então não demorou muito para algum de nós ter aquela maldita ideia.
- E se a gente sair para andar de patins agora? - sugeriu Audrey.
Eu achei uma brilhante ideia.
Derek também.
E assim, tão tarde, eu, Audrey e Derek saímos para a noite, seguindo nosso espírito de adolescentes rebeldes.
Claro que saímos escondidos e calçamos nossos patins longe da minha casa para que não houvesse a possibilidade de sermos vistos.
Depois, demos nossas mãos e deslizamos pelas ruas.
Que nem três idiotas.
Então fomos longe demais e vimos aquela maldita casa iluminada pela luz laranja de um poste que lutava para continuar funcionando.
- Quem topa ir lá? - Derek falou sorridente.
E nós avançamos, avançamos como se fôssemos invencíveis.
Nos sentamos na calçada da casa e tiramos nossos patins.
Derek constantemente ria e brincava que algo iria pular do matagal e nos atacar.
E nós realmente nos assustávamos com cada barulhinho que saía dali.
Mas nos recusávamos a ir embora, nos recusávamos a largar aquela “missãozinha” estúpida.
Segurando nossos patins pelos cadarços, avançamos até o portão marrom enferrujado.
Não estava trancado, então não tivemos dificuldade alguma em entrar.
- E agora? - Audrey questionou.
- Agora o quê?
- Pra onde nós vamos primeiro?
- Vamos ver a casa, deixa o melhor para o final.
- O melhor? - perguntei.
- É. O porão.
- Tá. Vamos entrar logo que eu estou congelando aqui! - Audrey falou com a voz trêmula.
Subimos algumas escadas que levaram até a porta da frente. Derek girou a maçaneta e a porta surpreendentemente se abriu.
Assim que nos deparamos com o breu no interior da casa, pude ver a coragem escapando de cada um de nós.
Derek, que estava risonho, ficou sério de repente, e eu confesso que não falei para irmos embora naquele momento pois queria ver até onde ele aguentava.
Pensei que ele fosse desistir rápido, mas ele não quis parecer covarde.
Derek deu um passo à frente, entrando no cômodo escuro.
Eu e Audrey nos entreolhamos, banhadas pela luz fraca do poste.
E então seguimos nosso amigo.
Não dava para ver nada, até que Derek tirou seu celular do bolso e ligou a lanterna.
A primeira coisa que notamos foi a parede branca mofada, depois a janela embaçada mostrando a floresta e por fim o chão que estava imundo e repleto de baratas.
Audrey deu um pulo para trás quando um dos insetos passou perto demais do seu pé.
Derek riu.
Ele voltou a passar a luz pelo cômodo, mas não havia nada de interessante ali.
- Vamos logo ao que interessa. - falei, entediada.
- Verdade. Derek, a Kitty tem razão. Vamos ver se a porra dos manequins realmente está no porão e depois dar o fora daqui.
- Como vocês duas são chatas. Estamos aqui pra explorar, não pra passar o olho e ir embora. Vocês podem ir sozinhas até o porão se quiserem, eu vou olhar o resto da casa antes.
Ficamos paradas e Derek olhou ao redor mais um pouco antes de se virar para a gente com um sorriso sarcástico.
- Vocês não têm coragem de ir sem mim, né? - ele riu.
- Claro que temos! - respondi. - Você pode ficar aqui o tempo que quiser e tirar foto com seus amigos manequins, se eles realmente estiverem aqui. Eu e Audrey vamos no porão agora mesmo e depois vamos dar o fora. - Agarrei a mão de minha amiga e a puxei até a saída.
Audrey e eu descemos as escadas. Naquele momento eu podia jurar que ouvia as batidas dos nossos corações.
Derek não veio atrás de nós e como estávamos consumidas por uma urgência de demonstrar bravura, avançamos em direção ao porão.
Eu estava tão hesitante quanto Audrey, mas conseguia esconder melhor que ela.
Nós duas descemos a escada escura e quando chegamos lá embaixo, senti minhas narinas arderem com o cheiro horrível que tomava o lugar. Era uma mistura de mofo, amônia e... carne podre.
- Que cheiro é esse?! - Audrey reclamou enquanto tossia.
- Não sei, vem.
Cobrimos nossos narizes com nossas blusas e continuamos adentrando o cômodo.
- Precisamos de uma lanterna. - falei.
- Vou pegar meu celular.
Paramos no meio do cômodo. O silêncio era inquietante, mas não pior do que o som que veio depois.
Eram como... passos.
- Derek? - chamei, torcendo pra que fosse ele.
Mas não havia motivos para os passos dele soarem como se seus pés fossem de plástico.
O som ficou mais alto, mais próximo, e nesse mesmo instante Audrey ligou a lanterna de seu celular de súbito.
E o que vimos... me assombra até hoje.
Aqueles monstros estavam lá.
Aqueles malditos manequins.
Eles se moviam como cópias grotescas de humanos.
Eles estavam vivos.
E Audrey não conseguiu reagir a tempo.
Aquelas malditas mãos de plástico a agarraram pelos ombros, perfuraram sua pele e dilaceraram sua carne.
Eles a despedaçaram.
Ela mal teve tempo de gritar.
Ou de arremessar seus patins nas faces daquelas aberrações artificiais.
E eu só consegui correr.
Não me lembro de nada do que aconteceu depois.
Eu juro.
Quando tento, minha mente fica em branco.
Só sei que eu e minha mãe nos mudamos daquela cidade e eu só fui saber de Derek alguns anos depois.
Parece que ele começou a... enlouquecer.
E depois de alguns meses, o encontraram morto em seu quarto, de uma maneira grotesca.
Um simples erro pode mudar sua vida para sempre.
Um simples erro.
Eu sei quem fez aquilo com Derek.
Sei porque não me sinto bem há alguns dias.
Estou enlouquecendo.
E sei que eles estão chegando.
Posso ouvir seus passos.
Porque um simples erro pode mudar sua vida para sempre.
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